Inquietar

Ficcção, poesia e doses homeopáticas de realidade

Categoria: Artigos

Charlie Hebdo

E ai, de repente, todo mundo está chocado com a falta de sensibilidade da civilização ocidental, que se impressiona com o assassinato de 12 pessoas mas é incapaz de juntar multidões para pedir que o Boko Haram pare de empilhar corpos na Nigéria.

Em primeiro lugar, ainda que os ocidentais, os habitantes da europa-américa continuam pessoas. E agem como tal. me impressiona essa gente tão disposta a considerar a dimensão afetiva das coisas, tão avessa a regras rígidas de comportamento cujo objetivo é controlar a subjetividade do julgamento esquecendo da afetividade nesse caso. A morte de um ser humano só pode ser equiparada a morte de outro no campo racional, intelectual, filosófico. No campo afetivo faz toda a diferença se quem morreu foi a própria mãe ou uma senhorinha no interior do Ceará.

Protestos e marchas NÃO são atos racionais. Acontecem no calor do momento e da emoção. Supor que 2.000 nigerianos mortos comoveriam tanto quanto 12 jornalistas franceses é como supor que a queda de um avião faria um individuo chorar tanto quanto no dia que seu pai faleceu. Não é assim que seres humanos funcionam. Não é assim que a afetividade funciona. Amamos mais aquilo que nos parece semelhante e ficar horrorizado com isso é um ato de desonestidade consigo mesmo. A afetividade não consegue ser justa, fria,  matemática. Aliais foi por isso que criaram as leis. uma forma de trazer alguma estabilidade ao mundo governado por emoções.

Também me impressiona que essas pessoas que acusam a insensibilidade da civilização ocidental sejam as mesmas que acusam a civilização ocidental de ser imperialista, de sair por ai impondo seus valores a outros países e deixando-os com o terrorismo como única forma de resistência.

Bom, quer coisa mais imperialista do que fazer uma marcha contra algo que aconteceu em outro país – lembrando que esse país é militar e economicamente mais fraco que o país autor da marcha?

E vamos supor que após a marcha os franceses descubram que o Boko Haram não dá a mínima para o que uma bando de ocidentais pensa ou deixa de pensar sobre os atos deles (lembrem-se do “devolva nossas meninas”). E que o grupo continue tacando o terror na Nigéria. E aí? Os franceses fazem o que? Vão para casa frustrados pensando “Oh, droga, não funcionou!”.

Não, não é isso que aconteceria. O dia que a civilização ocidental realmente se importar com o que acontece na Nigéria, o dia que 2.000 mortos ofenderem tanto quanto 12 chargistas, nesse dia o que vai se ter é uma guerra. E vai ser um guerra bem imperialistas, desses em que se impõe valores, se elimina qualquer simbolo que associe a situação atual ao grupo que detinha antes o poder.

Aí, eu fico pensando quanto dinheiro esse pessoal que fica postando certas coisas sobre a Nigéria esta recebendo da extrema direita porque não consigo pensar num motivo melhor para invadir um país do que capturar um bando de terroristas e livrar o povo da opressão. Isso, com apoio popular é reeleição garantida por uns 12 anos. Bush, Thatcher, não pensariam duas vezes. Eu mesma, se fosse líder de uma potência militar acho que não pensaria.

Então me incomoda que essa gente que diz temer uma reedição das cruzadas seja a mesma que acuse o ocidente de só se importar consigo mesmo. Que ignoram o obvio fato de que um país deve respeitar as fronteiras e decisões politicas de outro.

Ou sei lá. Talvez devemos nos importar com a Nigéria mas não muito. Só o suficiente para menosprezar o que aconteceu em Paris:

– Eu ia para a marcha contra o terrorismo, mas não vou mais. Dane-se o Charlie Hebdo, acabei de descobrir que mataram 3000 pessoas na Nigéria.

– Nossa, mas então o que você vai fazer?

– Ah, acabei de comprar o FIFA 15. Acho que vou jogar.

Tropa de elite 1 – José Padilha

Sinopse: 1997. O dia-a-dia do grupo de policiais e de um capitão do BOPE (Wagner Moura), que quer deixar a corporação e tenta encontrar um substituto para seu posto. Paralelamente dois amigos de infância se tornam policiais e se destacam pela honestidade e honra ao realizar suas funções, se indignando com a corrupção existente no batalhão em que atuam.

