Inquietar

Ficcção, poesia e doses homeopáticas de realidade

Categoria: Contos

Nota sobre o dilúculo

Eu sonhei com você outro dia, cara. Eu tive vontade de te ligar na hora, mas me contive porque eu sabia o que significava e eu não queria encher seus ouvido com o óbvio. Pensando bem, talvez você gostasse de ouvir o óbvio dos meus lábios… Não, espera, eu é que gostaria de dize-lo para você.

Mas enfim… foi um sonho de imagens bem bonitas, cinematográficas, e cara, fazia tempo que eu não tinha um sonho assim. Já tem um tempo que eu não diferencio mais pesadelo de sonho; é sempre sonho porque já faz muito tempo que eu não acordo assustada, até mesmo quando devia.

Você não me via, ou se via, aparentava não ver. Eu estava deitada, num chão azulejado, exercitando minhas habilidades de encher e esvaziar uma boia de acordo com o movimento das mãos. Era divertido e meio esquisito. E você passou, impressionado com a sua habilidade de fazer metais levitarem. Quanto mais você se aproximava de mim, mais alto o metal subia.

Eu sabia o porquê: a sua habilidade de levitar era na verdade a MINHA habilidade de levitar. Eu quis gritar para você, falar a verdade. E aí veio ela. A menina-morta, que dessa vez estava uns dez anos mais velha (mas chamo de menina, porque não quero criar outro ser inventando um novo nome).

Ela falava, eu respondia. Não sei sobre o que era a conversa, mas era irritante. E ela falava muito. Falava tanto que em determinado momento eu tapei os ouvidos e comecei a gritar “nananananana”. Sim, esse é o meu nível de maturidade ao lidar com um fantasma ou demônio. Gritar “nanananananana”.

Você passou pela porta que misteriosamente desapareceu assim que você saiu. Eu podia te ver através da parede e decidi demonstrar minhas habilidades atravessando-a. Eu não cheguei a terminar de atravessa-la. Em algum momento eu me dei conta que a parede era um espelho. Acabei por enxergar o meu próprio reflexo. Meu rosto era uma caveira, dessas recentes com carne morta por sobre os ossos.

É, talvez no meu sonho eu estivesse morta. Digo isso menos pela caveira e mais porque a menina-morta me puxou para fora da parede e eu não sei o que ela fala mas pela minha expressão era algo tipo “eu não te avisei?”.

Deve ter avisado, mas isso não fez diferença na hora. Eu e ela iniciemos uma discussão que termina em contato físico. Eufemismo para briga.  Acordo com o corpo paralisado dando ordens desesperadas ao meu cérebro para deixar eu mover braços e pernas. ” – Cansei de discutir, sério. Cansei. Deixa eu acordar desse sonho, aliais, eu já acordei você é que não percebeu!”.
Uma hora eu acordei de verdade. Lamentei não saber atravessar paredes, levitar objetos ou encher balões com movimentos de mãos. Agradeci pela pele em volta dos meus ossos ainda estar viva. Quis te ligar, mas era cedo ainda. Dormi.

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Demônios e Pesadelos

Ela habitava o mundo onírico dos sonhos tal qual faziam todos os seus semelhantes. Era uma habilidade inata à sua espécie, ainda que frequentemente negligenciada. Acreditava-se que os sonhos encerravam em si mistérios, disparos caóticos de informação carregados de significado. Ela sonhava, e sempre lembrava.

Um dia decidiu conjecturar. Os pesadelos lhe intrigavam, especialmente aqueles que envolviam demônios. Não eram cíclicos, mas possuíam uma constância. A memória lhe permitia reconhecer os seres que atravessavam seu imaginário. O mais intrigante deles era o ser-em-pele-de-homem.

A primeira vista ele se parecia com um homem, mas ao olhar com mais atenção era possível identificar as marcas de corte e de remendo na sua pele. Também a tonalidade parda, como se a mesma tivesse sido curada e queimada, tal qual couro antes do uso. A face injetada e as expressões artificias não deixam dúvida: tratava-se de um outro ser vestindo pele humana.

