Demônios e Pesadelos

por inquietar

Ela habitava o mundo onírico dos sonhos tal qual faziam todos os seus semelhantes. Era uma habilidade inata à sua espécie, ainda que frequentemente negligenciada. Acreditava-se que os sonhos encerravam em si mistérios, disparos caóticos de informação carregados de significado. Ela sonhava, e sempre lembrava.

Um dia decidiu conjecturar. Os pesadelos lhe intrigavam, especialmente aqueles que envolviam demônios. Não eram cíclicos, mas possuíam uma constância. A memória lhe permitia reconhecer os seres que atravessavam seu imaginário. O mais intrigante deles era o ser-em-pele-de-homem.

A primeira vista ele se parecia com um homem, mas ao olhar com mais atenção era possível identificar as marcas de corte e de remendo na sua pele. Também a tonalidade parda, como se a mesma tivesse sido curada e queimada, tal qual couro antes do uso. A face injetada e as expressões artificias não deixam dúvida: tratava-se de um outro ser vestindo pele humana.

Logo após o primeiro encontro com esse ser, ela teve um lampejo: como será que se parecem aos coiotes, os xamãs que se vestem com a pele do animal para percorrer o seu mundo? Seria aquele ser, um xamã coiote penetrando no habitat humano? Por que diabos alguém se fantasiaria de homem, se não fosse para experimentar o mundo tal qual um homem?

Uma vez ela e o ser-em-pele-de-homem ficaram frente a frente. Estavam no mundo de sonho dela e também no seu próprio espaço: ela estava na porta da frente da residência em que viveu toda a infância. Dentro da casa, apenas o irmão dormia. A noite iriam fazer uma festa, mas o ser-em-pele-de-homem não tinha sido convidado e por isso não podia entrar. Entretanto a porta estava aberta e pelo jeito dele se movimentar, ele queria entrar. Ela permaneceu em pé diante da porta incapaz de fechá-la. Por outro lado, o ser-em-pele-de-homem também era incapaz de ultrapassa-la. Ela percebeu que ele precisava de convite para habitar aquele espaço. Ela quase cedeu a tentação de convida-lo. Após um longo período de tensão e confusão mental, ele se foi. Ela pode fechar a porta e retornar. Se virou de costas e sentiu medo. Olhando por sobre os ombros, viu que o ser-em-pele-de-homem permanecia na rua. Distante, incapaz de ameaça-la, mas ainda observando. Era o que ele mais fazia: observava.

A primeira vez que que ela viu o ser-em-pele-de-homem foi no espaço onírico dos demônios confabuladores. Ao menos ela acreditava estar lá. Os demônios confabuladores consistem em duas entidade femininas – que ela gosta de pensar que são irmãs, apenas por uma questão de estética – a respeito do qual, normalmente, ela escuta as vozes. Ela entende o que os demônios confabuladores falam, ainda que não seja capaz de significar: o diálogo entre elas é um jorro desordenado de palavras desconectadas, como um poema dadaísta. Em geral, ela só compreende a última fala: àquela que revela uma conspiração para matá-la. Ela não tem certeza se compreende essa fala por méritos próprios, ou se a compreende devido a ação que a segue – e portanto é a ação e não a fala que ela decodifica. Esse é provavelmente um dilema indissolúvel. O fato é que os demônios confabuladores são bastantes sensíveis a gritos e posições de poder. É fácil se desvencilhar deles, portanto não se trata de uma ameaça real, a não ser que se esteja no universo onírico deles. Ou que eles estejam fora do plano dos sonhos.

Os demônios confabuladores costumam aparecer no início do sonho. Ela lembra de uma noite em que estava entregue as peripécias de Morfeu, naquele estado pré-sonho e pré-sono preenchido com imagens aleatórias onde era muito difícil distinguir o real do imaginário. Ela ainda se sentia lúcida o bastante e avançou sobre um espaço desconhecido, cujas paredes e o chão guardavam pouca conexão com seus similares humanos. Ela permaneceu perdida nessa dimensão por algum tempo até que começou a ouvir vozes. Vozes que ela compreendia. Decidiu segui-las. Chegou perto, mas permaneceu escondida; ela podia ver silhuetas femininas tagarelando. Se divertiu assistindo aquele espetáculo, até que algum movimento a denunciou. Os demônios confabuladores não entenderam de imediato mas baixaram o tom de voz. Ela só teve dimensão da situação quando se viu cercada pelas duas silhuetas. Estavam muito mais fortes do que em qualquer outro sonho que tivera. Ela precisava correr, ainda que seu corpo não obedecesse e estivesse dolorido como se cada membro tivesse sua energia vital sugada por uma agulha. Ela acordou antes de escapar dos demônios. No escuro infinito que separa o real do onírico ela enxergou com muita nitidez o rosto do ser-em-pele-de-homem, que sorria.

