Ricardo

por inquietar

Suco de maracujá entorna na taça, vodca e licor de morango. Bota uma folha de hortelã para fazer cena, cheira com vontade o álcool ácido-doce, e bebe, bebe, bebe.

Uma da tarde e ele já estava completamente embriagado. Corra, Ricardo, corra. O dia é mais longo do que parece.

No trampo da academia das duas as dez. Números gordos começados em D. Tanto faz, tanto fazia, queria injetar heroína nas veias, mas estava no Brasil. Sexta-feira compensa, sexta-feira sempre compensa, corra Ricardo, corra.

Mas é segunda ainda e a maldita rua sinistra onde pega ônibus sempre. Ninguém nunca vai entende-lo, ninguém nunca vai entender. Acende o cigarro e coloca a Britney bem alto no mp3. Tem cerveja em casa, ele deixou duas garrafas atrás dos tomates. Tem cerveja em casa, tem cerveja e iorgute.

São exatos três cigarros e o ônibus passa, mas maldita segunda onde tudo parece meio errado. A vodca parece falsificada, o trabalho parece mais pesado e a Britney menos pop. Devia ter baixado o novo CD da Madona. As putas do outro lado da rua gritam e fazem alvoroço, e moços quase-bonitos passam rumo a boate gay. Amanhã acorda as dez e não tem ninguém para dormir com ele. Inferno, ônibus maldito, tempo cansado. Ânimo Ricardo, ânimo.

Abre a geladeira, encontra as duas cervejas, acende um cigarro assiste TV. Assim, tipo um Homer Simpson underground e magrela. Deixa o MSN ligado para qualquer coisa, mas nunca é qualquer coisa interessante. Afunda na TV como uma azeitona num copo de martini. Martini, martini… o filho da puta nunca mais ligou.

E já é mais de meia noite quando a mãe passa perguntando porque ele ainda esta acordado. E ele só grunhe porque ela não entenderia. Não entenderia que apesar de absurdamente cansado, não tinha sono. No fim das contas, não queria acordar amanhã na mesma rotina, e preferia estender ao máximo aquele prazer estúpido diante da TV. Ópio, é era ópio sim, mas quem dera ter acesso ao original e não àquela coisa plastificada que vinha via cabo.

A mãe vai dormir e ele se lamenta de não ter mais cerveja. Um baseado, cocaína, qualquer coisa que o tirasse dali, daquele espaço estúpido, daquela vida vazia. Tanto faz, tanto fazia, lágrimas bestas, dez minutos vendo um filme besta. MSN.

E não é que ele estava on-line? E o coração foi de 0 a 200 em um segundo. Filho da puta, desgraçado, como pode ir embora e deixar tantas saudades? E então o dilema, falava alguma coisa ou não?

Depois de olhar o e-mails, os comentários do blog e de baixar dois CD’s decidiu falar alguma coisa. O maldito perfil continuava ali, arrogante, on-line.

=> Oi!

=> Oi! E aí?

=> Ah, tudo bem, trampo novo, sabe? Mas indo bem. E com vc?

=> Ah, comigo tudo legal. Na mesma. Saudades suas.

Desgraçado. Como assim, “saudade suas”? O que ele pretendia com aquilo? Porque seu coração reagia tão intensamente a aquilo? Porque não conseguia simplesmente ignorar?

=> Pois é. Mas não sei se eu tenho tempo agora.

=> Pega a partir de qual horário?

=> Das 14 as 22.

=> Então tem muito tempo…! Bora dar um role amanhã de manhã?

Acendeu um cigarro antes de fazer qualquer coisa. Como assim amanhã de manhã? Não, não podia, não devia. Mas queria.

O corpo dele, a coisa mais linda do mundo. Sardas, peito marcado, mas não musculoso, pêlos finos, meio loiros, boca carnuda e rosada. Sim ou não? Sim. Não. Inferno. A luz podia acabar e a conexão cair, mas isso só acontece quando dar ou receber a resposta é fundamental. Queria não escolher. Mas escolheu.

=> Amanhã, dez horas. Parque.

Ia acordar mais cedo. Não iria a entrevista de emprego que tinha marcado as 11h, mas afinal já estava empregado. E ia pagar para ver, mas será que valia a pena?

Ao menos tinha motivo para dormir, um motivo enorme. Amanhã o veria, o sentiria, e sabe – se -lá mais o que. Sonhos bons, ao menos eles.

Acordou as 9:50. maldito celular que toca, toca e ele nunca vê. Levantou assustado, como se caísse de um abismo, escorregou até o banheiro e só se deu por acordado quando estava sentado na mesa do café comendo iogurte. Estava atrasado, meia hora atrasado no mínimo. Será que ele esperaria? Com sorte, chegaria até a entrevista. Era um sinal?

Entrou no ônibus que parava no parque. Dane-se a entrevista, queria àquela boca, queria dormir naqueles braços, queria outra coisa qualquer que ninguém mais podia oferecer. Inferno, e já não suportava mais usar aquela palavra. Bebeu uma dose de vodca no bar onde foi comprar um novo maço de cigarros. Inferno, maldito inferno.

Ele estava lá como prometido. Porque ein?, porque? Os mesmos olhos cândidos, a boca vermelho-sangue, o sorriso-que- desmancha – tudo.

Conversa vai, conversa vem, conversa ruim, não conseguia se concentrar. Queria joga-lo na maldita cama de um motel barato, queria lambê-lo e suga-lo, mas estava lá, pagando de civilizado. Queria dormir, abraçado e mandar a academia a merda. Que estava fazendo ali, que não tinha feito nada disso?