Meu comentário sobre o filme: Quando o jornal nacional anunciou que o o filme tinha vazado e estava sendo pirateado antes mesmo de chegar aos cinemas eu não dei muita importância. Um filme sobre uma fação da polícia carioca não parecia muito interessante. Na época eu acompanhava o blog da Soninha e lembro que ela postou trechos da monografia de um policial que pesquisou a tropa – e que foi uma das fontes de inspiração para o filme. Os trechos falavam da brutalidade do treinamento, refletiam sobre a necessidade de tanta violência. Li os trechos, fiquei horrorizada, e achei que não precisava ver o filme. Então o filme estourou, por semanas (meses?) só se falava nele. Devo ter lido dezenas de análises antes de chegar ao filme em si. Porque eu só fui ver esse filme quando ele passou na globo.

Um dia eu ainda vou sistematizar num texto todos os meus pensamentos a respeito desse filme e principalmente das discussões que derivaram dele. O filme – enquanto obra de arte – não tem nenhum problema. Possui bons atores, executando personagens bens construídos, numa trama bem estruturada (ainda que com uma narrativa não-linear). Lembro de ter lido uma critica – que eu achei infundada – reclamando da estrutura da história que não permite saber quem é o protagonista (parece que o capitão é apenas um narrador e que o protagonista é o Matias, mas no decorrer do filme o espectador descobre que o protagonista é o capitão mesmo).

Já às discussões que o filme deu origem, me impressionam até hoje. Porque eu li os relatos de abuso e tortura na tropa de elite e fiquei horrorizada com aquilo. E as pessoas veem o filme, com todas aquelas cenas brutais, e a discussão gira em torno se é certo ou errado bater em playboy maconheiro que financia o crime organizado? Ah, sociedade, peraí, quer dizer que para uma metade da população está tudo bem brutalizar os policiais a ponto deles não se importarem em matar e torturar, desde que eles só matem e torturem bandidos. E para outra metade da população idem, desde que o tráfico de entorpecentes leves não seja mais considerado crime. Ninguém ficou chocado com a violência em si? E ainda tiveram os que afirmaram que o filme era fascista…

O cheiro do ralo – Heitor Dhalia

Sinopse: Lourenço (Selton Mello) é o dono de uma loja que compra objetos usados. Aos poucos ele desenvolve um jogo com seus clientes, trocando a frieza pelo prazer que sente ao explorá-los, já que sempre estão em sérias dificuldades financeiras. Ao mesmo tempo Lourenço passa a ver as pessoas como se estivessem à venda, identificando-as através de uma característica ou um objeto que lhe é oferecido. Incomodado com o permanente e fedorento cheiro do ralo que existe em sua loja, Lourenço vê seu mundo ruir quando é obrigado a se relacionar com uma das pessoas que julgava controlar.

Meu comentário sobre o filme: vi sentada no chão na minha primeira ida ao Festival de Cinema de Tiradentes. Tenho afeto por esse filme. Vi meio sem expectativa não conhecia o Lourenço Mutarelli na época e apostei que devia ser um filme minimamente razoável porque tinha o Selton Mello e ele não escolheria um filme ruim para fazer (o tempo iria desmoronar essa teoria). Só que o filme é simplesmente fantástico, hilário de doer a barriga. Também é angustiante e deixa marcas: a gente sai do cinema pensando na relação bizarra do protagonista com coisas e pessoas e no poder que ele representa. É um filme que fixa na cabeça e te faz remoê-lo por algum tempo. Tem personagens maravilhosos perfeitamente interpretados pelo elenco.

Cidade de deus – Fernando Meirelles

Sinopse: Buscapé (Alexandre Rodrigues) é um jovem pobre, negro e muito sensível, que cresce em um universo de muita violência. Buscapé vive na Cidade de Deus, favela carioca conhecida por ser um dos locais mais violentos da cidade. Amedrontado com a possibilidade de se tornar um bandido, Buscapé acaba sendo salvo de seu destino por causa de seu talento como fotógrafo, o qual permite que siga carreira na profissão. É através de seu olhar atrás da câmera que Buscapé analisa o dia-a-dia da favela onde vive, onde a violência aparenta ser infinita.

Meu comentário sobre o filme: É um filme sobre o qual eu não tenho muita coisa a dizer porque parece que tudo já foi dito. Lembro que fui ver no cinema, em meio a todo oba-oba da época em cima desse filme. Oba-oba mais que justificado, inclusive. Bons personagens, história bem amarrada e uma edição deliciosa de comercial/filme de ação que ninguém via em filmes brasileiros. É um clássico e se tornou referência no cinema mundial.

