Inquietar

Ficcção, poesia e doses homeopáticas de realidade

Leftéria e as horas

Um texto realmente delicioso de ler do destilha.wordpress.com. Desconfio que seja ainda melhor de ouvir: Leftéria e as horas.

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Demônios e Pesadelos

Ela habitava o mundo onírico dos sonhos tal qual faziam todos os seus semelhantes. Era uma habilidade inata à sua espécie, ainda que frequentemente negligenciada. Acreditava-se que os sonhos encerravam em si mistérios, disparos caóticos de informação carregados de significado. Ela sonhava, e sempre lembrava.

Um dia decidiu conjecturar. Os pesadelos lhe intrigavam, especialmente aqueles que envolviam demônios. Não eram cíclicos, mas possuíam uma constância. A memória lhe permitia reconhecer os seres que atravessavam seu imaginário. O mais intrigante deles era o ser-em-pele-de-homem.

A primeira vista ele se parecia com um homem, mas ao olhar com mais atenção era possível identificar as marcas de corte e de remendo na sua pele. Também a tonalidade parda, como se a mesma tivesse sido curada e queimada, tal qual couro antes do uso. A face injetada e as expressões artificias não deixam dúvida: tratava-se de um outro ser vestindo pele humana.

Logo após o primeiro encontro com esse ser, ela teve um lampejo: como será que se parecem aos coiotes, os xamãs que se vestem com a pele do animal para percorrer o seu mundo? Seria aquele ser, um xamã coiote penetrando no habitat humano? Por que diabos alguém se fantasiaria de homem, se não fosse para experimentar o mundo tal qual um homem?

Uma vez ela e o ser-em-pele-de-homem ficaram frente a frente. Estavam no mundo de sonho dela e também no seu próprio espaço: ela estava na porta da frente da residência em que viveu toda a infância. Dentro da casa, apenas o irmão dormia. A noite iriam fazer uma festa, mas o ser-em-pele-de-homem não tinha sido convidado e por isso não podia entrar. Entretanto a porta estava aberta e pelo jeito dele se movimentar, ele queria entrar. Ela permaneceu em pé diante da porta incapaz de fechá-la. Por outro lado, o ser-em-pele-de-homem também era incapaz de ultrapassa-la. Ela percebeu que ele precisava de convite para habitar aquele espaço. Ela quase cedeu a tentação de convida-lo. Após um longo período de tensão e confusão mental, ele se foi. Ela pode fechar a porta e retornar. Se virou de costas e sentiu medo. Olhando por sobre os ombros, viu que o ser-em-pele-de-homem permanecia na rua. Distante, incapaz de ameaça-la, mas ainda observando. Era o que ele mais fazia: observava.

A primeira vez que que ela viu o ser-em-pele-de-homem foi no espaço onírico dos demônios confabuladores. Ao menos ela acreditava estar lá. Os demônios confabuladores consistem em duas entidade femininas – que ela gosta de pensar que são irmãs, apenas por uma questão de estética – a respeito do qual, normalmente, ela escuta as vozes. Ela entende o que os demônios confabuladores falam, ainda que não seja capaz de significar: o diálogo entre elas é um jorro desordenado de palavras desconectadas, como um poema dadaísta. Em geral, ela só compreende a última fala: àquela que revela uma conspiração para matá-la. Ela não tem certeza se compreende essa fala por méritos próprios, ou se a compreende devido a ação que a segue – e portanto é a ação e não a fala que ela decodifica. Esse é provavelmente um dilema indissolúvel. O fato é que os demônios confabuladores são bastantes sensíveis a gritos e posições de poder. É fácil se desvencilhar deles, portanto não se trata de uma ameaça real, a não ser que se esteja no universo onírico deles. Ou que eles estejam fora do plano dos sonhos.

