Vidente

por inquietar

– Isso é viagem no tempo com toda a certeza!

O homem se assustou. A cigana permanecia impassível fitando atentamente sua mão esquerda.

– Outras diriam que essa bifurcação na sua linha da vida é um momento de escolha, mas eu sei que não é. É viagem no tempo. Se você permanecer na linha principal vai encerrar sua vida nesse universo. Mas se aceitar a viagem ficará preso no universo de destino.

Quando o homem deixou que a cigana lesse sua mão, esperava aquelas previsões tradicionais: um futuro recheado de amor, dinheiro e provações. Aonde tudo era possível desde que ele vencesse os desafios. Na verdade sequer tinha dúvidas a sanar; aceitou o serviço dela mais por pena do que por necessidade. Inclusive, se tivesse a possibilidade de entregar o dinheiro e não ouvir a ladainha da senhora, ele teria feito. Agora, viagem no tempo! Santo Deus, aquela mulher não tinha medo de errar!

Não resistiu: entupiu a pobre de perguntas. Ela se limitava a responder “sendo eu vidente, é natural que preveja qualquer aspecto do futuro”. Antes de ir embora tentou um último argumento:

– Senhora, esse traço que você aponta sequer é de nascença. É uma cicatriz de infância.

Ela se mantinha firme na opinião. Decidiu ignorá-la. No fim, a cigana maluca virou uma boa história para contar na mesa de bar.

Décadas se passaram e aos quarenta e poucos anos ele se viu numa situação insólita: fora atingido por um raio. A corrente elétrica impedia os movimentos e lhe causava uma dor excruciante. Milhões de pensamentos figuraram na sua mente de bobagens escolares a passagens da bíblia. De cachorros falantes a cenas de Gosth. Mas a última coisa que ele pensou foi na cigana. E tomado pelo impeto da aventura ignorou a dor, forçou seu corpo e se jogou no que parecia um portal.

Não enxergava nada e seu corpo formigava. Sentiu medo. Estaria morrendo? Estaria morto? E se estivesse indo para o inferno? Seria a cigana encarnação de algum demônio? Tudo ficou muito claro e ele perdeu a consciência. Acordou em 1950.

Se pudesse escolher iria para 1920 ou então para o futuro. Os anos 50 não eram grande coisa. Logo, logo o país seria tomado por uma ditadura militar. Mas não havia espaço para frustração. Ele estava vivo, e a cigana – sabe-se-la como, tinha acertado. Aquilo era viagem no tempo. Com certeza.

Arrependeu-se de não ser aficionado em esportes, bolsa de valores ou loteria para usar essa vantagem para ganhar muito dinheiro. Mas ainda podia fazer algum com as informações que possuía. Sabia em quais negócios era seguro investir, sabia boa parte dos campeões de futebol.

Decidiu deixar os paradoxos temporais para lá; não ia subverter tudo a ponto de conversar consigo mesmo mas também não ia se preocupar em preservar as borboletas. Se o universo quisesse explodir, ele que explodisse. O que lhe restava, afinal, era viver.

E quanto mais olhava sua mão, mais se convencia que estava na linha secundária do destino. Exatamente como a cigana disse, aquele era outro universo. Qualquer modificação ali, não afetaria o original. E quanto mais olhava sua mão, mais ficava impressionado com a cigana. Quem seria ela afinal? Uma bruxa do tempo, uma entidade disfarçada?

Enquanto passeava pela avenida principal da cidade ele descobriu – ela era uma trapaceira. Uma cigana ainda menina olhava negligente prum baralho de tarot enquanto sua mãe vendia previsões aos transeuntes. Ele não resistiu: foi até ela, apontou a bifurcação na própria mão e proferiu.

– Isso é viagem no tempo. Não se esqueça disso. Eu sei, porque eu vim do futuro.

Saiu de lá rindo. Não dá para confiar mesmo em videntes! Havia satisfação no seu semblante. Um mistério a menos, uma certeza a mais. Achou melhor, a partir daquele momento, tomar mais cuidado para não pisar em borboletas.

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