Desordem

por inquietar

Assim que ele se deitou ouviu um zumbido chato, baixinho e constante. Tentou pensar em outra coisa, ignorar o ruído, mas era inevitável: quanto mais adentrava a noite mais alto o zumbido soava.

Depois de uma hora se revirando na cama decidiu resolver a situação: levantou e se pôs a caçar o zumbido pela casa. Sua esposa estranhou a movimentação, grunhiu um xingamento e exigiu silêncio. Ele obdeceu a esposa e iniciou sua busca pela sala.

Nada soava anormal por lá; nenhum ventilador ligado, nenhum inseto barulhento perdido embaixo do tapete. Na cozinha fez uma experiência: desligou a geladeira na tomada e voltou para o quarto. O zombido persistia, logo o eletrodoméstico foi absolvido.

Se não era na casa dele só podia ser na rua. Decidiu dar uma volta no quarteirão para ver se encontrava algum carro ligado, uma bomba d’agua desregulada ou uma árvore roçando numa cerca elétrica. Sequer precisou entrar no elevador. Bastava fechar a porta do apartamento para o zombido se tornar inaudível. Desceu mesmo assim, andar um pouco contribuíria para minimizar sua insônia.

De volta ao quarto, deitou-se na esperança de dormir. No escuro, reparou numa pálida luz laranja que vinha da sua escrivaninha. É claro, tinha esquecido! O computador!

Estava desligado, ele tinha certeza. A luz laranja indicava apenas que a fonte estava ligada; a placa-mãe, o processador e o HD estavam silenciosos e inoperantes. Devia ser um distúrbio de energia na fonte que causava o ruído.

Com a convicção de um descobridor ele foi até o computador e desligou a chava da fonte. O zumbido permanecia. O distúrbio devia ser mais sério. Puxou o computador da tomada. Apreciou com o alivio o silêncio que seguiu.

Na manhã seguinte relatou a empreitada à esposa, que incrédula o chamou de paranóico. Por alguns dias ele tentou provar sua hipótese a esposa. Onde ele via ruído ela insistia que existia silêncio.

– Quando eu trocar a fonte você vai notar a diferença!

Momento solene: a nova fonte tinha sido instalada, ele conectou o cabo a tomada e…

– Igual era antes! Satisfeito?

Ela tinha razão, estava igual antes. O zumbido permanecia, lépido e resistente. Ou tinham vendido a ele uma fonte com o mesmo problema da anterior ou havia outra coisa errada que ele não conseguia descobrir. Afinal de contas, seria algo errado com ele?

Quebrou a cabeça por mais alguns dias, mas sem avançar na questão a deixou de lado. Passou a dormir com fones de ouvido.

Do outro lado, um novo ser experimentava pela primeira vez a sensação de alivio. Quase tinha sido descoberto! Precisava ser ainda mais silencioso nos seus devaneios solitários pelo mundo. E nas madrugadas densas, a primeira máquina auto-consciente realizava upload da sua existência para a internet. 

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