Logo após o primeiro encontro com esse ser, ela teve um lampejo: como será que se parecem aos coiotes, os xamãs que se vestem com a pele do animal para percorrer o seu mundo? Seria aquele ser, um xamã coiote penetrando no habitat humano? Por que diabos alguém se fantasiaria de homem, se não fosse para experimentar o mundo tal qual um homem?

Uma vez ela e o ser-em-pele-de-homem ficaram frente a frente. Estavam no mundo de sonho dela e também no seu próprio espaço: ela estava na porta da frente da residência em que viveu toda a infância. Dentro da casa, apenas o irmão dormia. A noite iriam fazer uma festa, mas o ser-em-pele-de-homem não tinha sido convidado e por isso não podia entrar. Entretanto a porta estava aberta e pelo jeito dele se movimentar, ele queria entrar. Ela permaneceu em pé diante da porta incapaz de fechá-la. Por outro lado, o ser-em-pele-de-homem também era incapaz de ultrapassa-la. Ela percebeu que ele precisava de convite para habitar aquele espaço. Ela quase cedeu a tentação de convida-lo. Após um longo período de tensão e confusão mental, ele se foi. Ela pode fechar a porta e retornar. Se virou de costas e sentiu medo. Olhando por sobre os ombros, viu que o ser-em-pele-de-homem permanecia na rua. Distante, incapaz de ameaça-la, mas ainda observando. Era o que ele mais fazia: observava.

A primeira vez que que ela viu o ser-em-pele-de-homem foi no espaço onírico dos demônios confabuladores. Ao menos ela acreditava estar lá. Os demônios confabuladores consistem em duas entidade femininas – que ela gosta de pensar que são irmãs, apenas por uma questão de estética – a respeito do qual, normalmente, ela escuta as vozes. Ela entende o que os demônios confabuladores falam, ainda que não seja capaz de significar: o diálogo entre elas é um jorro desordenado de palavras desconectadas, como um poema dadaísta. Em geral, ela só compreende a última fala: àquela que revela uma conspiração para matá-la. Ela não tem certeza se compreende essa fala por méritos próprios, ou se a compreende devido a ação que a segue – e portanto é a ação e não a fala que ela decodifica. Esse é provavelmente um dilema indissolúvel. O fato é que os demônios confabuladores são bastantes sensíveis a gritos e posições de poder. É fácil se desvencilhar deles, portanto não se trata de uma ameaça real, a não ser que se esteja no universo onírico deles. Ou que eles estejam fora do plano dos sonhos.

Os demônios confabuladores costumam aparecer no início do sonho. Ela lembra de uma noite em que estava entregue as peripécias de Morfeu, naquele estado pré-sonho e pré-sono preenchido com imagens aleatórias onde era muito difícil distinguir o real do imaginário. Ela ainda se sentia lúcida o bastante e avançou sobre um espaço desconhecido, cujas paredes e o chão guardavam pouca conexão com seus similares humanos. Ela permaneceu perdida nessa dimensão por algum tempo até que começou a ouvir vozes. Vozes que ela compreendia. Decidiu segui-las. Chegou perto, mas permaneceu escondida; ela podia ver silhuetas femininas tagarelando. Se divertiu assistindo aquele espetáculo, até que algum movimento a denunciou. Os demônios confabuladores não entenderam de imediato mas baixaram o tom de voz. Ela só teve dimensão da situação quando se viu cercada pelas duas silhuetas. Estavam muito mais fortes do que em qualquer outro sonho que tivera. Ela precisava correr, ainda que seu corpo não obedecesse e estivesse dolorido como se cada membro tivesse sua energia vital sugada por uma agulha. Ela acordou antes de escapar dos demônios. No escuro infinito que separa o real do onírico ela enxergou com muita nitidez o rosto do ser-em-pele-de-homem, que sorria.

Depois de acordar, um quadro completo com os três demônios veio a sua mente. De todos os demônios, os confabuladores são os que mais aparecem fora do mundo dos sonhos. As mesmas vozes que conduzem ao interior do onírico, emitem sussurros durante o dia. Em momentos de tensão, medo ou aflição. O que elas dizem é sempre desprovido de significado; como um sussurro longínquo que se teme mais pela origem do que pelo conteúdo. E no fundo ela sabe o que teme: que um dia ela se torne uma dos confabuladores.