Quando revi, alguns anos mais velha, já na faculdade e com o botão minoria feelings ligado, me incomodou o fato do vilão da história estar associado ao candomblé, enquanto os mocinhos “são de Deus”. Pareceu uma associação meio tendenciosa e preconceituosa. Mas que nem eu disse, eu estava com o botão “minoria feelings” ligado. Não afeta em nada a minha opinião e admiração pelo filme.

Cidade baixa – Sérgio Machado

Sinopse: Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Wagner Moura) se conhecem desde garotos, sendo difícil até mesmo falar em um sem se lembrar do outro. Eles ganham a vida fazendo fretes e aplicando pequenos golpes a bordo do Dany Boy, um barco a vapor que compraram em parceria. Um dia surge Karinna (Alice Braga), uma stripper que deseja arranjar um gringo endinheirado no carnaval de Salvador a quem a dupla dá uma carona. Após descarregarem em Cachoeira, Deco e Naldinho vão até uma rinha de galos. Naldinho aposta o dinheiro ganho com o frete, mas se envolve em confusão e termina recebendo uma facada. Deco defende o amigo e ataca o agressor, mas os dois são obrigados a fugir no barco, rumo a Salvador. Enquanto Naldinho se recupera, Deco tenta conseguir dinheiro para ajudar o amigo. Ao chegarem em Salvador a dupla reencontra Karinna, que está agora trabalhando em uma boate. Aos poucos a atração entre eles cresce, criando a possibilidade de que levem uma vida a três.

Meu comentário sobre o filme: A primeira vez que eu vi esse filme foi na globo e mesmo passando de madrugada eles acharam por bem cortar algumas sequências mais picantes. Quando vi de novo, na tv a cabo, tomei um susto: era praticamente outro filme. 😉

Mas enfim, por motivos que até eu mesma desconheço, acho esse um dos filmes mais calientes do cinema nacional. O trio de protagonistas têm muita química e dá para ver faíscas nas cenas picantes do triângulo amoroso. E é basicamente isso, uma história sob certo ponto de vista bem comum enriquecida por três interpretações fantásticas (Lázaro Ramos e Wagner Moura estão ótimos, mas a Alice Braga está sensacional) e um cenário exótico. Lembro de ter lido uma crítica que reclamava do final aberto do filme. O crítico citava isso como falta de criatividade da produção. Particularmente eu não vi assim: o final aberto me agradou muito e acabou dando a história algo de verossímil. Eu, que esperava um final dramático com alguma lição de moral embutida, gostei da surpresa. Acho que vale a pena assistir e vale também aquela ressalva de não convidar seu tio caretão para ver junto por causa das cenas de sexo. 

O eterno retorno e a redução da maioridade penal

Sempre que acontece um crime brutal com a presença de um menor de idade volta a tona a discussão sobre a redução da maioridade penal de 18 para 16. Nos últimos dias tiveram dois exemplos: o estupro na van no Rio de Janeiro e o assassinato de um jovem na porta de casa em São Paulo. Como esse tipo de discussão surge em momentos de comoção popular, é comum que se apele menos à lógica e mais aos sentimentos. O que esse texto vai tentar fazer é manter a discussão no campo na racionalidade.

O ECA garante a inimputabilidade de menores de 18 anos, que ao cometerem crimes – infrações nos termos do estatuto – devem cumprir as medidas propostas pela legislação especifica. A internação em instituição do estado é prevista apenas para adolescentes maiores de 12 anos. Essa internação tem duração máxima de 3 anos – independente da natureza da infração – e não produz antecedentes, ou seja, após cumprida a pena e atingida a maioridade o jovem volta a ser réu primário. 

O ECA parte do pressuposto de que o jovem – por estar ainda em formação – não tem consciência plena dos seus atos e portanto não pode ser responsabilizado por eles. Caberia primeiramente aos pais e de forma secundária ao estado e à sociedade a responsabilidade pela conduta do jovem infrator.

Que os jovens necessitem de uma atenção diferenciada em relação aos adultos não resta nenhuma dúvida. Entretanto um ação que tem por objetivo educar e resguardar o jovem acabar deseducando e expondo.

