O Lado B do Monumento¹

por inquietar

Ele era do tipo meio bombado, meio intelectual. A parte intelectual se notava de longe, era só atentar para o consumo voraz de produtos culturais intercalados com doses cavalares de calorias de fast-food. Por outro lado, quando ele falou que frequentava a academia regularmente e que já tinha mais de dois anos que fazia isso, minha única reação foi soltar um sonoro: “jura?” (e, claro, correr o olho de cima abaixo em busca de uma veia saltada, um músculo super desenvolvido, calos nas mãos ou qualquer outro sinal que comprovasse a afirmação que me fora dita).

Ele não possuía um físico atlético – era mais magrelo mesmo -, mas aparentava ser sistemático o suficiente para frequentar uma academia, portanto eu me dei por convencida. Ele era tão sistemático que comia de 3h em 3h e escrevia regras de comportamento para passageiros de ônibus.

Ônibus eram uma constante na vida dele, já que ele equilibrava um mestrado e um emprego separados por 350 km de distância. Convém pensar que isso trazia algumas possibilidades, dentre elas, se entregar a extravagancia das férias sempre que seu coração solicitasse. Afinal de contas, viajar é estar de férias.  

Do mestrado, eu sei pouca coisa. Aliás, eu não sei nada. Apenas especulo: pilhas de artigos para rever, obras para escrutinar, normas da ABNT para aplicar. Em resumo, uma alma enclausurada numa cela de conceitos, autores e técnicas. Uma função amarga. 

Do trabalho, eu sei mais coisas. Sei que como professor de literatura ele é um excelente sociólogo. E professor de artes também. E curador de videoteca. Capaz de ensinar observação participante a partir de “Alice no país das maravilhas”. Capaz de transformar uma cidade num verbo e num adjetivo. 

Admito que, a princípio, ele era um enigma político. Saí do nosso primeiro encontro sem saber se tinha conhecido o maior dos reaças ou um esquerdista irônico. Ainda me pergunto se o meu feminismo pode conviver com suas inquietações de homem moderno. De qualquer forma, liberal nos costumes e comunista na economia é, provavelmente, uma definição mais precisa. Ou, abandonando os rótulos de lado, alguém que se permite pensar sobre a nação, ainda que a localização geográfica não colabore.

Nosso primeiro desencontro foi num cinema localizado na rua Gonçalves Dias . Tanto eu quanto ele sabemos quem foi Gonçalves Dias – devemos até saber alguns versos de memória – o que, certamente, nos faz menores. Mas isso nada tem a ver com o nosso desencontro, que foi provocado pela meu amor ao vôlei e a minha inabilidade em considerar o celular um telefone móvel. Nesse dia, enquanto ele via um filme, eu seguia para casa. Desde então nunca mais nos vimos – apenas conversamos pela internet, que no século em que vivemos é praticamente a mesma coisa que se ver.

Encerro esse texto dizendo meia-duzia de coisas inúteis que eu ainda não disse sobre ele estão: sua rejeição pelo Skype, seu desprezo por adaptações fidedignas, sua preferência por milk-shake de frutas vermelhas, seu desconhecimento sobre os caminhos de Belo Horizonte e sua habilidade em adiar eternamente um jantar num restaurante Tailandês.

1. Trata-se de uma referência muito ruim a esse texto. Cogitei fazer uma referencia ainda mais infame a esse texto, mas me contive. A grande verdade é que eu nunca soube dar títulos aos textos.

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