Coração quente?

por inquietar

_ Nossa que mãos frias!

_ Pressão baixa, eu acho.

Dia sim dia não ela tinha um diálogo como aquele. Nunca averigou a hipotese da pressão baixa, apenas tinha ouvido a respeito e repetia porque tudo no mundo precisa de uma explicação.

Até que um dia ela mesma começou a achar suas mãos demasiadamente frias. Tentou aquecê-las com luvas, cobertas, bolsa de água quente. Nada.Por via das dúvidas comeu uma grande quantidade de sal, mas isso não reverteu a situação.
 
Só lhe restava uma coisa a fazer: ignorar. Fora isso, sua vida ia muito bem. Tinha acabado de comprar a filmadora que sempre quis; estava prester a tomar posse num bom emprego no serviço público, ia se casar em agosto (com alguém que gostava de suas mãos frias). Não tinha tempo a perder com um detalhe tão irrelevante.

_ Bota uma blusa amor. Seus ombros estão gelados.
 
Foi essa outra frase, dita inocentemente durante uma festa que a trouxe de volta. Será? Será que o frio das mãos estava se espalhando pelo corpo? Seria um sinal de doença? Seria grave?
 
Foi em vários médicos mas nenhum conseguiu apontar um problema. Foi a televisão fazer um apelo a especialistas de todo o mundo. Foi examinada por diversos laboratórios, mas ninguém era capaz de chegar a alguma conclusão. Sua saúde era perfeita, mas o frio continuava se espalhando. Àquela altura a única parte do corpo que continuava quente era o ventre.
 
Curiosos e especialistas discutiam o que aconteceria com ela quando todo o corpo estivesse gelado: “O coração vai parar! Ela vai entrar em coma! Nada vai acontecer!”. Havia até um pastor que considerava o corpo dela um relógio para o apocalipse. Quando não restasse mais vestígio de calor os anjos desceriam do céu.

Foi numa fatídica manhã de domingo que ela descobriu a resposta: enquanto se olhava no espelho tinha constatado o óbvio. Havia se tornado um cadáver.

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