Sobre bandeiras – parte 2

por inquietar

Outro ponto em comum nas marchas é a presença da bandeira nacional. Enrolada no corpo, mimetizada em dois riscos de guache no rosto, a tiracolo nas mãos, ela sempre está lá. A ponto de incomodar uma parte do pessoal, que considera a bandeira um simbolo do estado, do fascismo e de tudo aquilo contra qual o movimento luta. 

Particularmente, a bandeira do Brasil não me incomoda. Primeiro porque as manifestações estão acontecendo durante (e por causa) da copa das confederações e qual a única ocasião que faz os brasileiros se vestirem de verde-amarelo e irem para rua comemorar a benção que é ser filho da pátria de chuteiras? A Copa do Mundo. Então, quando eu olho para as pessoas empunhando bandeiras acabo enxergando torcedores; eles estão na rua, reivindicando pautas politicas mas estão vestidos para um jogo de futebol. Até as canções que são entoadas “eu sou brasileiro, com muito orgulho com muito para amor”, “vem para rua” e até o hino nacional (que só cantam a primeira parte, tal qual se faz nas competições esportivas) remetem imediatamente a mística do esporte. E acho bonito para caramba ver essa mística fora do estádio, da frente da TV, por outras causas que não motivar 11 caras a correrem atrás de uma bola.

Por outro lado tem o sentimento de nacionalismo que exacerbado pode levar a situações terríveis de violência. A necessidade de pertencer a um grupo é inata no ser humano e sempre vamos estar buscando nosso lugar no mundo. Se alguém não se sente brasileiro, certamente se sente cruzeirense, feminista, membro da família Silva, católico ou amante de esportes radicais. Nada disso é um problema enquanto o fato de ser cruzeirense ou amante de esportes radicais não for condição minima para que se seja humano.

Traduzindo de forma clara se eu espanco até a morte um sujeito que usa uma camisa do Atlético MG eu sou um idiota e o problema é a relação doentia que eu tenho com o time Cruzeiro e não propriamente a existência de clubes de futebol. Da mesma forma que a moça que ri de um homem que teve o pau decepado não condena a existência do movimento feminista. Ou as cruzadas e bruxas queimadas pela Igreja Católica no passado não inviabilizam a existência da doutrina religiosa.

O nacionalismo só faz mal quando passa a ser condição minima para que se reconheça a humanidade do outro. Senão, é só mais uma forma de interagir e relacionar com o mundo. Sob certo ponto de vista pode ser uma forma idiota de se relacionar com o mundo, mas não é ruim. Empatia com o outro e nacionalismo podem coexistir numa boa.  Daí que eu não veja nenhum problema nas pessoas enroladas na bandeira.  

Além do mais, o hino e a bandeira foram criados lá em 1800 e bolinha mas ao longo do séculos passaram a fazer parte da história e da cultura brasileira. A vida não é estática; se a letra desconhecida e complicada do hino vem de um concurso de poesias fajuto ao longo dos séculos ela foi resignificada pelos brasileiros que a ouviam e faz parte da cultura do país. Tem muita gente que não sabe cantar o hino na integra, mas o considera importante. Assim como tem gente que nunca pegou “O Capital” nas mãos, mas considera um livro fundamental para a humanidade. Ou a Constituição. Ou o V de Vendeta.

Negar as pessoas o direito de portarem os símbolos que lhe são importantes simplesmente porque alguém não gosta deles é uma violência incompatível com uma sociedade democrática.

“Ah, mas e se o sujeito aparecer na marcha com uma suástica? Eu devo aceitar em nome da liberdade de expressão?”.

Em primeiro lugar leia esse link: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_de_Godwin.

Depois eu sugeriria os seguintes passos:

1) Pergunte educadamente para o individuo “Você está usando essa suástica porque você é nazista?”

2) Caso ele responda que sim, chame a polícia. Defender ideias nazistas é crime no nosso país.

3) Caso ele responda que não, que está apenas testando os limites da liberdade de expressão no país, chame a policia. Ele será apresentado aos tais limites que sempre quis conhecer.

4) Caso ele responda que não, que na verdade ele usa a suástica na sua acepção hindu, converse com ele. Explique o quanto o simbolo incomoda e se seria possível que ele encontrasse outro simbolo no vasto vocabulário hindu que significasse a mesma coisa e não incomodasse tanto. Se ele responder que somente a suástica atende as necessidades procure convence-lo a usar a suástica em conjunto com outros ícones que deixassem claro a concepção neo-nazista do gesto. Por fim, acompanhe as ideias do individuo para ter certeza que o discurso elaborado sobre o simbolo é condizente com as suas atitudes. Caso você encontre evidencias claras de nazismo, favor retomar o passo 2.

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