Destruir, construir, reconstruir

por inquietar

No meu primeiro contato com as idéias anarquistas, lá pelos meus 15 anos, me incomodava e ao mesmo tempo me seduzia o vazio que os textos possuíam sobre a realidade pós-revolucionária. Ninguém sabia ao certo – nem perdia tempo imaginando – como seria uma sociedade anarquista. As discussões giravam em torno do quanto a sociedade atual era ruim, se uma sociedade anarquista teria dinheiro ou não, mas o cotidiano, os conflitos, isso era um assunto nebuloso. Me incomodava, porque nem sempre eu sabia o que responder quando me questionava. Me seduziam porque nesse cenário tudo era possível. O tempo passou, outros textos e outras ideias surgiram, eu mudei de posição inúmeras vezes até chegar aonde estou.

E aonde eu estou? Não sei dizer ao certo, mas tornou-se uma preocupação para mim – quase uma obsessão – saber o que viria depois do grande evento, da revolução, do cataclisma politico que separa o hoje da utopia. E quanto mais pensava no que viria depois menos a ideia de revolução parecia atraente. Quanto mais pensava a respeito, menos vontade eu tinha de destruir.

Eu lembro dos anarquistas dizendo que para construir algo primeiro é preciso destruir. Já concordei, mas hoje em dia eu diria que para construir algo você precisa saber o que quer construir. Antes mesmo de destruir. Ou você autorizaria a demolição do Estádio Independência antes da empreiteira apresentar um projeto para o estádio?

Mais do que qualquer coisa é isso que me deixa cansada no tocante a política. É uma ciência de destruição: do projeto do outro, da candidatura do outro, dos ideais do outros e as vezes do próprio outro. A discussão que agrega espectadores, que interessa, é sempre a que desmerece, independente do compromisso com a verdade. Discutir um projeto para o país/estado/cidade/quarteirão, considerar as dificuldades e múltiplos interesses envolvidos na formação de um projeto, isso não interessa. O que for vir depois, é problema de quem vier depois.

E acho que a superficialidade de cartazes e opiniões deriva disso. Até o perigo das pessoas serem utilizadas como massa de manobra vem daí. Por trás de discursos genéricos como “abaixo a corrupção”, “mais dinheiro para educação”, etc, pode se esconder qualquer coisa de anarquistas a fascistas, de comunistas a ultra-capitalistas.

E qual o trabalho de pensar como seria o mundo de amanha? O mundo em que gostaríamos de viver? Queremos mais dinheiro para educação? Ótimo, de onde sairá esse dinheiro: dos investimentos feitos em segurança pública, dos empréstimos a juros irrisórios do BNDES, das obras faraônicas, do dinheiro gasto em paisagismo urbano, de um novo imposto sobre o rendimento? Não é um discussão assim tão impossível.

Para amadurecer uma opinião política não acho que as pessoas necessitam ter a profundidade de um acadêmico, mas precisam saber – ao menos superficialmente – os reflexos dos chavões políticos que utilizam. “Mais dinheiro para educação” significa o que, mais dinheiro para o professor? Para a escola? Para as bolsas de estudo das universidade? Para programas que incentivem a permanência das crianças nas escolas? Para as creches? para tudo isso? Ok, mas em que ordem? Quem tem prioridade? Se a educação e a saúde estivessem dependuradas num abismo e você só pudesse salvar uma, quem seria?

Acho que as pessoas precisam pensar nisso. Precisam saber o que procuram. Se querem a cada dois anos delegar poderes políticos a um individuo e então não pensar a respeito ou se querem mais transparência sobre os mecanismos governamentais para que possam opinar claramente sobre elas. Se querem mecanismos de participação ou se querem um governo eficiente e que não incomode.

Mas isso não quer dizer que eu não tenha me emocionado com a manifestação de segunda. Achei lindo, de verdade. Bacana ver tanta gente nova ao lado de manifestantes já bem conhecidos de outras causas. E deu para sentir que o movimento – que começou em algum lugar, por que algo desse tamanho não é espontâneo – não tem liderança nem rumo definido e que qualquer um que tente se apropriar dele terá problemas.

Só acho que tá hora de parar de destruir. E começar a pensar no que pretendemos construir daqui para frente. Não podemos ser um país sem projeto pro resto da vida.    

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