Azul a cor mais quente

por inquietar

Sem que alguém que me convidasse, dificilmente eu veria esse filme. Todo o burburinho que surgiu em torno dele tem mais a capacidade de me afastar do cinema do que de me atrair. As críticas que surgiram e os comentários das amigas que assistiram não ajudavam a tornar o filme mais atraente. De qualquer forma, surgiu o convite e eu acabei assistindo. O texto abaixo contém inúmeros spoilers.

Admito que a primeira metade do filme fluiu de forma bem mais divertida do que eu esperava. Eu senti empatia pela Adélia logo de cara. Os cabelos desgrenhados, o olhar perdido, indicavam que Adélia ainda não tinha encontrado seu lugar no mundo. Os sonhos molhados, a decisão de transar com o colega de classe, de beijar a amiga no banheiro e de ir a um bar gay apontavam que Adélia estava explorando sua sexualidade. E faz todo o sentido do mundo que uma garota que ainda nem atingiu a maioridade explore a própria sexualidade.

Adélia não gosta de fazer resenhas sobre os livros que lê (mas adora ler), não gosta que leiam seus poemas (mas adora escrever), não se importa de sair com garotas desde que não seja contestada por seus pais ou colegas de escolas. Adélia não nasceu para o espaço público, ela só opera no âmbito privado.

Meu primeiro desconforto real com o filme foi na cena do bar gay (eu já estava desconfortável com os incessantes closes de boca e bunda, mas estava disposta a relevar isso se o restante do filme compensasse). Para quem é gay (ou para quem pensou em algum momento da vida que era gay), ir a uma boate gay é como debutar. Tudo é novo; a naturalidade com que as pessoas ao redor expressam sua sexualidade é chocante, mas de um jeito acolhedor. Adorei a fala do homem mais velho tatuado, e esse é um momento onde os closes de bocas realmente fazem sentido. È a primeira coisa que você repara quando entra num bar gay: a quantidade de gays se beijando.

Mas aí vem a cena da conquista. Admito que o burburinho que a Adélia causa ao entrar no bar me causou estranheza e na hora eu não consegui decodifica-lo. Mas então nós seguimos Adélia pelo bar até que ela finalmente encontra seu objeto de desejo, Emma. A aproximação das duas é meio cafona: Emma é superconfiante, meio machona, encarna a figura protetora que irá proteger Adélia das outras lésbicas malvadas. Ela é mais velha e mais sábia, enquanto Adélia é uma criança perdida num mundo de adultos. Admito que vendo essa cena somada aos closes de bunda, pensei imediatamente em “Queer as folk”, na cena em que Justin e Brian se conhecem. Não é difícil encontrar exemplos literários e práticos de casais formados por uma pessoa mais velha e experiente (que funciona como tutor), e um efebo. Dos gregos ao Luiz Mott, é um imaginário consolidado. Exceto por alguns filmes pornôs, não me lembro de relacionamentos lesbianos que seguissem a lógica tutor/mestre. A própria ilha de Lesbos, onde Safo ensinava suas ninfetas a arte da poesia, nunca teve o aspecto geracional tão marcado (quando comparado ao exemplo grego). E eu estou falando isso tudo para dizer que eu compreenderia muito melhor essa cena se tratasse de dois homens ou de um homem e de uma mulher. Mas sendo as duas mulheres, fica um pouco mais complicado para mim chegar ate – onde eu acho – que o autor que me levar.

 

Há um outro aspecto – estético e bem bobo – que me impede de compreender Emma como um macho-alfa: ela é mais baixa que Adélia. Essa detalhe bobo, me fez dissipar a ideia de que ela seria o macho-alfa. Ela é mais sábia e sabe se portar no mundo adulto, mas não, ela não é macho-protetor-tradiconal que já figurou em tantas peças (ou você conseguiria imaginar, no cinema, um casal hetero cujo personagem masculino pretenda ser protetor e provedor e que seja, ao mesmo tempo, mais baixo que a mulher?).

Daí nos seguimos para o inicio do relacionamento das duas e para as famigeradas cenas de sexo. Na minha cabeça, as cenas de sexo teriam que ser quentíssimas pois representavam o fim da busca de Adélia, a concretização da sua sexualidade. Teria que ter pelo menos o dobro de tesão da primeira cena (com o colega de escola). E bem, realmente achei que as atrizes não estavam confortáveis com os papeis que estavam assumindo. As cenas me soaram burocráticas, sonolentas. Não consegui identificar os símbolos que eu associo a uma transa realmente boa. Aliais, o suor (ok, eu estou supondo que é suor, não sei se é mesmo) na face superior das duas pareciam mais lagrimas do que de fato suor. A própria boca – tão incessantemente focada durante todo o filme – aparece nessas cenas secas.

