A porta – fragmento 1 – Prelúdio

por inquietar

O texto a seguir é um fragmento de uma história maior que talvez nunca venha a existir. No fundo, eu acho que o texto que eu estou publicando só faz sentido na minha cabeça – e portanto deveria permanecer lá até ter companhia para sair. De qualquer forma, achei o ritmo da narrativa interessante – fazia tempo que eu não lia nada desse projeto – e seria legal ouvir opiniões – ainda que seja algo tipo “tá totalmente hermético, não dá para entender nada, mais detalhes por favor”.  Dito isso, vamos ao texto.

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É como um pesadelo, desses bem malucos onde por mais que você acorde continua sempre dormindo. Eu não sei se o que eu estou vendo agora é real ou alucinação. Até onde eu me lembro eu já morri.

Eu quero reconstruir o que aconteceu mas toda hora meu pensamento é interrompido por uma memória. A sala, o que foi que aconteceu na sala? Eles queriam que eu os ensinasse a reprogramar as armas. Eu me recusei. Martelaram os dedos dos meus pés. Queimaram um cigarro no meu olho.

Será que isso tudo foi verdade? Ou eu estou delirando? Tento me mover para ver meus dedos dos pés. Tento tocar meus olhos e é como se eu não tivesse controle do meu corpo.

Eu estou enxergando agora? Ou estou imaginando? É fundamental descobrir isso. Esse homem que eu vejo é real? Eu já vi ele antes?

Noite de núpcias, sinto a língua quente do meu primeiro marido passeando pelo meu ventre. Passo a mão sob a cabeça dele e derrubo sua quipá. Ele me vira de costas e eu dou de cara com meu vestido jogado no chão. Ele morde a minha nuca. Olho para a esquerda e vejo a cintura de um homem se masturbando. “Isso não vai dar certo. Ele vai te trair com uma modelo e a vagabunda ainda vai gravar em vídeo”. Tento argumentar, mas não sai som da minha boca.

Tento pensar. Isso com certeza foi uma alucinação. Isso com certeza foi a anos atrás e não pode estar acontecendo agora. Não de novo. O homem continua me observando, eu sinto. Meu corpo está formigando como se a anestesia estivesse passando. Estou num hospital?

O paramédico diz que tudo vai ficar bem e pede para que eu respire fundo. Quero perguntar sobre a Bete mas o respirador não deixa. Sinto meu sangue se esvaindo e penso no meu bebê. Fecho os olhos. “Bete vai morrer. Seu filho vai morrer também. Foi seu marido que mandou te matar. Ele nunca te amou. Ninguém nunca te amou.” – eu não o vejo, mas eu sei quem está falando. “É mentira, Bete me amou, ela sempre me amou” – eu quero argumentar mas não sai nenhum som da minha boca.

Outra alucinação? Porque isso está acontecendo? O que isso tem a ver com as armas e com os códigos? Será uma nova forma de tortura?

Sala de espera do consultório médico. Enfermeira recolhendo sangue. “Gravidez de risco, você precisa de muito repouso e cuidados médicos”. O corpo tatuado dele sobre o meu. Como eu pude engravidar de um cara casado e com filhos? Como eu pude fazer isso comigo mesma? Alguém ri no fundo e eu sei quem é.

Eu preciso me concentrar: o que foi que aconteceu depois que queimaram meu olho? Eu chorei, eu lembro que eu chorei. E bateram meu rosto forte contra o teclado. Eu chorei e pedi desculpas. “Não tem como nós sairmos vivas daqui, eu espero que você entenda. No fundo eu acho que eu não nasci para ser mãe.”. Um corrente elétrica percorre todo o meu corpo e eu apago.

Dez anos atrás, estou sentada na sala de aula da faculdade. Disciplina de circuitos integrados. “Zero e 5v, nunca conecte uma saída a outra saída e como se quebra essa criptografia?”.

Meu segundo marido arfando sobre o corpete de perolas do vestido. Crucifixo balançando sobre o seu pescoço, um cheiro enjoado de perfume doce. “Ele só queria o seu dinheiro, ele só queria salvar a empresa dele”. Uma dor percorre o meu útero e eu grito: algorítimos de chave primária.

Eu sou só uma garotinha e estou flutuando no escuro. Alguém grita que eu preciso voltar e terminar a lição de casa. Eu olho para baixo, vejo o livro e são só sucessões de zeros e uns. Esse é o meu sonho e eu prefiro voar. E eu vôo. E isso definitivamente é uma ilusão, mas é a minha ilusão. E me dá tempo para pensar. Não foi um choque, foi um tiro, eu tenho certeza. O que foi que aconteceu antes do tiro?

– Desça logo daí e venha fazer a lição! Ou você vai apanhar!

– Se eu não descer você não pode me pegar!

– Eu posso sim! Desça agora!

– Se você pode, porque fica gritando? Porque simplesmente não me obriga a descer?

Eu continuo voando, mas tenho medo de cair. Eu olho para baixo e vejo um raio vindo do chão. Outro choque. Eu caio. E continuo caindo, muito além do chão. “Porque esse é o meu sonho, e quem manda nele sou eu!”.

Bateram minha cabeça no teclado e eu chorei. Usaram uma faca e fizeram cortes no meu corpo dos pés até o estômago. Ameaçaram abrir meu ventre, eu não reagi. “Acho que está entrando em choque, logo vai se tornar inútil”. “Você tem uma última tentativa. Senão vamos fazer do meu jeito”.

Eu continuo caindo enquanto uma voz me persegue querendo que eu faça a lição. Tudo em volta fica vermelho e uma mulher de duas cabeças sorri para mim. “Obrigada!”. Pergunto a ela o que está acontecendo e ela diz que eu estou morta. E aonde eu estou? “No inferno” ela me responde. “Achei que esse fosse o meu sonho!”, eu digo. “Mas logo será o meu”, ela me responde.

Uma injeção me traz de volta para a sala. Eu vejo um homem com uma faca ensaguentada na mão. Ele sussurra no meu ouvido: “eu vou salvar o seu bebê, mas você precisa me entregar alguma coisa antes. Eu quero os códigos, ou você vai passar a eternidade com eles”. Eu não me movo, ele se levanta. Ele tem algo morno e pequeno nas mãos. Agora eu reconheço seus pés – é o sujeito que me perseguia nos primeiros sonhos. Ele leva meu bebê, e eu sinto o impacto de uma bala no meu peito.

Eu morri. Eu sou uma garotinha sentada no chão do inferno que se recusa a fazer a lição. Abro o caderno e começo a ler. Preencho as lacunas. 0001011010010010101.

***

– O que aconteceu?

– Parece que conseguimos. As memória dela ainda estão aí mas estamos recuperando também os dados que interessam. O upload está quase concluído. Em breve, com os estimulos elétricos certos conseguiremos fazer o cérebro dela trabalhar a nosso favor. Fantástico né?

– Realmente impressionante…

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