Zazaléia

por inquietar

Quando chegou ao consultório Jordana pensou que era até um lugar simpático. Os móveis eram de bom gosto e havia vários brinquedos espalhados no canto da sala. Sua sobrinha se sentiria bem ali, era bem melhor que o serviço social da delegacia, bem melhor que a psicóloga do colégio.

Aquele consultório tinha sido indicação de uma tia, quando ela viu os desenhos que a sobrinha fazia. “Vi algo parecido no consultório do meu médico, de outras pacientes dele. Acho que ele pode ajudar a Dulce”. Quando Jordana viu o psicólogo ficou preocupada. Era um homem sério demais, conseguiria ele se comunicar com uma garotinha?

Dulce andava ao seu lado como um robô, completamente desatenta. Desde a morte da mãe andava assim e quem poderia culpá-la? Uma morte tão trágica, tiros a queima roupa disparados por bandidos numa moto. Dulce estava no carro e viu tudo. Ela viu a mãe morrer. Sempre que pensava nisso Jordana sentia um arrepio. Era horrível.

Desde então Dulce só se parecia com uma criança normal quando estava desenhando. Desenhos cada vez mais coloridos. A tia temia que a menina estivesse mergulhando num mundo de fantasia do qual não pudesse nunca mais sair.

O psicólogo mandou que as duas estrassem.

– Muito bem. Conte-me sobre os seus desenhos.

A menina pareceu indiferente ao pedido do homem.

–  Você não vai acreditar.

–  Por que não tenta? –  rebateu o homem.

Os minutos se passaram sem que ela ou ele fizessem qualquer coisa. Aquela situação irritava Jordana mas ele devia saber o que estava fazendo, afinal ele era o especialista.

Quase meia hora da sessão já tinha se passado quando a menina começou a organizar os desenhos no chão. E começou a falar espontaneamente, enquanto apontava para as folhas:

– Zazaléia é um planeta. É o ultimo planeta do sistema solar (logo depois de plutão) caso você precise de um lugar para ir. É de lá também que emana toda a essência constitutiva do universo. Zazaléia é o centro da vida.

– A maioria das pessoas imagina que o universo é um dado, protótipo, uma maquete sobre as quais todas as coisas acontecem. Mas não é assim; o universo é mais como uma malha, um grande tecido. Um pano cuja tendencia é permanecer embrulhado numa grande bola. E são as vibrações que vem de Zazaléia que mantem o universo aberto, múltiplo, vivo.  Vibrações apenas não: música.

– Zazaléia é povoada por músicos. Os melhores. De todas as eras e raças. Os sons desses seres retorcem a malha fria do universo e a fazem dançar, despir, torcer e ai você tem vida. Tudo que existe vem de Zazaléia: desde o último deus até a primeira bactéria

Jordana estava assustada. Será que o psicólogo recomendaria que internassem a menina? Não podia fazer isso com a irmã, deixar a filha dela apodrecer num sanatório. Estava decidido: ainda que o médico exigisse não a internaria.

A menina apontou uma grávida vestindo roxo. O cabelos amarelos de giz de cera pareciam levados pelo vento e ela pisava descalça na grama. Continuou seu relato com uma voz doce e estável:

– Quando uma mulher dá a luz a um filho o que ela esta fazendo é concentrando e dando novo sentido as vibrações que vem de Zazaléia. O mesmo acontece quando um deus sopra o barro e dá vida a um ser. Sem Zazaléia não existiria vida.

– Os músicos de Zazaléia não são tiranos. Não são sequer deuses. O poder que eles tem é exatamente equivalente a sua função. Ou eles dão liberdade a vida que criam ou deixam a vida desaparecer. Eles não conseguem escravizar os seres que criam

–  Quando um ser desaparece para todo o sempre é porque alguém em Zazaléia se cansou dele. As vezes um ser desaparece mas logo ressurge: instrumento quebrado.

O psicólogo sorriu ao ver que a menina apontava para mamutes, dinossauros e pandas. Jordana respirou aliviada: se o médico estava sorrindo é porque o que ela estava falando não era absurdo.