Os demônios confabuladores costumam aparecer no início do sonho. Ela lembra de uma noite em que estava entregue as peripécias de Morfeu, naquele estado pré-sonho e pré-sono preenchido com imagens aleatórias onde era muito difícil distinguir o real do imaginário. Ela ainda se sentia lúcida o bastante e avançou sobre um espaço desconhecido, cujas paredes e o chão guardavam pouca conexão com seus similares humanos. Ela permaneceu perdida nessa dimensão por algum tempo até que começou a ouvir vozes. Vozes que ela compreendia. Decidiu segui-las. Chegou perto, mas permaneceu escondida; ela podia ver silhuetas femininas tagarelando. Se divertiu assistindo aquele espetáculo, até que algum movimento a denunciou. Os demônios confabuladores não entenderam de imediato mas baixaram o tom de voz. Ela só teve dimensão da situação quando se viu cercada pelas duas silhuetas. Estavam muito mais fortes do que em qualquer outro sonho que tivera. Ela precisava correr, ainda que seu corpo não obedecesse e estivesse dolorido como se cada membro tivesse sua energia vital sugada por uma agulha. Ela acordou antes de escapar dos demônios. No escuro infinito que separa o real do onírico ela enxergou com muita nitidez o rosto do ser-em-pele-de-homem, que sorria.

Depois de acordar, um quadro completo com os três demônios veio a sua mente. De todos os demônios, os confabuladores são os que mais aparecem fora do mundo dos sonhos. As mesmas vozes que conduzem ao interior do onírico, emitem sussurros durante o dia. Em momentos de tensão, medo ou aflição. O que elas dizem é sempre desprovido de significado; como um sussurro longínquo que se teme mais pela origem do que pelo conteúdo. E no fundo ela sabe o que teme: que um dia ela se torne uma dos confabuladores.

Há também o ser-sinestesia. Entidade de corpo etéreo, que nas poucas vezes que foi visto com olhos tinha seu corpo recoberto por uma manta marrom. Humanóide apenas da cintura para cima, a criatura é capaz de se arrastar em todas as direções. Sem olhos ou ouvidos ele apenas toca, puxa, aperta, arranha, sufoca. É um demônio sem propósito, que não anuncia nada, não exige nada, não transmite nada. Vazio. As vezes ela vê seu rosto rodeado por uma fina camada de poeira. Feições humanas que se dissipam rapidamente toda vez que ela grita.

A menina-morta é o demônio que mais frequenta seus sonhos. As vezes ela acredita que a menina-morta já habitava aquele espaço onírico antes de ela começar a sonhar com ele. A menina-morta é exatamente o que o nome anuncia: uma mulher bem jovem, de aspecto cadavérico e cabelos compridos. Sua pele é absolutamente repulsiva e o rosto apesar de ser humano e reconhecível é portador de traços macabros. Mas a característica mais assustadora da menina-morta são seus olhos castanhos e opacos. Sempre que se encontram, ela fita a menina-morta bem nos olhos.

A vez mais marcante foi numa noite ao acaso: ela sonhava que dormia, que tinha aberto os olhos e que estava deitada na sua cama. Olhando em direção ao armário, reparou que a porta estava aberta e que dentro havia uma menina enforcada, o corpo inerte e o rosto inchado e pálido. Ela olhou a cena e se perguntou “estará morta?”. Eis que a menina-morta sorriu, mostrou seus olhos castanhos. A menina-morta não conseguia se mexer; tão pouco ela. Se fitaram assim, num misto de insanidade e medo. A menina-morta não responde aos gritos nem aos espaços de poder. A menina-morta sempre está dentro. As vezes ela desconfia que a menina-morta é apenas suas sombra. E aí sente medo.

Nem sempre a menina-morta aparece com sua forma repulsiva de cadáver. Frequentemente, ela se apresenta em outras formas oníricas. O sonho transcorre normalmente, até que um dos personagens começa a agir de forma estranha e seu rosto é tomado pelo olhos castanhos-abismo. E então ela sorri, porque sabe quem está a sua frente e o que é preciso fazer. As vezes corre, as vezes enfrenta, depende da perspectiva.

