Epicentro

por inquietar

Demorariam mil anos ainda. Preso no centro da terra ele podia ouvi-los todas as noites. Tão belos! Gritavam baixinho suas ambições enquanto sussurravam as alturas suas virtudes. Tão bobos! E ainda demorariam mil anos.

O centro da terra é frio e escuro. O magma de que falam é pura ilusão. Quem dera a ele, derreter mas estar aquecido. É frio demais estar sozinho.
Passaram-se dias. Passaram-se anos. Cada vez mais perto, mas mais perto ainda é muito longe. Sofria. Estava aflito, desesperado. Não conseguia se mexer.

Foi quando sentiu a primeira pontada. Eles haviam chegado. Era uma broca de titânio. Não doeu, mas incomodou um pouquinho. Podia sentir o mundo se abrindo para ele. Algo amarelo e étereo tocava sua retina: era a luz.  

O buraco foi ficando cada vez maior e maior. A broca agora doía. Bom dia!

Então era assim que eles eram? Encarava um objeto metálico grotesco de onde pendia a broca. Ele e os outros eram totalmente diferentes. Seriam capazes de se reconhecer?

Por onde os humanos entraram ele podia sair. Os músculos do corpo se alongaram longamente: liberdade.

Demorou mil anos mas eles chegaram. E enquanto os homens preparavam suas metralhadoras e canhões atômicos, o dragão fugia do centro da terra perfeitamente agradecido.   

Mal sabiam eles que estavam condenados àquela solidão fria eternamente.

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