As tais cenas de sexo são intercaladas com cenas das duas se conhecendo melhor. Emma apresenta Adélia a família e aí a gente entende melhor de onde ela veio e o que é importante para ela (ter um carreira). Entendemos também que para Adélia isso é irrelevante – a vida prática é um valor muito mais concreto. Adélia apresenta Emma a família, mas não tem coragem de assumi-la como namorada. Adélia não tem coragem de assumir seus próprias desejos. Emma parece frustrada, mas não o suficiente para que isso a afastasse de Adélia.

As cenas de sexo acontecem basicamente em função da bunda, o que coloca as duas gozando de costas uma pra outra. Passei boa parte do filme tentando entender o que isso significativa: seria um símbolo da distancia que existe entre as duas? A resposta que me parece mais plausível é também a mais frustrante.

Mas o filme segue, as duas crescem, passam a morar juntas. Adélia é uma esposa exemplar e uma ótima professora. Lida maravilhosamente bem com crianças. Aparentemente, Adélia não tem outra perspectiva fora a escola e Emma.

Aí tem a festa. E da mesma forma que Adélia não conseguia ficar a vontade na parada gay (é delicioso comparar a cena dela na manifestação estudantil e dela na parada gay), ela não conseguia ficar a vontade entre os amigos de Emma. Ela tenta compensar seu desconforto de concentrando na materialidade, se concentrando em alimentar e embriagar os convidados e isso só causa mais desgaste. A única pessoa com quem ela consegue conversar é com um ator Hollywoodiano – alguém provavelmente tão deslocado quanto ela.

E aí temos Lize. Alguém com traquejo suficiente para lidar com um bando de pós graduados, mas aparentemente Emma não está fascinada com isso. O que entra em close logo após a troca de olhares das duas é a enorme barriga de Lize. Nesse momento, você sabe que Adélia perdeu. Que é questão de tempo até que Emma faça a troca.

O filme segue e Lize e Emma ficam cada vez mais próximas. Adélia se sente sozinha e acaba se envolvendo com um dos professores da escola. Chegamos a cena da briga.

A reação de Emma me pareceu absolutamente desproporcional ao que ela de fato viu. Tivesse ela aberto a porta do quarto e pegado Adélia no flagra, teria sido ok. Mas da mesma forma que seria absurdo Adélia esperar no escuro Emma voltar de um dos seus “encontros de trabalho” com Lizze, é absurdo ela colocar a parceira de anos para fora de casa porque ela pegou uma carona (e antes de Adélia confessar, o espectador já percebe que Emma quer seguir com a briga). A insistência de Emma na palavra “puta” também me incomodou. Como alguém termina um relacionamento sem realizar nenhuma autocrítica e/ou se vitimizar? Aparentemente, Emma não guarda nenhum remorso, nenhuma saudade. É nítido que ela apenas queria uma desculpa para encerrar uma relação que já não era mais satisfatória.

Só que essa cena é mais do que isso. A repetição da palavra “puta” não é involuntária. Se você é burro como eu e não entendeu até agora o que o diretor quis dizer, bom, é nessa cena que ele desenha filme. Você se lembra dos closes de bunda e boca, das cenas de sexo por trás, do efeito avassalador que Adélia tem sobre as mulheres, despertando seus instintos mais selvagens? Pois bem, tudo isso era só para dizer que Adélia é uma puta. Os closes, o voyeurismo, na verdade o diretor não quer que você crie empatia com Adélia; ele quer que você a deseje. Que você a enxergue, durante todo o filme, com os olhos que Emma enxergou nessa cena. Adélia é um furacão de sexualidade, uma versão catarrenta e desarrumada de uma Lolita, com quem é possível transar mas jamais casar e ter filhos.

Emma deixa Adélia para se casar com Lize. Aparentemente, o cotidiano das duas é muito semelhante ao cotidiano que Emma tinha do Adélia. Emma apenas trabalha e Lize faz surpresa ornamentando a mesa de café da manhã com flores. A grande diferença entre as duas é que Lize sabe se portar entre os amigos de Emma. Lize é, afinal de contas, uma esposa que Emma pode ostentar.