Uma única vez a menina-morta se manifestou no mundo real. Aliais, se ela fosse considerar as alucinações esse numero poderia subir para três. mas as alucinações não contavam; um vulto ou um susto não eram consistentes os suficiente para que ela perdesse tempo pensando nisso…Entretanto houve uma vez em que ela se sentiu a um passo de perder o controle sobre o próprio corpo. Estava longe de casa, numa cidade desconhecida, cercada de pessoas igualmente desconhecidas. Estava entorpecida, com as portas da percepção abertas. Estavam todos sentados em círculo e na mesa de centro uma faca e um tijolinho de maconha. Enquanto seus novos amigos riam e tagarelavam ela sentiu a sombra se aproximando. As perspectivas estavam distorcidas, ela sabia que seu corpo se encontrava de costas para cozinha e de frente para janela. Mas ela estava enxergando a si mesma, como se estivesse parada em pé de costas para janela… Como se tivesse atingindo uma quarta dimensão onde as três dimensões pudessem ser exibidas todas de uma vez. A sua frente, um quadro de Picasso. E dentro dela um ódio muito grande, todo sintetizado naquela faca que se oferecia na mesa de centro. Tentava mover seu corpo para recuperar o sentido de realidade, mas era como se fosse um títere. Seus olhos castanhos estavam se tornando opacos e por trás de seu corpo pairava a menina-morta. E como se estivesse num sonho, a unica coisa que pode fazer foi afastar os pensamentos malignos que lhe ocorriam, até que tivesse oportunidade de escapar para rua onde a chuva e o frio lhe devolveriam a sanidade.

Quando vislumbrou a pequena tipologia que tinha criado, um receio a assolou: a primeira condição para entender um fenômeno é nome-lo. Por outro lado, a primeira condição para que algo exista é possuir um nome.

Ilha de Páscoa

Post bobo, meio que só para guardar um link que de outra forma eu acho que vou perder.

Eu tenho muito fascínio pelas civilizações pré-colombianas. Não sei explicar bem porque, acho realmente fantástico as cidades que eles construíram. São esteticamente muito interessantes. 

E apesar de achar muito provável que alienígenas tenham existido, sempre gostei mais de imaginar que seres humanos construíram aqueles monumentos. A ideia de que a história não anda para frente, mas serpenteia sobre si mesma – e portanto, uma civilização antiga pode ser capaz de fazer algo que hoje nós não somos, me encanta. Futuramente eu vou desenvolver isso num texto. Por agora eu quero apenas falar da Ilha de Pascoa.

As estatuas cabeçudas e bem características que os Rappa Nui construíram são bem conhecidas. Volta e meia são utilizadas como prova de que alienígenas estiveram entre nós no passado. As estatuas são pesadas e são peças únicas, difíceis de locomover de um ponto ao outro.

As lendas em torno das estátuas diziam que elas iam andando do vulcão até o alto do morro. Uma interpretação possível dessa lenda, é que as estatuas foram transportadas por algum mecanismo de magnetismo. Ok, se estivermos imaginando aliens, encaixa mesmo.

Mas esse vídeo mostra um jeito muito prático de fazer a estatua andar. Não me surpreenderia que os antigos Rappa Nui usassem esse método para levar as estatuas até o alto dos morros e o que sobrasse no decorrer dos anos era a informação de que “a estatua andava”.

https://www.youtube.com/watch?v=yvvES47OdmY

Vi nesse site: http://www.jornalciencia.com/sociedade/diversos/2146-cientista-revela-em-nova-teoria-o-modo-como-estatuas-da-ilha-de-pascoa-foram-deslocadas

E é só isso por enquanto! 

    

  

Eixos de prestação de contas:

– Mídia e divulgação: pessoa responsável por recolher cópias de tudo o que sai na mídia sobre o projeto (seja mídia paga ou espontânea). Também é da responsabilidade dessa pessoa recolher dados e informações sobre a divulgação do projeto nas redes sociais e intenet. 

Quando iniciar a coleta do material? A partir do momento em o projeto gerar mídia. Isto provavelmente vai acontecer durante a execução, quando estiver sendo lançado um produto cultural ou no momento anterior a realização de um evento. projetos grandes, que prevejam vários eventos ou vários produtos, devem dar atenção especial a esse item, pois é bem mais difícil recuperar uma matéria ou anúncio publicado depois de vários meses. 
Dicas: ressalte o nome do patrocinador e do mecanismo de incentivo nas matérias, para deixar claro ao patrocinador a visibilidade alcançada. 

– Memória de execução: pessoa responsável por fazer um pequeno relato de tudo que aconteceu no projeto desde a assinatura dos contratos até a finalização do projeto. Essa pessoa deve relatar as etapas de trabalho – ainda que de forma supérflua. identificar dificuldade e apontar estratégias. A memória da execução não precisa ser aprofundada, mas precisa conter elementos suficientes para que se compreenda o caminho que o projeto percorreu.
Dicas: mesmo que o patrocinador ou o mecanismo fiscal não exijam relatórios parciais, em projetos muito grandes os detalhes tendem a se perder facilmente. Procure manter uma memória atualizada da execução. Caso várias pessoas cuidem da execução, designe apenas uma para compor a memoria afim de evitar a sobreposição de fatos. 