Uma pessoa só irá aprender a se responsabilizar por algo quando for confrontada com as consequências desse ato. Uma criança aprende que não deve correr no chão molhado quando escorrega e se machuca. Caberá a ela, ao refletir sobre a experiência, decidir se a dor da queda inviabiliza ou não a diversão de correr sobre o piso molhado. Se os pais forrarem o piso com almofadas macias estão minimizando a consequência do ato de correr. Sempre que perceber as almofadas a criança saberá que poderá correr mais rápido e com menos medo. 

Quando a sociedade diz a um menor de 18 anos que um (ou cem) assassinato (s) terá como punição máxima 3 anos de internação e não irá gerar antecedentes, ela está minimizando – e muito – as consequências do ato. E está, portanto, o deseducando. Deseduca porque nivela com a mesma punição atos que deveriam ter dosimetria diversas (uma morte exige pena diferente de dois homicídios que exige pena diferente de um crime de tráfico de drogas). Como o jovem poderá criar consciência se a sociedade diz a ele que tanto faz matar, matar com crueldade, roubar ou traficar? Como pode ele se educar se tudo gera a mesma punição?

A visão do ECA acaba também por expor o jovem, que passa a ser mão-de-obra para qualquer um que queira cometer um crime e sair impune. Não é raro ouvir relatos de menores que assumem crimes de adultos.

Entretanto é preciso pensar com calma: reduzir a maioridade penal de 18 para 16 provocaria as mudanças necessárias? No que concerne a exposição dos adolescentes simplesmente mudaria a faixa etária de assédio: os adultos criminosos passariam a procurar adolescentes de 15 anos dispostos a assumir seus crimes.

Quanto a educação, os jovens assassinos maiores de 16 anos passariam a ir para a cadeia. E junto com eles iriam os jovens batedores de carteira, os que depredaram patrimônio, os que transportam drogas. Somente 17% dos menores internos cometeram homicídio/latrocínio /estupro. Os demais cometeram outros crimes. Faz sentido acrescentar a já inflacionada população carcerária brasileira esse contingente? 

Volta-se a questão da dosimetria. Por que um jovem furta um produto de uma loja? Ele provavelmente sabe que é errado furtar mas opta por fazê-lo porque quer consumir o produto, porque aquele item é símbolo de status no seu círculo social e porque o furto aparenta ser um crime sem danos. Não implica em violência, a loja tem muitos outros itens iguais ao furtado e tem um monte de pessoas gastando dinheiro e gerando lucro para o dono do estabelecimento. Parece um tipo de crime bem mais inofensivo do que matar alguém. E é. 

O que motiva um jovem a tirar a vida de uma pessoa? Vários aspectos podem ser apontados: para subtrair um bem material, para resguardar a sua honra, para obter status num grupo criminoso. O que esses fatores tem em comum é o desprezo pela vítima. É o não reconhecimento do outro enquanto ser humano com direito a vida. É a ausência de empatia. E isso é infinitamente mais grave do que não reconhecer o direito do outro a propriedade.

Em termos educacionais os recursos necessários para ressocializar um individuo que opta pelo furto são menores do que os necessários para ressocializar um assassino. Os riscos envolvidos também são menores: se o sistema falhar e o infrator reincidir no furto só estarão em perigo os chocolates das Lojas Americanas. Já se um assassino reincidir…

O que eu quero dizer com isso tudo é que estipular uma idade como marco geral da imputabilidade é ruim. Há crimes que demandam uma ação diferenciada não importando a idade do criminoso. O exemplo clássico no caso é o sequestro e homicídio de um bebê inglês realizado por dois adolescentes. Dada a crueldade do crime e a consciência do ato os dois foram julgados e condenados como adultos. É assim que deve ser; a sociedade deve definir os crimes para com os quais não há segunda chance ou tolerância. Aqueles que – se praticados com consciência do ato – terão a mesma punição quem quer que seja o autor. 

Defendo portanto a manutenção da maioridade penal em 18 anos. Admito que é uma marca aleatória; poderia ser 16 – como é no caso da votação – ou 21 – que é a idade mínima para se candidatar a prefeito. Acho os 18 anos uma idade boa porque coincide com o fim do ciclo escolar (caso se trate de um aluno não-repetente). Tem um marco ritual: o sujeito sai do ensino médio, está apto a consumir bebida alcoólica e pode ser preso. 