Depois de acordar, um quadro completo com os três demônios veio a sua mente. De todos os demônios, os confabuladores são os que mais aparecem fora do mundo dos sonhos. As mesmas vozes que conduzem ao interior do onírico, emitem sussurros durante o dia. Em momentos de tensão, medo ou aflição. O que elas dizem é sempre desprovido de significado; como um sussurro longínquo que se teme mais pela origem do que pelo conteúdo. E no fundo ela sabe o que teme: que um dia ela se torne uma dos confabuladores.

Há também o ser-sinestesia. Entidade de corpo etéreo, que nas poucas vezes que foi visto com olhos tinha seu corpo recoberto por uma manta marrom. Humanóide apenas da cintura para cima, a criatura é capaz de se arrastar em todas as direções. Sem olhos ou ouvidos ele apenas toca, puxa, aperta, arranha, sufoca. É um demônio sem propósito, que não anuncia nada, não exige nada, não transmite nada. Vazio. As vezes ela vê seu rosto rodeado por uma fina camada de poeira. Feições humanas que se dissipam rapidamente toda vez que ela grita.

A menina-morta é o demônio que mais frequenta seus sonhos. As vezes ela acredita que a menina-morta já habitava aquele espaço onírico antes de ela começar a sonhar com ele. A menina-morta é exatamente o que o nome anuncia: uma mulher bem jovem, de aspecto cadavérico e cabelos compridos. Sua pele é absolutamente repulsiva e o rosto apesar de ser humano e reconhecível é portador de traços macabros. Mas a característica mais assustadora da menina-morta são seus olhos castanhos e opacos. Sempre que se encontram, ela fita a menina-morta bem nos olhos.

A vez mais marcante foi numa noite ao acaso: ela sonhava que dormia, que tinha aberto os olhos e que estava deitada na sua cama. Olhando em direção ao armário, reparou que a porta estava aberta e que dentro havia uma menina enforcada, o corpo inerte e o rosto inchado e pálido. Ela olhou a cena e se perguntou “estará morta?”. Eis que a menina-morta sorriu, mostrou seus olhos castanhos. A menina-morta não conseguia se mexer; tão pouco ela. Se fitaram assim, num misto de insanidade e medo. A menina-morta não responde aos gritos nem aos espaços de poder. A menina-morta sempre está dentro. As vezes ela desconfia que a menina-morta é apenas suas sombra. E aí sente medo.

Nem sempre a menina-morta aparece com sua forma repulsiva de cadáver. Frequentemente, ela se apresenta em outras formas oníricas. O sonho transcorre normalmente, até que um dos personagens começa a agir de forma estranha e seu rosto é tomado pelo olhos castanhos-abismo. E então ela sorri, porque sabe quem está a sua frente e o que é preciso fazer. As vezes corre, as vezes enfrenta, depende da perspectiva.

Uma única vez a menina-morta se manifestou no mundo real. Aliais, se ela fosse considerar as alucinações esse numero poderia subir para três. mas as alucinações não contavam; um vulto ou um susto não eram consistentes os suficiente para que ela perdesse tempo pensando nisso…Entretanto houve uma vez em que ela se sentiu a um passo de perder o controle sobre o próprio corpo. Estava longe de casa, numa cidade desconhecida, cercada de pessoas igualmente desconhecidas. Estava entorpecida, com as portas da percepção abertas. Estavam todos sentados em círculo e na mesa de centro uma faca e um tijolinho de maconha. Enquanto seus novos amigos riam e tagarelavam ela sentiu a sombra se aproximando. As perspectivas estavam distorcidas, ela sabia que seu corpo se encontrava de costas para cozinha e de frente para janela. Mas ela estava enxergando a si mesma, como se estivesse parada em pé de costas para janela… Como se tivesse atingindo uma quarta dimensão onde as três dimensões pudessem ser exibidas todas de uma vez. A sua frente, um quadro de Picasso. E dentro dela um ódio muito grande, todo sintetizado naquela faca que se oferecia na mesa de centro. Tentava mover seu corpo para recuperar o sentido de realidade, mas era como se fosse um títere. Seus olhos castanhos estavam se tornando opacos e por trás de seu corpo pairava a menina-morta. E como se estivesse num sonho, a unica coisa que pode fazer foi afastar os pensamentos malignos que lhe ocorriam, até que tivesse oportunidade de escapar para rua onde a chuva e o frio lhe devolveriam a sanidade.

Quando vislumbrou a pequena tipologia que tinha criado, um receio a assolou: a primeira condição para entender um fenômeno é nome-lo. Por outro lado, a primeira condição para que algo exista é possuir um nome.

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