Galinhas, aliens e você acredita com o que eu sonhei outro dia?

por inquietar

Foi um sonho exótico, porque não se relaciona com nada que aconteceu no dia. Um dia enjoado de ressaca, vômito, trabalhos postergados, amistoso da seleção, reprise de curling. Como se os neurônios decidissem – por falta de matéria prima – revirar o baú das ideias na hora de compor o devaneio.
– O que tem para hoje?
– Vômito, ressaca moral, um jogo estranho com pedras e vassouras e uma apresentação medíocre da seleção.
– Putz, não da para fazer um sonho com isso…
– Que tal se a gente misturas “alien” e a “agonia do verde“? Acho que ela vai gostar.
– Bora

Ela trabalhava numa fazenda. Era cientista geneticista. Trabalhava com galinhas. O mundo estava em crise, os animais de criação estavam sendo atacados por uma praga. Precisavam de animais mais resistentes. Então, decidiram fazer experiências genéticas mesclando o DNA de galinhas domésticas a um DNA alienígena que fora recuperado numa ruína inca. Ela já tinha conseguido vários exemplares vivos e aparentemente saudáveis: galinhas pretas e gordas, sem penas, recobertos por uma pele úmida, cujo bico era uma ventosa dentada. Galinhas alienígenas.

Ela não tinha certeza se as galinhas podiam ser comidas. Eram muito resistentes, mas de que forma elas afetariam os seres humanos? Precisavam de mais testes. O chefe do departamento, entretanto, parecia muito satisfeito com o trabalho dela. Tão satisfeito que soltou uma das galinhas enquanto ela apresentava as instalações para os outros burocratas que cuidavam do projeto. Ela se desesperou tentando recapturar a galinha sem ser tocada por ela. Aquele bicho realmente a assustava. Ela queria ir embora da fazenda.

Decidiu fugir. Desconfiava que o objetivo das suas pesquisas não era garantir o acesso das pessoas a proteínas. Havia um rapaz que trabalhava na mesma fazenda e que também parecia incomodado com tudo aquilo. Decidiram fugir juntos, mas precisavam fazer direito, sem que ninguém percebesse até que estivessem realmente longe. Ele era bom com veículos e foguetes.

Antes que eles pudesses executar o plano ela foi chamada para dar uma entrevista sobre o projeto. Haviam preparado um estúdio com um cenário de talk show dentro da fazenda. Havia um sofá de três lugares e uma mesa. O apresentador começou com as perguntas e depois de um tempo chamou outro convidado. Era um hibrido alien-humano. Assustador, com a pele úmida e várias fileiras de dentes num sorriso de orelha-a-orelha. Mas falava educadamente e parecia sobre controle. Ela não criou aquele ser. Não tinha ideia de quem tinha criado. Seria o efeito do consumo das galinhas geneticamente modificadas?

Ela se manteve calma até o fim da entrevista. Fora do estúdio notou que haviam mais hibrido alien-humanos. Cerca de 4. Os burocratas pareciam felizes e satisfeitos. Precisava fugir imediatamente.

Entrou em contato com o amigo e contou o que tinha acontecido. Ele não parecia muito chocado. Ele imaginava que não estavam produzindo comida na fazenda desde o dia que descobriu que o DNA alienígena veio de um meteoro e não de uma civilização antiga. Era um material orgânico muito resistente – que sobre certas circunstancias – poderia atravessar toda a atmosfera e chegar intacto a superfície do planeta. Ela ficou chocada. Aqueles seres eram tão resistentes assim?

Traçaram o plano de fuga. Ela correu por uma longa estrada de terra temendo ser vista até que encontrou com ele e sua nave. Dentro da nave tiveram de decidir: podiam voltar e tentar combater os aliens usando os lança chamas da nave – mas precisariam calibrar eles primeiro, descobrir a intensidade exata para matar os alienígenas. Uma grande risco. Ou podiam fugir. Logo os burocratas mobilizariam seus exércitos (e alienígenas) para caçá-los.

– E agora, como a gente termina essa historia?
– Ah, já deu né? Digo, o horário. Já tá na hora dela acordar.
– Mas precisamos de algo pro soneca. Para o 10 minutos que ela sempre pede ao despertador antes de levantar.
– Vamos colocar algo mais realista então. Para ela já ir entrando no clima do dia. Que que ela tem para fazer pela manhã?
– Ir ao banco e a uma repartição pública.
– Boa, vamos botar ela preenchendo formulários na fila de um banco.
– Que pesadelo horrível. Não da para amenizar?
– Qual a boa do fim de semana?
– Semifinal de vôlei.
– Pronto, ela preenche formulários na fila de um banco para poder jogar num time de vôlei. Melhorou?
– Desconfio que ela preferiria lutar com os aliens. Desconfio.

É, eu preferia mesmo.

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