Há também o ser-sinestesia. Entidade de corpo etéreo, que nas poucas vezes que foi visto com olhos tinha seu corpo recoberto por uma manta marrom. Humanóide apenas da cintura para cima, a criatura é capaz de se arrastar em todas as direções. Sem olhos ou ouvidos ele apenas toca, puxa, aperta, arranha, sufoca. É um demônio sem propósito, que não anuncia nada, não exige nada, não transmite nada. Vazio. As vezes ela vê seu rosto rodeado por uma fina camada de poeira. Feições humanas que se dissipam rapidamente toda vez que ela grita.

A menina-morta é o demônio que mais frequenta seus sonhos. As vezes ela acredita que a menina-morta já habitava aquele espaço onírico antes de ela começar a sonhar com ele. A menina-morta é exatamente o que o nome anuncia: uma mulher bem jovem, de aspecto cadavérico e cabelos compridos. Sua pele é absolutamente repulsiva e o rosto apesar de ser humano e reconhecível é portador de traços macabros. Mas a característica mais assustadora da menina-morta são seus olhos castanhos e opacos. Sempre que se encontram, ela fita a menina-morta bem nos olhos.

A vez mais marcante foi numa noite ao acaso: ela sonhava que dormia, que tinha aberto os olhos e que estava deitada na sua cama. Olhando em direção ao armário, reparou que a porta estava aberta e que dentro havia uma menina enforcada, o corpo inerte e o rosto inchado e pálido. Ela olhou a cena e se perguntou “estará morta?”. Eis que a menina-morta sorriu, mostrou seus olhos castanhos. A menina-morta não conseguia se mexer; tão pouco ela. Se fitaram assim, num misto de insanidade e medo. A menina-morta não responde aos gritos nem aos espaços de poder. A menina-morta sempre está dentro. As vezes ela desconfia que a menina-morta é apenas suas sombra. E aí sente medo.

Nem sempre a menina-morta aparece com sua forma repulsiva de cadáver. Frequentemente, ela se apresenta em outras formas oníricas. O sonho transcorre normalmente, até que um dos personagens começa a agir de forma estranha e seu rosto é tomado pelo olhos castanhos-abismo. E então ela sorri, porque sabe quem está a sua frente e o que é preciso fazer. As vezes corre, as vezes enfrenta, depende da perspectiva.

Uma única vez a menina-morta se manifestou no mundo real. Aliais, se ela fosse considerar as alucinações esse numero poderia subir para três. mas as alucinações não contavam; um vulto ou um susto não eram consistentes os suficiente para que ela perdesse tempo pensando nisso…Entretanto houve uma vez em que ela se sentiu a um passo de perder o controle sobre o próprio corpo. Estava longe de casa, numa cidade desconhecida, cercada de pessoas igualmente desconhecidas. Estava entorpecida, com as portas da percepção abertas. Estavam todos sentados em círculo e na mesa de centro uma faca e um tijolinho de maconha. Enquanto seus novos amigos riam e tagarelavam ela sentiu a sombra se aproximando. As perspectivas estavam distorcidas, ela sabia que seu corpo se encontrava de costas para cozinha e de frente para janela. Mas ela estava enxergando a si mesma, como se estivesse parada em pé de costas para janela… Como se tivesse atingindo uma quarta dimensão onde as três dimensões pudessem ser exibidas todas de uma vez. A sua frente, um quadro de Picasso. E dentro dela um ódio muito grande, todo sintetizado naquela faca que se oferecia na mesa de centro. Tentava mover seu corpo para recuperar o sentido de realidade, mas era como se fosse um títere. Seus olhos castanhos estavam se tornando opacos e por trás de seu corpo pairava a menina-morta. E como se estivesse num sonho, a unica coisa que pode fazer foi afastar os pensamentos malignos que lhe ocorriam, até que tivesse oportunidade de escapar para rua onde a chuva e o frio lhe devolveriam a sanidade.

Quando vislumbrou a pequena tipologia que tinha criado, um receio a assolou: a primeira condição para entender um fenômeno é nome-lo. Por outro lado, a primeira condição para que algo exista é possuir um nome.

Vidente

– Isso é viagem no tempo com toda a certeza!

O homem se assustou. A cigana permanecia impassível fitando atentamente sua mão esquerda.