Mas não é isso que Emma apresenta como sendo a principal qualidade de Lize. A principal qualidade dela é ter gerado uma menina. A “fase vermelha” de Emma é constituir uma família. Na cena do café, Emma deixa bem claro que jamais constituiria uma família com Adélia. Como se apenas Lize fosse capaz de lhe dar uma família.

Mas afinal de contas, o que é uma família? Oras, nada nesse mundo é mais material e repetitivo do que constituir uma família. Adélia guardava todos os requisitos para isso: lidava maravilhosamente bem com crianças e tinha todos os atributos necessários para cuidar de uma casa. Porque Emma não poderia criar um filho com ela?

Oras, porque só dá para constituir a ideia de Adélia é uma puta, opondo essa imagem a figura quase santa de Lizze grávida. Se você é esperto e viu esse filme com olhos heteronormativos desde o inicio, você não ficou surpreso com a “revelação” de que Adélia é uma puta. mas se você for burro, se você não compartilha dos mesmo símbolos e ícones que o diretor, bem, é fazendo uso da oposição santa-puta que ele deixa bem claro o tema central do filme.

Se Emma simplesmente abandonasse Adélia porque ela não quer estudar e portanto nunca irá satisfazer os anseios sociais de Emma, teríamos apenas um romance que não deu resto. Os closes de boca e bunda perderiam sua significação. Até as cenas de sexo perderiam sentido. Mas ao opor a figura de Adélia a figura de Lizze, retomando o binômio puta-santa, aí toda a objetificação de Adélia faz sentido. Até a escolha da bunda e da boca faz sentido.

Se as cenas de sexo fossem heterossexuais, ou seja, se Emma fosse um homem, eu teria entendido a objetificação de Adélia imediatamente. O ponto de vista que define uma mulher como vadia é sempre um ponto de vista masculino; um homem tem o poder de transformar em vadia uma mulher que quer sexo com ele e uma mulher que não quer. Não há critério objetivo, vadia é aquela mulher que fez algo que um cara não gostou. Até quando o xingamento vem de uma boca feminina, ele sempre está relacionado com algo que a mulher fez ou deixou de fazer em relação a um homem.

Dito isso, se Adélia aparecesse em cenas calientes de sexo anal com um homem, a caracterização dela como vadia estaria claríssima. Uma mulher admitir que tem prazer ao fazer sexo anal é provavelmente o caminho mais curto para ser caracterizada como vadia. Em escala menor (porque os costumes vão mudando no decorrer do tempo), pode-se dizer o mesmo da boca. Pudico é apenas o sexo vaginal, e talvez por isso quase não se veja bocetas durante o filme.

Mas sendo as duas garotas, isso passou despercebido para mim. Sabe, lésbicas não escrevem para programas de TV pedindo dicas de como comer o cu da namorada ou de como convencer o namorado a parar de pedir isso. Não que lésbicas não façam sexo anal – elas fazem – só não é uma grande questão. Então, quando eu vi as duas meninas do filme transando eu pensei em tudo, menos numa relação de poder onde Emma detivesse o poder de definir Adélia como vadia.

No fim, eu não gostei do filme porque não fui capaz de decodificar os símbolos do diretor. Não consegui acompanhar o seu olhar. Isso não faz do filme um filme ruim (a depender de como seja o quadrinho que o originou, pode ser uma má adaptação). Mas não sou obrigada a gostar de um filme só porque ele tem uma boa fotografia e um roteiro verossímil.

Com relação as polêmicas de bastidores, as cenas de sexo certamente atraíram muito público para o cinema, mas ainda acho que elas contribuem pouco para trama, especialmente ao se levar em conta o depoimento das atrizes e as expressões de constrangimentos que elas deixam escapar durante a filmagem. “Shortbus”, “A concepção”, “Baixio das Bestas”, “Nove canções” fizeram um uso melhor desse tipo de recursos. 

Até o igualmente polêmico (e comparado aos filmes atuais, bem pouco pornográfico) “O ultimo tango em paris” consegue construir melhor uma conexão entre a trama e a sexualidade crescente dos seus personagens. Se serve de consolo (e provavelmente não serve) o abuso que Maria Schneider sofreu diante das câmeras ao menos contribuía para a narrativa que estava sendo criada. No caso de “Azul é a cor mais quente”, o efeito é exatamente o oposto.   

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