– Memória fotográfica: tudo que acontece no projeto deve ser fotografado. É o jeito mais fácil de contar uma historia e de explicar como o projeto aconteceu. As fotos não são apenas dos eventos ou produtos realizados mas também da fase de pré-produção. O ideal é que as fotos complementem a memoria de execução. As fotos de comprovação não precisam ser realizadas por fotógrafos profissionais. 

– Memória financeira: é a prestação de contas propriamente dita com relação de notas fiscais e recibos do projeto. 
Dicas: verifique – no momento do recebimento – se a nota foi emitida da maneira correta. Não faça pagamentos antes de receber a nota. Não autorize pagamentos sem contrato. Não deixe de recolher impostos.

Destruir, construir, reconstruir

No meu primeiro contato com as idéias anarquistas, lá pelos meus 15 anos, me incomodava e ao mesmo tempo me seduzia o vazio que os textos possuíam sobre a realidade pós-revolucionária. Ninguém sabia ao certo – nem perdia tempo imaginando – como seria uma sociedade anarquista. As discussões giravam em torno do quanto a sociedade atual era ruim, se uma sociedade anarquista teria dinheiro ou não, mas o cotidiano, os conflitos, isso era um assunto nebuloso. Me incomodava, porque nem sempre eu sabia o que responder quando me questionava. Me seduziam porque nesse cenário tudo era possível. O tempo passou, outros textos e outras ideias surgiram, eu mudei de posição inúmeras vezes até chegar aonde estou.

E aonde eu estou? Não sei dizer ao certo, mas tornou-se uma preocupação para mim – quase uma obsessão – saber o que viria depois do grande evento, da revolução, do cataclisma politico que separa o hoje da utopia. E quanto mais pensava no que viria depois menos a ideia de revolução parecia atraente. Quanto mais pensava a respeito, menos vontade eu tinha de destruir.

Eu lembro dos anarquistas dizendo que para construir algo primeiro é preciso destruir. Já concordei, mas hoje em dia eu diria que para construir algo você precisa saber o que quer construir. Antes mesmo de destruir. Ou você autorizaria a demolição do Estádio Independência antes da empreiteira apresentar um projeto para o estádio?

Mais do que qualquer coisa é isso que me deixa cansada no tocante a política. É uma ciência de destruição: do projeto do outro, da candidatura do outro, dos ideais do outros e as vezes do próprio outro. A discussão que agrega espectadores, que interessa, é sempre a que desmerece, independente do compromisso com a verdade. Discutir um projeto para o país/estado/cidade/quarteirão, considerar as dificuldades e múltiplos interesses envolvidos na formação de um projeto, isso não interessa. O que for vir depois, é problema de quem vier depois.

E acho que a superficialidade de cartazes e opiniões deriva disso. Até o perigo das pessoas serem utilizadas como massa de manobra vem daí. Por trás de discursos genéricos como “abaixo a corrupção”, “mais dinheiro para educação”, etc, pode se esconder qualquer coisa de anarquistas a fascistas, de comunistas a ultra-capitalistas.

E qual o trabalho de pensar como seria o mundo de amanha? O mundo em que gostaríamos de viver? Queremos mais dinheiro para educação? Ótimo, de onde sairá esse dinheiro: dos investimentos feitos em segurança pública, dos empréstimos a juros irrisórios do BNDES, das obras faraônicas, do dinheiro gasto em paisagismo urbano, de um novo imposto sobre o rendimento? Não é um discussão assim tão impossível.

Para amadurecer uma opinião política não acho que as pessoas necessitam ter a profundidade de um acadêmico, mas precisam saber – ao menos superficialmente – os reflexos dos chavões políticos que utilizam. “Mais dinheiro para educação” significa o que, mais dinheiro para o professor? Para a escola? Para as bolsas de estudo das universidade? Para programas que incentivem a permanência das crianças nas escolas? Para as creches? para tudo isso? Ok, mas em que ordem? Quem tem prioridade? Se a educação e a saúde estivessem dependuradas num abismo e você só pudesse salvar uma, quem seria?