Entretanto defendo que para os crimes hediondos não exista maioridade penal. Qualquer um que consume (ou tente consumar) qualquer um desses crimes e que tenha consciência suficiente para saber da consequência do seu ato deve ser julgado de acordo com o Código Penal.

Vou citar um exemplo só para esclarecer o conceito de consciência: uma criança de quatro anos pode derramar formicida na mamadeira do irmão, mas é improvável que ela saiba que o irmão morrerá se beber leite com veneno. Já uma criança de 10 anos sabe o que acontece quando alguém leva um tiro. Ainda que devido a uma educação precária ela não tenha formulado claramente os conceitos de “certo” e “errado”, ela sabia que o ato de atirar resulta em morte. Ela tem consciência. 

É claro que não defendo a internação de adolescentes com adultos. Acredito que eles devem ser condenados a penas maiores (que ultrapassem os 3 anos máximos do ECA), mas devem cumprir a pena nas instituições específicas, sendo encaminhados para outros estabelecimentos quando completassem 21 anos, caso o juiz responsável pelo caso considerasse essa a medida mais

Junto com essa discussão sempre vem um outra: a capacidade de ressocializar os jovens (e adultos) encarcerados. Isso é material para outro texto, e só para adiantar concordo com muita pouca coisa do sistema prisional brasileiro. Mas acho que são discussões conceituais diferentes e que uma não impede a outra. Ou então já teríamos parado de prender, punir e aplicar a lei a décadas quando a primeira prisão ficou superlotada. 

A concepção – José Eduardo Belmonte

SINOPSE: Alex (Juliano Cazarré), Lino (Milhem Cortaz) e Liz (Rosanne Holland) são filhos de diplomatas que vivem juntos em Brasília num apartamento vazio, sem os pais e cheio de quinquilharias. Trocam afetos variados alheios ao mundo. Entediados, tentam viver cada dia como se fosse único. O processo radicaliza quando X (Matheus Nachtergaele), uma pessoa sem nome e sem passado, entra na casa e propõe ir sem freios na idéia de viver apenas um dia.

Meu comentário sobre o filme: Eu me apaixonei pelos filmes do Belmonte num festival de curtas do palácio das artes. Tinha marcado com alguns amigos de ir assistir um longa que passava no inicio da noite, mas acabei chegando muito cedo no cinema. Sozinha, entrei numa sessão de curta-metragens que estava começando. Era uma retrospectiva dos filmes do Belmonte (acho que na época ele ainda não tinha feito nenhum longa). Fiquei completamente apaixonada – da sessão que devia ter uns 10 filmes, só um foi chato. Guardei o nome do rapaz e passei a esperar ansiosamente por novas obras dele. 

O filme me empolgou bastante. Na época eu morava em Brasília e estava tentando entender como aquela cidade funciona – em termos sociais e espirituais, os endereços eu até que entendi bem rápido. Tinha acabado de sair de casa em busca de sei-la-o-que e o filme caiu como uma luva nos dois aspectos. Trata-se de uma reflexão sobre Brasília, e também de um retrato sobre uma juventude.

Confesso que eu sai do cinema sem muita certeza do que tinha visto – apesar da abundancia de personagens e de muitas cenas “vazias” o filme tem uma trama principal a desenvolver. E eu sou ruim com rostos, não estava familiarizada com a maior parte do elenco e há atores parecidos. Posto que eu confundia personagens como uma tia velha assistindo a um filme coreano. Só fui entender mesmo o final revendo o filme.

Mesmo assim as tramas paralelas que eu captava ou a sensação de liberdade e nilismo que o filme evoca foram suficientes para me conquistar. Destaque especial para a passagem de Liz em São Paulo – ela quer saber se é capaz de manter a filosofia concepcionista longe dos amigos e da proteção do apartamento. Impossível eu não me identificar com isso na época; impossível eu não desejar ser essa personagem. 

O filme tem um gosto meio amargo no final. O estilo de vida do grupo era insustentável por vários motivos e a coisa acaba bem mal para – quase – todo mundo. Consequências do radicalismo juvenil – não tinha como eu não vibrar e pirar nesse filme. Mas não é um filme que me deixou depressiva – ao contrário até, me fez sentir viva. Em sintonia com sei-la-o-que. Seja como for, vou morrer amando esse filme.

E vale um aviso: tem muitas cenas de pornografia. Não me soaram pedante – fazem sentido na trama. Mas convém ter cuidado se for assistir com pais, avós ou pessoas sensíveis.