Os homens também não precisam

por inquietar

Frequentemente aparece no movimento feminista discussões sobre aparência e roupas. Geralmente o dilema é: mulheres que se depilam, fazem dieta, usam maquiagem, salto e roupas da moda podem ser consideradas feministas, uma vez que uma das lutas do movimento é libertar as mulheres dos padrões de estética e comportamento que o patriarcado impõe? A dificuldade do movimento é definir o que é escolha pessoal e consciente do que é imposição da sociedade. E é uma discussão sem fim porque delimitar a diferença entre essas duas questões depende do ponto de vista particular de cada pessoa.

Eu acredito que estética não define uma feminista da mesma forma que uma camiseta do Che não identifica um socialista. Entretanto me sinto confortável para contestar movimentos como o FEMEN cujas as militantes desnudas são verdadeiras beldades ou para contestar posturas que pareçam uma apropriação indevida da palavra feminista – quando alguma mulher a utiliza para falar do fracasso de algum homem. E acho válido contestar as escolhas estéticas das mulheres quando essas impedem a participação, por exemplo, a moça que não entra na piscina porque esqueceu a chapinha em casa e não quer mostrar o seu cabelo natural.

Entretanto me sinto desconfortável em contestar completamente a idéia de “ser bonita pros outros”. É importante ter auto-estima e se amar, mas ignorar a aparência como parte importante dos ritos sociais e do flerte é tolice. Então não acho que uma garota esteja sendo coagida ou dominada só porque colocou um salto para ir numa festa ou para chamar a atenção de alguém com quem quer flertar. Para mim basta ter a consciência de que a sociedade quer impor um padrão de beleza e saber a hora de parar. Se um calçado machuca, é hora de parar de usar seja ele um salto ou um coturno.

E com o gancho do coturno eu chego na idéia central desse texto. A idéia não era fazer uma reflexão sobre os padrões que o patriarcado impõe as mulheres mas sim fazer essa mesma reflexão com relação aos homens. Qualquer militar – ou qualquer punk/gótico – sabe que coturno é a coisa mais desconfortável do mundo. Exige meias grossas para não comer toda a pele do pé, é quente e frequentemente a dureza do couro provoca deformações no pé. Por sorte, a sociedade não obriga todos os homens a usá-los.

Entretanto espera-se que os homens sejam sempre corajosos, sempre heróis. Porque existe a imagem de que a mulher é uma donzela inofensiva esperando para ser salva. E quem irá salvá-la? O homem, qualquer homem. Se um rapaz vê uma mulher em perigo ele deve agir ou então será considerado covarde. Se um outro homem o desafia ele deve confronta-lo ou é um covarde. E isso é uma tolice que dificulta a vida de homens e mulheres e causa muitas mortes.

Em primeiro lugar as mulheres sabem se defender. Se ela não pediu ajuda é porque provavelmente não precisa e o sujeito não tem que se intrometer (eu estou me referindo a uma situação controlada – uma discussão ou algo do tipo – não a um espancamento). Sem falar na forma que essa ajuda costuma vir – quase sempre com confronto físico, briga. Numa festa um cara me deu um tapa na bunda – uma grosseria com certeza. Devolvi um tapa mirando o rosto, mas não pegou. Aí eu soltei um xingamento qualquer e conclui que o assunto estava resolvido. O amigo que estava comigo foi como um coiote na direção do outro sujeito – que nessa hora já tinha sumido na multidão. E eu passei o resto da festa convencendo o meu amigo que aquela briga não valia a pena. Se eles brigassem muita coisa podia acontecer desde nada até a morte de algum deles.

A mesma idéia de honra que sacrifica a sexualidade feminina obriga os homens a serem violentos. Quantas mortes por motivo fútil já não foram noticiadas? Então a idéia para os rapazes é a seguinte: relaxem. Vocês não precisam salvar o mundo. Não precisam responder pela honra de ninguém, muito menos com agressões físicas. Tenham auto-estima suficiente para não arriscarem a vida por uma futilidade como um tapa na bunda de outra pessoa.

O desafio também é uma questão difícil de ser trabalhada pelos homens. É quando uma amigo desafia o outro a fazer algo perigoso – como uma manobra de carro. De novo, o que move os homens é o medo de ser tachado como covarde. É como se os homens tivessem de provar o tempo todo uns pros outros que são viris. Bobagem. Da mesma forma como não vale a pena ser anoréxica para se enquadrar num padrão estético, não vale a pena arriscar a vida para provar a própria masculinidade. Então, se um cara te desafiar a fazer algo estúpido, perigoso ou se simplesmente quiser brigar com você pule fora. Da mesma forma como as mulheres tentam positivar (ou tornar neutro, sei lá) palavras como gorda, os homens podem fazer o mesmo com a palavra covarde.

Outro esteriótipo masculino é a obrigação de dominar todos os aspectos da vida prática. Se o chuveiro queimou a moradora vai pedir pro namorado ou pro irmão trocar mesmo que eles não morem na casa. Cansei de ver amigas com chuveiro queimado, ralo entupido, que ficavam esperando um rapaz resolver. E esse rapaz – que nunca tinha trocado um chuveiro ou desentupido uma pia na vida – completamente perdido sem saber o que fazer.

Oras, ainda que muitos homens tenham habilidades para consertos isso é aprendido e não genético. Da mesma forma como as mulheres contestam a obrigação com o trabalho doméstico os homens podem contestar o vinculo automático com os consertos domésticos. Se ambos não sabem como trocar um chuveiro restam duas alternativas: pagar alguém para fazê-lo ou aprender. Se a opção escolhida for a segunda, é interessante que a ambos aprendam. Porque trocar um chuveiro é facílimo, qualquer um pode fazer. E quando as mulheres entenderem que há bem pouco mistério em desentupir uma pia ou parafusar uma porta elas vão para de procurar os homens para que eles façam isso. E aí tanto os homens quanto as mulheres serão mais livres. 

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