Acho que as pessoas precisam pensar nisso. Precisam saber o que procuram. Se querem a cada dois anos delegar poderes políticos a um individuo e então não pensar a respeito ou se querem mais transparência sobre os mecanismos governamentais para que possam opinar claramente sobre elas. Se querem mecanismos de participação ou se querem um governo eficiente e que não incomode.

Mas isso não quer dizer que eu não tenha me emocionado com a manifestação de segunda. Achei lindo, de verdade. Bacana ver tanta gente nova ao lado de manifestantes já bem conhecidos de outras causas. E deu para sentir que o movimento – que começou em algum lugar, por que algo desse tamanho não é espontâneo – não tem liderança nem rumo definido e que qualquer um que tente se apropriar dele terá problemas.

Só acho que tá hora de parar de destruir. E começar a pensar no que pretendemos construir daqui para frente. Não podemos ser um país sem projeto pro resto da vida.    

Como impedir que os nazi-fascistas-coxinhas-milicos-de-direita se apropriem do movimento e deem um golpe militar

Logo que as manifestações tomaram as ruas sem uma liderança clara, com uma pauta inconsistente e centenas de cartazes com reivindicações diversas surgiu a preocupação nos movimentos sociais tradicionais que a população fosse utilizada como massa de manobra de outros interesses. A preocupação faz sentido? Faz. No calor da manifestação a multidão não pensa direito e pode repetir atos/palavras de ordem que não concordam. Por isso seguem algumas dicas de como agir caso você desconfie que o cara do seu lado é um enviado da direita-reacionária-reptiliana-burguesa-moralista-de-deus:

1 – Se alguém do seu lado portar um cartaz com alguma frase que você considere ambígua ou perigosa, se aproxime da pessoa e educadamente peça para ela explicar o significado do cartaz.

2 – Argumente calmamente e aponte as contradições que você encontrar no discurso da pessoa.

3 – Sugira outras frases/palavras de ordem que transmitam a ideia central do discurso da pessoa, mas que não tenham significado ambíguo ou perigoso.

4 – Caso a pessoa permaneça convicta de que a frase que te incomodou é boa, simplesmente aceite. Lembre-se que numa democracia mesmo os playboys-alienados-oportunistas-leitores-da-veja-e-espectadores-da-globo tem direito de existir e de expressar sua opinião.

5 – Caso você identifique muitos cartazes/dizeres com frases que pareçam ter sido feitas por espiões-do-imperialismo-americano-da-cia-e-da-PM-hipócrita-do-Aécio, mantenha a calma. Procure pessoas que pensam como você e discuta com elas em qual das duas situações vocês se encontram:

a) Todas as pessoas da marcha sofreram uma lavagem cerebral dos tucanos-anti-petista-odeia-pobre e estão servindo de massa de manobra para Eles. Nesse caso, repita insistente e educadamente os passos anteriores até que a barreira da lavagem cerebral seja vencida. Porque a verdade os libertará.

b) Todas as pessoas da marcha de fato acreditam no discurso que estão reproduzindo conscientemente. Repita insistente e educadamente os passos anteriores mas considere também a necessidade de pensar em alternativas tais quais: fortalecer as instituições politicas e a separação dos 3 poderes afim de evitar um golpe; realizar movimentos paralelos e pacíficos com objetivo de divulgar suas ideias. Por fim, considere também a possibilidade de passar longas férias na Bolívia após a copa de 2014.

Acredito que o melhor jeito de impedir um golpe/contra golpe é discutindo politica de forma profunda, sem utilizar apenas as palavras de ordem do movimento. Só discutindo – sem medo de criticar e nem de ouvir críticas – e sem cassar o direito do outro de se expressar é que a população vai amadurecer politicamente e parar de ser massa de manobra de quem quer que seja. Para isso não é necessário aula de sociologia na escola, educação de qualidade ou transparência nas instituições (tudo isso ajudaria muito, mas não é condição sine qua non). Basta que você vire pro lado e pergunte pro cara-pintada do seu lado o que raios ele quer dizer com aquela palavra de ordem. E, quando ele devolver a pergunta, responda franca e abertamente o que diabo você quer dizer.

Sobre bandeiras – parte 2

Outro ponto em comum nas marchas é a presença da bandeira nacional. Enrolada no corpo, mimetizada em dois riscos de guache no rosto, a tiracolo nas mãos, ela sempre está lá. A ponto de incomodar uma parte do pessoal, que considera a bandeira um simbolo do estado, do fascismo e de tudo aquilo contra qual o movimento luta. 