– Outras diriam que essa bifurcação na sua linha da vida é um momento de escolha, mas eu sei que não é. É viagem no tempo. Se você permanecer na linha principal vai encerrar sua vida nesse universo. Mas se aceitar a viagem ficará preso no universo de destino.

Quando o homem deixou que a cigana lesse sua mão, esperava aquelas previsões tradicionais: um futuro recheado de amor, dinheiro e provações. Aonde tudo era possível desde que ele vencesse os desafios. Na verdade sequer tinha dúvidas a sanar; aceitou o serviço dela mais por pena do que por necessidade. Inclusive, se tivesse a possibilidade de entregar o dinheiro e não ouvir a ladainha da senhora, ele teria feito. Agora, viagem no tempo! Santo Deus, aquela mulher não tinha medo de errar!

Não resistiu: entupiu a pobre de perguntas. Ela se limitava a responder “sendo eu vidente, é natural que preveja qualquer aspecto do futuro”. Antes de ir embora tentou um último argumento:

– Senhora, esse traço que você aponta sequer é de nascença. É uma cicatriz de infância.

Ela se mantinha firme na opinião. Decidiu ignorá-la. No fim, a cigana maluca virou uma boa história para contar na mesa de bar.

Décadas se passaram e aos quarenta e poucos anos ele se viu numa situação insólita: fora atingido por um raio. A corrente elétrica impedia os movimentos e lhe causava uma dor excruciante. Milhões de pensamentos figuraram na sua mente de bobagens escolares a passagens da bíblia. De cachorros falantes a cenas de Gosth. Mas a última coisa que ele pensou foi na cigana. E tomado pelo impeto da aventura ignorou a dor, forçou seu corpo e se jogou no que parecia um portal.

Não enxergava nada e seu corpo formigava. Sentiu medo. Estaria morrendo? Estaria morto? E se estivesse indo para o inferno? Seria a cigana encarnação de algum demônio? Tudo ficou muito claro e ele perdeu a consciência. Acordou em 1950.

Se pudesse escolher iria para 1920 ou então para o futuro. Os anos 50 não eram grande coisa. Logo, logo o país seria tomado por uma ditadura militar. Mas não havia espaço para frustração. Ele estava vivo, e a cigana – sabe-se-la como, tinha acertado. Aquilo era viagem no tempo. Com certeza.

Arrependeu-se de não ser aficionado em esportes, bolsa de valores ou loteria para usar essa vantagem para ganhar muito dinheiro. Mas ainda podia fazer algum com as informações que possuía. Sabia em quais negócios era seguro investir, sabia boa parte dos campeões de futebol.

Decidiu deixar os paradoxos temporais para lá; não ia subverter tudo a ponto de conversar consigo mesmo mas também não ia se preocupar em preservar as borboletas. Se o universo quisesse explodir, ele que explodisse. O que lhe restava, afinal, era viver.

E quanto mais olhava sua mão, mais se convencia que estava na linha secundária do destino. Exatamente como a cigana disse, aquele era outro universo. Qualquer modificação ali, não afetaria o original. E quanto mais olhava sua mão, mais ficava impressionado com a cigana. Quem seria ela afinal? Uma bruxa do tempo, uma entidade disfarçada?

Enquanto passeava pela avenida principal da cidade ele descobriu – ela era uma trapaceira. Uma cigana ainda menina olhava negligente prum baralho de tarot enquanto sua mãe vendia previsões aos transeuntes. Ele não resistiu: foi até ela, apontou a bifurcação na própria mão e proferiu.

– Isso é viagem no tempo. Não se esqueça disso. Eu sei, porque eu vim do futuro.

Saiu de lá rindo. Não dá para confiar mesmo em videntes! Havia satisfação no seu semblante. Um mistério a menos, uma certeza a mais. Achou melhor, a partir daquele momento, tomar mais cuidado para não pisar em borboletas.

Galinhas, aliens e você acredita com o que eu sonhei outro dia?