– Os instrumentos de Zazaléia tem um história interessante. Eu não sei como o universo surgiu mas sei que os instrumentos foram esculpidos do próprio nada. O nada é aquilo que existe além do próprio universo que o limita e o torna infinito, mas isso não interessa. O que importa é que os instrumentos existem e que continuam sendo criados e consertados pelo Luthier. Eu chamo ele assim, não sei qual seu nome de verdade. Aprendi essa palavra com meu tio e gosto dela. Enfim, Luthier é um ser estranho, ambíguo, com duas cabeças. É o único de sua raça em Zazaléia e creio que no universo inteiro. Ele carrega consigo um instrumento mas só usa em ocasiões muito especiais…  Mas depois eu falo disso.

Ela escondeu algumas folhas embaixo de uma pilha. No topo da pilha via-se uma bruxa e um foguete.

– Eu disse que Zazaléia é o último planeta do sistema solar né? Pois é, isso é verdade, mas também é mentira. Zazaléia esta em todos os lugares e em lugar nenhum: além do tempo e do espaço e dentro desses. Suas vibrações tocam toda a malha do universo físico E se você quiser ir ate Zazaléia pode construir um foguete e atravessar o sistema solar ou pode fazer como feiticeiros antigos e pegar carona numa vibração. E claro, para isso, você provavelmente terá que sacrificar uma vida.

– Se um dai você for a Zazaléia vai dar de cara com  um planeta normal. Não se parece com o centro da vida primordial sabe? É só um planeta com músicos demais….

– Algumas pessoas devem parar em Zazaléia por acaso, mas creio que a maioria vai porque quer acabar com a vida. Como o pessoal do planeta vizinho. Eu ainda não sei o nome deles… Sei que eles são responsáveis por tudo que não é vivo, você sabe, as rochas o vento… Sei que eles tem inveja de Zazaléia porque eles não possuem instrumentos. Eles apenas cantam. Alguns de forma tosca, outros de forma extremamente refinada. Algumas coisas que eles criam parecem vida mas não são

Jordana sentiu o peito encher de pena. Um novo planeta? Dois planetas imaginários? Loucura! De onde a menina tirava essas coisas? Cortaria a televisão, não era possível que ela estivesse imaginando tudo aquilo sozinha…

–  Sei lá… talvez seja necessário um pouco de nada para criar vida… Só sei que o pessoal desse planeta vive atacando Zazaléia. E que o Luthier consciente dessa situação mantem um exército que defende o planeta. Compreende? Um exercito que defende a própria vida primordial? E é para recrutar seus soldados que o Luthier toca seus instrumento. As vibrações envolvem o escolhido e fazem um novo corpo de vibração primordial. Um corpo especifico, sem interferência de deuses progenitores. E esse corpo vai para Zazaléia, junto com a essência da pessoa. O corpo antigo fica onde estava e morre, porque alguém tem que morrer né?

– E é isso. É isso que aconteceu naquele dia no carro. minha mãe não morreu; foi o Luthier que precisava de alguém para defender Zazaléia e a levou.

Jordana se conteve para não chorar.

–  Eu pude ouvir dentro do carro a canção dele. Acho que por uns segundos eu pude ouvir todas as canções do mundo…

–  No hospital, os acordes do Luthier se dissiparam. Minha mãe estava morta, mas eu sei que ela vivia por algo muito maior: ela defendia a vida primordial em Zazaléia. Minha mãe agora luta contra os seres do planeta que não sei o nome.

– E eu sei o que você vai dizer, que tudo isso é bobagem, é ilusão e eu te digo: não perca seu tempo. Eu não quero que você acredite em mim, eu não tenho uma nave para te levar além de plutão. Nem tenho poderes vodu. E afinal de contas que diferença faz imaginar minha mãe ao lado de deus ou imaginá-la lutando por Zazaléia? Não é exatamente o mesmo tipo de historia? Porque a garotinha que imagina o paraíso está curada e eu sou louca?

O psicólogo taciturno respira fundo e remexe os papéis:

– Porque Zazaléia existe e o fato de uma garotinha de 9 anos saber mais sobre esse planeta do que uma organização milenar é completamente desconcertante…

Jordana nem sentiu o tiro que deferiram contra ela. Dulce quis fugir mas era inútil. Ela fazia parte da organização agora. Ela era o principal trunfo deles. Ela era o mapa.

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