Particularmente, a bandeira do Brasil não me incomoda. Primeiro porque as manifestações estão acontecendo durante (e por causa) da copa das confederações e qual a única ocasião que faz os brasileiros se vestirem de verde-amarelo e irem para rua comemorar a benção que é ser filho da pátria de chuteiras? A Copa do Mundo. Então, quando eu olho para as pessoas empunhando bandeiras acabo enxergando torcedores; eles estão na rua, reivindicando pautas politicas mas estão vestidos para um jogo de futebol. Até as canções que são entoadas “eu sou brasileiro, com muito orgulho com muito para amor”, “vem para rua” e até o hino nacional (que só cantam a primeira parte, tal qual se faz nas competições esportivas) remetem imediatamente a mística do esporte. E acho bonito para caramba ver essa mística fora do estádio, da frente da TV, por outras causas que não motivar 11 caras a correrem atrás de uma bola.

Por outro lado tem o sentimento de nacionalismo que exacerbado pode levar a situações terríveis de violência. A necessidade de pertencer a um grupo é inata no ser humano e sempre vamos estar buscando nosso lugar no mundo. Se alguém não se sente brasileiro, certamente se sente cruzeirense, feminista, membro da família Silva, católico ou amante de esportes radicais. Nada disso é um problema enquanto o fato de ser cruzeirense ou amante de esportes radicais não for condição minima para que se seja humano.

Traduzindo de forma clara se eu espanco até a morte um sujeito que usa uma camisa do Atlético MG eu sou um idiota e o problema é a relação doentia que eu tenho com o time Cruzeiro e não propriamente a existência de clubes de futebol. Da mesma forma que a moça que ri de um homem que teve o pau decepado não condena a existência do movimento feminista. Ou as cruzadas e bruxas queimadas pela Igreja Católica no passado não inviabilizam a existência da doutrina religiosa.

O nacionalismo só faz mal quando passa a ser condição minima para que se reconheça a humanidade do outro. Senão, é só mais uma forma de interagir e relacionar com o mundo. Sob certo ponto de vista pode ser uma forma idiota de se relacionar com o mundo, mas não é ruim. Empatia com o outro e nacionalismo podem coexistir numa boa.  Daí que eu não veja nenhum problema nas pessoas enroladas na bandeira.  

Além do mais, o hino e a bandeira foram criados lá em 1800 e bolinha mas ao longo do séculos passaram a fazer parte da história e da cultura brasileira. A vida não é estática; se a letra desconhecida e complicada do hino vem de um concurso de poesias fajuto ao longo dos séculos ela foi resignificada pelos brasileiros que a ouviam e faz parte da cultura do país. Tem muita gente que não sabe cantar o hino na integra, mas o considera importante. Assim como tem gente que nunca pegou “O Capital” nas mãos, mas considera um livro fundamental para a humanidade. Ou a Constituição. Ou o V de Vendeta.

Negar as pessoas o direito de portarem os símbolos que lhe são importantes simplesmente porque alguém não gosta deles é uma violência incompatível com uma sociedade democrática.

“Ah, mas e se o sujeito aparecer na marcha com uma suástica? Eu devo aceitar em nome da liberdade de expressão?”.

Em primeiro lugar leia esse link: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_de_Godwin.

Depois eu sugeriria os seguintes passos:

1) Pergunte educadamente para o individuo “Você está usando essa suástica porque você é nazista?”

2) Caso ele responda que sim, chame a polícia. Defender ideias nazistas é crime no nosso país.

3) Caso ele responda que não, que está apenas testando os limites da liberdade de expressão no país, chame a policia. Ele será apresentado aos tais limites que sempre quis conhecer.

4) Caso ele responda que não, que na verdade ele usa a suástica na sua acepção hindu, converse com ele. Explique o quanto o simbolo incomoda e se seria possível que ele encontrasse outro simbolo no vasto vocabulário hindu que significasse a mesma coisa e não incomodasse tanto. Se ele responder que somente a suástica atende as necessidades procure convence-lo a usar a suástica em conjunto com outros ícones que deixassem claro a concepção neo-nazista do gesto. Por fim, acompanhe as ideias do individuo para ter certeza que o discurso elaborado sobre o simbolo é condizente com as suas atitudes. Caso você encontre evidencias claras de nazismo, favor retomar o passo 2.