João e Maria, caçadores de bruxas – crítica

por inquietar

Contém Spoilers

O filme revisita a fábula de João e Maria – nessa versão o casal de irmãos é abandonado na floresta pelo pai. Eles encontram uma casa de doces, são capturados por uma bruxa horrenda, matam ela e a partir daí se tornam caçadores de bruxas.

De forma geral o filme não encanta. É um filme de ação bacaninha, mas só. Falta suspense, bons sustos e até boas piadas – várias delas simplesmente não funcionam.

O principal problema é a falta de carisma do casal principal. Ambos estão demasiado robóticos, sem nuances, muito parecidos. Há uma tentativa de criar personalidades distintas: a Maria seria mais racional, disposta a pensar sobre a própria história e sobre as bruxas enquanto o João seria grosseirão e engraçado. Mas isso é apenas um esboço de personalidades que aparece em pouquíssimas cenas. De forma geral os dois são idênticos e infalíveis – sem medo, sem dúvidas, sem empatia do público.

Os outros personagens também são fracos, sendo a única  exceção o Troll Edward. É o único personagem com algum contraste: é um monstro horrendo e brutal, mas capaz de atos de gentileza. Mesmo sendo servo das bruxas más, ele não se furta a fazer o que considera certo. E eu tenho certeza que deram a ele o nome de Edward para constatar com o protagonista de Crepúsculo. Se foi por acaso, paciência – eu RI disso.

Os efeitos começam bem, mas depois dão uma caída. A primeira bruxa é realmente assustadora, mas depois o que deveria ser um aspecto cadavérico fica parecendo excesso de pó de arroz. As cenas de morte estão lá com crânios esmagados e tripas para todo lado – graças a deus os efeitos ficaram bons o suficiente pro filme não ficar com cara de filme B. E confesso que fiquei um tanto quanto incomodada com o tanto de mulher agredida e brutalizada. Não é algo comum no cinema, vilãs femininas são pouco numerosas, portanto cenas de mulheres sendo espancadas também são poucas. Houve um desconforto, mas acho que foi algo pessoal que não pode ser generalizado. De qualquer forma, vale o aviso de que o filme é violento, não é para qualquer estômago.    

A ambientação é razoável, os cenários são bonitos mas as roupas e armas do João e Maria causam estranheza. O figurino da dupla é futurista (num total contraste com o resto do elenco) e as armas parecem que saíram de um episódio de “exterminador do futuro”. Uma coisa é a sátira engraçadinha com as desenhos de crianças desaparecidas presas as garrafas de leite. Outra, bem diferente, é jogar um visual futurista sem explicar de onde ele vem…

As bruxas são divertidíssimas, pelo menos no início. Elas são fortes, rendem boas brigas e têm poderes fantásticos. O trio principal carece de carisma – e ao contrário das outras bruxas só lançam raios e forçam os humanos a agirem contra a vontade.

Como o filme não tem suspense o desenvolvimento da história é xoxo. Fora o fato dos irmãos caçarem bruxas e de bruxas sequestrarem crianças não acontece mais nada. Trata-se de uma sucessão de cenas de ação intercaladas com alguns diálogos. A coisa é de uma simplicidade que lembra os videogames mais antigos…

As cenas de ação são boas, mas faltou muito para sequência final da luta. Sei lá, era um Sabá com os mais variados tipos de bruxas (algumas bem curiosas, como bruxas siamesas e uma bruxa anã) e o João chega lá e fuzila todo mundo? Assim, seco e fácil? Era a oportunidade de vermos vários epécimes diferentes de bruxas lutarem, de ver várias sequências sincronizadas de pancadaria, de vislumbrar os muitos personagens concebidos pela direção de arte do filme, mas o que a gente vê é todo mundo sucumbir pras abençoadas balas de uma metralhadora que sabe-se-lá deus de onde surgiu…

Por fim, só eu fiquei incomodada com a “história” dos pais dos protagonistas? Vamos recapitular o que a bruxa má conta pros dois: a mãe deles era uma bruxa branca poderosíssima. Tão poderosa que as bruxas más não podiam com ela. Aí a bruxa má descobre que precisa do coração de uma grande bruxa branca para fazer sua poção de invulnerabilidade, só que ela não pode pegar o coração da mãe da Maria porque ela é muito forte. Decide então pegar o da Maria, que era só uma criança. E para isso espalha boatos de que a mãe da Maria é uma bruxa. Essa, por sua vez, decide mandar os filhos para floresta sozinhos, enquanto se deixa capturar e queimar pelos humanos. Sim, porque se você quer deixar seus filhos seguros manda-los sozinhos para uma floresta cheia de bruxas é a melhor pedida! E o pai deixa os filhos no mato e volta para casa porquê? O que raios a esposa combinou com eles? “Querido, esconda nossos filhos temporariamente na floresta, vou usar razão e sensibilidade para convencer os humanos raivosos de que somos boas pessoas, e aí você volta aqui em casa e vamos os dois buscar nossos filhos no ponto da floresta que você escondeu”. Oi? Não era melhor garantir a segurança dos filhos e honrar o sacrifício da esposa? Ou irem os quatro viver na floresta? Aliás, não era melhor os roteiristas terem inventado uma história mais verossímel? E porque a bruxa má fica na cidade, vendo a colega branca queimar ao invés de ir capturar a Maria? Mesmo que ela precisasse de um coração adulto (ela não especifica, mas vai saber), era melhor ter a Maria sobre os cuidados dela né? Tipo, para garantir que ela estaria viva até a próxima Lua de Sangue… E falando em lua de sangue, se a bruxa má ia fazer a poção de invulnerabilidade não devia tá rolando um puta sabá com bruxas vindo de todas as partes? Não podia ter ficado umazinha cuidando do resto da família da bruxa branca? Na minha opinião qualquer outra coisa que eles colocasse no lugar dessa história ficaria melhor – inclusive nada.

Por último, eu que alucinei ou no final do filme rola um remix de “tropa de elite”? Logo após a Maria anunciar que “o enterro não poderá ser com o caixão aberto”. Se tiver sido verdade, uau. Mostra a repercussão de um filme nacional.    

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