Inútil, completamente inútil, ele falou, falou, falou, mas só se exibiu. Viado arrogante, bicha nauseante. Foda-se, você e seu emprego, você e seu novo apartamentos você e seu Ipod. Ainda tinha oito horas de trabalho até poder voltar para casa e sequer ia ter cerveja.

Juntou todas as forças “eu ainda tenho de almoçar, entende? Já está tarde, então é melhor eu ir. A gente se vê por aí. Tchau”.

E saiu. Parou num supermercado e comprou seis latinhas. Tinha uma hora e meia até o trabalho. Senhor coração partido, senhor ressaca, tanto faz, tanto fazia. Engoliu como se fosse remédio. Merda. Inferno.

Não era nem quatro na tarde, e ele mordia o lábio como se fosse pedir demissão. Não suportava mais a voz o chefe, não suportava mais nada. Só a imagem do outro sendo atropelado por um caminhão. E é claro, sexta-feira. Sexta-feira sempre compensa.

Resistiu, resistiu bravamente até as 21h30. Mas não tinha a menor paciência para arrumar cadeiras e já tinha fechado o caixa. Fez que não sabia de nada e atravessou a porta com a maior cara de paisagem. O ar clandestino deu um outro tom a sua saída; liberdade. Putas alvoroçadas na rua e Madona no Mp3, estava bem, estava estranhamente 100% bem.

Casa, seriado, e devia ter guardado algum álcool para aquele horário da noite. Sóbrio, como conseguiria dormir sóbrio? Como poderia existir sóbrio? MSN, internet era sempre a resposta. Derreteria o cérebro no You Tube antes de sentir pena de si mesmo.

Conversa vai, conversa vem, conselhos do melhor amigo, de um ilustre desconhecido, da ex-namorada de alguém que não se lembrava. Dedos entediados, sono por puro instinto. Ou saía dali ou se matava em cima dos teclados. “beijomeliga e amanhã ainda é quarta”. Dormiu pesado.

Acordou super cedo, as 6h da manhã, com um caminhão de gás passando na rua. Dormir de novo, mas como se estava tão irritado? Só não quis morrer porque ainda era muito cedo e faltava muito para ter de sair da cama. Rodou até as 10h, quando se levantou e foi comprar cerveja.

Álcool e desenho animado, não há nada melhor que isso. Quis chorar quando o último desenho passou. Ir pro trabalho. Quarta-feira, meio da semana, jogo de futebol na televisão a noite. Ao menos tinha cerveja.

No emprego falaram de cortes. Ele se arrependeu de não ter recolhido as cadeiras no dia anterior e de não ter ido naquela maldita entrevista. Não queria ser demitido de novo, não podia ser assim, tão descartável. Ou podia, será que era? Melhor não pensar nisso. Cerveja e futebol.

Mensagem no celular, é claro que iria para o boteco na sexta. Sexta promete, sexta compensa. Sexta é o único dia que vale a pena, sexta- sábado-domingo. Vivia para aquilo, morreria por aquilo. Rihana no mp3.

Cerveja e palmeira x são paulo. 0 x 3 pro são paulo, mas ah, foi um bom jogo. Se distraiu por 90 mim + intervalo. Foi dormir pensando nas coxas do meia-direita. Cocaína, ah, podia tanto ter cocaína na sexta.

Dez horas de novo, mas era quinta-feira. Podia suportar isso, podia suportar qualquer coisa, pois estava perto da recompensa. O coração partido não importava, o tédio não importava, tudo estava prestes a dar certo. Duas cervejas, iogurte de morango, duas torradas e uma jornada de trabalho absolutamente feliz. Matricula vai, matricula vem, mas amanhã não tem para ninguém, é só ele na pista, é só ele no mundo. Álcool, drogas e sexo. Aguilera na volta para casa.

Telefone toca no ponto de ônibus. Amigos no boteco, porque não? Sexta-feira adiantada na quinta. Merecia e tinha dinheiro na carteira. Cerveja, cerveja, cerveja.

Caipirinha antes de entrar na boate. Com bastante cachaça. Dançar, dançar até que o mundo se acaba. Ricardo, corre, Ricardo.

Seis da manhã, café na padaria acompanhado de pão com manteiga. Ônibus para casa, ressaca e poucas horas de sono. Ia dormir até as 13h.

Acordou atrasado, o mundo virado, sem um par de meias limpas. Esqueceu de botar a roupa para lavar. Esqueceu do iogurte, esqueceu de tudo. E não se arrepende, ainda que se lamente. Calçou qualquer coisa “ninguém olha pro pé mesmo”. Trabalho, mas hoje era sexta feira. Hoje podia tudo, hoje era o dia. Assim, que nem personagem de música, ia fazer qualquer coisa.

Trabalho, mensagens de celular e noite no boteco. Quinze cervejas, duas caipirinhas, um rum com coca-cola, uma camisinha e uma barra de cereais depois, estava no ponto de ônibus. Domingo, não precisava de nada, acordaria as quatro e se jogaria de novo na balada. Segunda-feira não restaria nada, mas quem se importa? Não dormiria sozinho no sábado e nem no domingo. Ah, aquele amigo, como nunca tinha notado antes? Por que não? Deixou rolar. Amaldiçoou a segunda feira. Mas sorriu como nunca quando ele o beijou.

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