Nota sobre o dilúculo

por inquietar

Eu sonhei com você outro dia, cara. Eu tive vontade de te ligar na hora, mas me contive porque eu sabia o que significava e eu não queria encher seus ouvido com o óbvio. Pensando bem, talvez você gostasse de ouvir o óbvio dos meus lábios… Não, espera, eu é que gostaria de dize-lo para você.

Mas enfim… foi um sonho de imagens bem bonitas, cinematográficas, e cara, fazia tempo que eu não tinha um sonho assim. Já tem um tempo que eu não diferencio mais pesadelo de sonho; é sempre sonho porque já faz muito tempo que eu não acordo assustada, até mesmo quando devia.

Você não me via, ou se via, aparentava não ver. Eu estava deitada, num chão azulejado, exercitando minhas habilidades de encher e esvaziar uma boia de acordo com o movimento das mãos. Era divertido e meio esquisito. E você passou, impressionado com a sua habilidade de fazer metais levitarem. Quanto mais você se aproximava de mim, mais alto o metal subia.

Eu sabia o porquê: a sua habilidade de levitar era na verdade a MINHA habilidade de levitar. Eu quis gritar para você, falar a verdade. E aí veio ela. A menina-morta, que dessa vez estava uns dez anos mais velha (mas chamo de menina, porque não quero criar outro ser inventando um novo nome).

Ela falava, eu respondia. Não sei sobre o que era a conversa, mas era irritante. E ela falava muito. Falava tanto que em determinado momento eu tapei os ouvidos e comecei a gritar “nananananana”. Sim, esse é o meu nível de maturidade ao lidar com um fantasma ou demônio. Gritar “nanananananana”.

Você passou pela porta que misteriosamente desapareceu assim que você saiu. Eu podia te ver através da parede e decidi demonstrar minhas habilidades atravessando-a. Eu não cheguei a terminar de atravessa-la. Em algum momento eu me dei conta que a parede era um espelho. Acabei por enxergar o meu próprio reflexo. Meu rosto era uma caveira, dessas recentes com carne morta por sobre os ossos.

É, talvez no meu sonho eu estivesse morta. Digo isso menos pela caveira e mais porque a menina-morta me puxou para fora da parede e eu não sei o que ela fala mas pela minha expressão era algo tipo “eu não te avisei?”.

Deve ter avisado, mas isso não fez diferença na hora. Eu e ela iniciemos uma discussão que termina em contato físico. Eufemismo para briga.  Acordo com o corpo paralisado dando ordens desesperadas ao meu cérebro para deixar eu mover braços e pernas. ” – Cansei de discutir, sério. Cansei. Deixa eu acordar desse sonho, aliais, eu já acordei você é que não percebeu!”.
Uma hora eu acordei de verdade. Lamentei não saber atravessar paredes, levitar objetos ou encher balões com movimentos de mãos. Agradeci pela pele em volta dos meus ossos ainda estar viva. Quis te ligar, mas era cedo ainda. Dormi.

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