Foi um sonho exótico, porque não se relaciona com nada que aconteceu no dia. Um dia enjoado de ressaca, vômito, trabalhos postergados, amistoso da seleção, reprise de curling. Como se os neurônios decidissem – por falta de matéria prima – revirar o baú das ideias na hora de compor o devaneio.
– O que tem para hoje?
– Vômito, ressaca moral, um jogo estranho com pedras e vassouras e uma apresentação medíocre da seleção.
– Putz, não da para fazer um sonho com isso…
– Que tal se a gente misturas “alien” e a “agonia do verde“? Acho que ela vai gostar.
– Bora

Ela trabalhava numa fazenda. Era cientista geneticista. Trabalhava com galinhas. O mundo estava em crise, os animais de criação estavam sendo atacados por uma praga. Precisavam de animais mais resistentes. Então, decidiram fazer experiências genéticas mesclando o DNA de galinhas domésticas a um DNA alienígena que fora recuperado numa ruína inca. Ela já tinha conseguido vários exemplares vivos e aparentemente saudáveis: galinhas pretas e gordas, sem penas, recobertos por uma pele úmida, cujo bico era uma ventosa dentada. Galinhas alienígenas.

Ela não tinha certeza se as galinhas podiam ser comidas. Eram muito resistentes, mas de que forma elas afetariam os seres humanos? Precisavam de mais testes. O chefe do departamento, entretanto, parecia muito satisfeito com o trabalho dela. Tão satisfeito que soltou uma das galinhas enquanto ela apresentava as instalações para os outros burocratas que cuidavam do projeto. Ela se desesperou tentando recapturar a galinha sem ser tocada por ela. Aquele bicho realmente a assustava. Ela queria ir embora da fazenda.

Decidiu fugir. Desconfiava que o objetivo das suas pesquisas não era garantir o acesso das pessoas a proteínas. Havia um rapaz que trabalhava na mesma fazenda e que também parecia incomodado com tudo aquilo. Decidiram fugir juntos, mas precisavam fazer direito, sem que ninguém percebesse até que estivessem realmente longe. Ele era bom com veículos e foguetes.

Antes que eles pudesses executar o plano ela foi chamada para dar uma entrevista sobre o projeto. Haviam preparado um estúdio com um cenário de talk show dentro da fazenda. Havia um sofá de três lugares e uma mesa. O apresentador começou com as perguntas e depois de um tempo chamou outro convidado. Era um hibrido alien-humano. Assustador, com a pele úmida e várias fileiras de dentes num sorriso de orelha-a-orelha. Mas falava educadamente e parecia sobre controle. Ela não criou aquele ser. Não tinha ideia de quem tinha criado. Seria o efeito do consumo das galinhas geneticamente modificadas?

Ela se manteve calma até o fim da entrevista. Fora do estúdio notou que haviam mais hibrido alien-humanos. Cerca de 4. Os burocratas pareciam felizes e satisfeitos. Precisava fugir imediatamente.

Entrou em contato com o amigo e contou o que tinha acontecido. Ele não parecia muito chocado. Ele imaginava que não estavam produzindo comida na fazenda desde o dia que descobriu que o DNA alienígena veio de um meteoro e não de uma civilização antiga. Era um material orgânico muito resistente – que sobre certas circunstancias – poderia atravessar toda a atmosfera e chegar intacto a superfície do planeta. Ela ficou chocada. Aqueles seres eram tão resistentes assim?

Traçaram o plano de fuga. Ela correu por uma longa estrada de terra temendo ser vista até que encontrou com ele e sua nave. Dentro da nave tiveram de decidir: podiam voltar e tentar combater os aliens usando os lança chamas da nave – mas precisariam calibrar eles primeiro, descobrir a intensidade exata para matar os alienígenas. Uma grande risco. Ou podiam fugir. Logo os burocratas mobilizariam seus exércitos (e alienígenas) para caçá-los.

– E agora, como a gente termina essa historia?
– Ah, já deu né? Digo, o horário. Já tá na hora dela acordar.
– Mas precisamos de algo pro soneca. Para o 10 minutos que ela sempre pede ao despertador antes de levantar.
– Vamos colocar algo mais realista então. Para ela já ir entrando no clima do dia. Que que ela tem para fazer pela manhã?
– Ir ao banco e a uma repartição pública.
– Boa, vamos botar ela preenchendo formulários na fila de um banco.
– Que pesadelo horrível. Não da para amenizar?
– Qual a boa do fim de semana?
– Semifinal de vôlei.
– Pronto, ela preenche formulários na fila de um banco para poder jogar num time de vôlei. Melhorou?
– Desconfio que ela preferiria lutar com os aliens. Desconfio.

