Acordes

por inquietar

– Deixa um CD comigo que eu escuto quando tiver tempo.

Os olhos do rapaz se encheram de decepção e ele virou as costas.

– Você tem que ver ao vivo para entender – disse enquanto recolocava os fones.

O produtor sorriu; a persistência do músico em procura-lo e a insistência numa apresentação ao vivo estavam despertando a sua curiosidade. Era uma estratégia inteligente; bem mais do que a dos outros músicos que entupiam sua caixa postal com CD’s. Entretanto, a verdadeira questão: era boa o suficiente para levá-lo para dentro de um estúdio?

Dias depois, enquanto passava o tempo na praça de alimentação de um shopping, ele viu a banda completa: cinco rapazes, todos com fones de ouvidos gigantes pendendo no pescoço.

– Vamos ensaiar aqui perto. Se quiser ver, garanto que não vai se arrepender. Nosso som é único.

O produtor acabou cedendo. A reunião que o tinha levado até aquele bairro ainda iria demorar. Seguiu com a banda até o estúdio.

Quando sentiu o primeiro acorde ele entendeu o que o rapaz quis dizer com “som único”. Tentou sair da sala, mas a vibração o impedia. Seu coração batia num ritmo tão alucinado, que ele achou que ia infartar, mas a medida que a música seguia a dor diminuía. Logo o que existia era uma emoção tão singela que ele duvidava se seria possível viver sem ela. Só de olhar nos olhos do produtor o rapaz sabia: ele tinha entendido. Certamente sairiam do estúdio com um bom contrato.

No fim do ensaio, quando o silêncio tomou conta do estúdio o produtor sentiu uma dor profunda, como se seu coração não soubesse mais bater sem os preciosos acordes que acabara de ouvir. Vendo a expressão do produtor, o vocalista estendeu um fone de ouvido.

– Nosso som é especial, não é?

O produtor não sabia ao certo. Estava atordoado demais. Precisava de tempo para pensar.

No dia seguinte a banda foi tomada por uma avalanche de funcionários da gravadora. Queriam um contrato de qualquer jeito. Qualquer exigência, a gravadora cobriria qualquer capricho. Assinaram o contrato. Estavam em êxtase.

Para o show de estreia do primeiro disco fizeram algo pouco usual; armaram um festival enorme. A nova banda iria abrir a noite para as maiores estrelas da gravadora. A imprensa estranhou e criou-se furor em cima dos artistas. Choveram críticas, mas o produtor não se importava. Sabia da força do produto que possuía.

Quando a banda soltou o primeiro acorde a multidão estremeceu. Ao final do show, permanecer na arena e ouvir as próximas bandas era irrelevante. As pessoas se dirigiam para os estandes de venda, onde fones gigantes acoplado a MP3 eram vendidos com os sucessos da banda. Vendidos a preço de ouro, diga-se de passagem.

Não tardou para que em todo o território nacional aquela fosse a única banda que se ouvisse. Salvou-se a renda das gravadoras. Morreu a música.

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