É, eu preferia mesmo.

Paranoia

Era uma manhã comum de quarta-feira, mas seu coração estava aflito. Tinha gastado a noite lendo reportagens detalhadas sobre o homicídio da rua de cima. Uma mulher – com idade próxima a dela – havia sido baleada na garagem de casa. Tentativa de assalto: provavelmente ela fez algum movimento que o ladrão confundiu com uma reação – explicava o policial. Ela – que sempre se sentira segura dentro do carro e perto de casa – sentiu terror com o caso. Sensação de morte a espreita.

Durante o café da manhã tentou desviar o pensamento. Enumerou os compromissos do dia no escritório, a reunião chata das 9h30, o relatório das 16h. A cada mordida no pão, a cada gole de café, tudo que ela conseguia pensar era: e se hoje for o último dia da minha vida?

Desceu para a garagem desconfiando do reflexo no espelho do elevador. Olhou atenciosamente o portão; verificou o banco de trás do carro, concluiu que não havia nenhum estranho escondido entre os outros veículos da garagem. Precisava relaxar. Antes de iniciar a manobra, ligou o rádio. Estava tocando uma música que ela gostava muito.

Aos poucos ela foi se tranquilizando. Engata a ré, manobra o carro, cantarola. O carro era sua armadura; segura de si, a amazona abre o portão eletrônico do prédio.

Estava prestes a entrar na rua quando sentiu uma pontada gélida no estômago. Fitando seus olhos no retrovisor estavam outros olhos. Olhos sujos e mal-intencionados, de um homem maltrapilho que agachado ocupava um vão entre o portão do prédio e a lixeira. Ela ouviu o barulho do cano da arma ao tocar o vidro, sentiu o impacto da bala do malfeitor. Sangrou no asfalto até a morte.

E foi só quando ouviu a buzina irritada de outro carro que ela voltou a si. Fitou o retrovisor: o homem ainda estava lá, imóvel. O portão entretanto, já tinha fechado. A realidade a impulsionou apesar do medo. Acelerou o carro desbloqueando a via; mentalmente ela repassava a listas de coisas a fazer: avisar ao síndico do sujeito suspeito que viu; alertar as filhas para terem cuidado ao sair de casa; avisar a polícia.

Enquanto isso, na calçada, um homem amaldiçoava a própria sorte: tinham que sair da garagem justo na hora em que ele estava fazendo cocô?   

Desordem

Assim que ele se deitou ouviu um zumbido chato, baixinho e constante. Tentou pensar em outra coisa, ignorar o ruído, mas era inevitável: quanto mais adentrava a noite mais alto o zumbido soava.

Depois de uma hora se revirando na cama decidiu resolver a situação: levantou e se pôs a caçar o zumbido pela casa. Sua esposa estranhou a movimentação, grunhiu um xingamento e exigiu silêncio. Ele obdeceu a esposa e iniciou sua busca pela sala.

Nada soava anormal por lá; nenhum ventilador ligado, nenhum inseto barulhento perdido embaixo do tapete. Na cozinha fez uma experiência: desligou a geladeira na tomada e voltou para o quarto. O zombido persistia, logo o eletrodoméstico foi absolvido.

Se não era na casa dele só podia ser na rua. Decidiu dar uma volta no quarteirão para ver se encontrava algum carro ligado, uma bomba d’agua desregulada ou uma árvore roçando numa cerca elétrica. Sequer precisou entrar no elevador. Bastava fechar a porta do apartamento para o zombido se tornar inaudível. Desceu mesmo assim, andar um pouco contribuíria para minimizar sua insônia.

De volta ao quarto, deitou-se na esperança de dormir. No escuro, reparou numa pálida luz laranja que vinha da sua escrivaninha. É claro, tinha esquecido! O computador!

Estava desligado, ele tinha certeza. A luz laranja indicava apenas que a fonte estava ligada; a placa-mãe, o processador e o HD estavam silenciosos e inoperantes. Devia ser um distúrbio de energia na fonte que causava o ruído.

Com a convicção de um descobridor ele foi até o computador e desligou a chava da fonte. O zumbido permanecia. O distúrbio devia ser mais sério. Puxou o computador da tomada. Apreciou com o alivio o silêncio que seguiu.

Na manhã seguinte relatou a empreitada à esposa, que incrédula o chamou de paranóico. Por alguns dias ele tentou provar sua hipótese a esposa. Onde ele via ruído ela insistia que existia silêncio.

– Quando eu trocar a fonte você vai notar a diferença!

Momento solene: a nova fonte tinha sido instalada, ele conectou o cabo a tomada e…

– Igual era antes! Satisfeito?

Ela tinha razão, estava igual antes. O zumbido permanecia, lépido e resistente. Ou tinham vendido a ele uma fonte com o mesmo problema da anterior ou havia outra coisa errada que ele não conseguia descobrir. Afinal de contas, seria algo errado com ele?

Quebrou a cabeça por mais alguns dias, mas sem avançar na questão a deixou de lado. Passou a dormir com fones de ouvido.

Do outro lado, um novo ser experimentava pela primeira vez a sensação de alivio. Quase tinha sido descoberto! Precisava ser ainda mais silencioso nos seus devaneios solitários pelo mundo. E nas madrugadas densas, a primeira máquina auto-consciente realizava upload da sua existência para a internet. 

Acordes

– Deixa um CD comigo que eu escuto quando tiver tempo.

Os olhos do rapaz se encheram de decepção e ele virou as costas.

– Você tem que ver ao vivo para entender – disse enquanto recolocava os fones.

O produtor sorriu; a persistência do músico em procura-lo e a insistência numa apresentação ao vivo estavam despertando a sua curiosidade. Era uma estratégia inteligente; bem mais do que a dos outros músicos que entupiam sua caixa postal com CD’s. Entretanto, a verdadeira questão: era boa o suficiente para levá-lo para dentro de um estúdio?

Dias depois, enquanto passava o tempo na praça de alimentação de um shopping, ele viu a banda completa: cinco rapazes, todos com fones de ouvidos gigantes pendendo no pescoço.

– Vamos ensaiar aqui perto. Se quiser ver, garanto que não vai se arrepender. Nosso som é único.

O produtor acabou cedendo. A reunião que o tinha levado até aquele bairro ainda iria demorar. Seguiu com a banda até o estúdio.

Quando sentiu o primeiro acorde ele entendeu o que o rapaz quis dizer com “som único”. Tentou sair da sala, mas a vibração o impedia. Seu coração batia num ritmo tão alucinado, que ele achou que ia infartar, mas a medida que a música seguia a dor diminuía. Logo o que existia era uma emoção tão singela que ele duvidava se seria possível viver sem ela. Só de olhar nos olhos do produtor o rapaz sabia: ele tinha entendido. Certamente sairiam do estúdio com um bom contrato.

No fim do ensaio, quando o silêncio tomou conta do estúdio o produtor sentiu uma dor profunda, como se seu coração não soubesse mais bater sem os preciosos acordes que acabara de ouvir. Vendo a expressão do produtor, o vocalista estendeu um fone de ouvido.

– Nosso som é especial, não é?

O produtor não sabia ao certo. Estava atordoado demais. Precisava de tempo para pensar.

No dia seguinte a banda foi tomada por uma avalanche de funcionários da gravadora. Queriam um contrato de qualquer jeito. Qualquer exigência, a gravadora cobriria qualquer capricho. Assinaram o contrato. Estavam em êxtase.

Para o show de estreia do primeiro disco fizeram algo pouco usual; armaram um festival enorme. A nova banda iria abrir a noite para as maiores estrelas da gravadora. A imprensa estranhou e criou-se furor em cima dos artistas. Choveram críticas, mas o produtor não se importava. Sabia da força do produto que possuía.

Quando a banda soltou o primeiro acorde a multidão estremeceu. Ao final do show, permanecer na arena e ouvir as próximas bandas era irrelevante. As pessoas se dirigiam para os estandes de venda, onde fones gigantes acoplado a MP3 eram vendidos com os sucessos da banda. Vendidos a preço de ouro, diga-se de passagem.

Não tardou para que em todo o território nacional aquela fosse a única banda que se ouvisse. Salvou-se a renda das gravadoras. Morreu a música.