Jogos Vorazes – o filme – crítica

por inquietar

O texto que segue abaixo foi escrito logo depois de eu assistir “Jogos Vorazes” no cinema. Acabei ficando curiosa com os livros, imaginei que alguns buracos do filme fossem explicados no texto. Comprei a trilogia para ler e cheguei a triste conclusão que o filme é melhor que o livro. Pois é, é raro, mas acontece. O livro alonga desnecessariamente vários trechos, tem mais buracos na trama que o filme e vários personagens sem função. O filme – por ser mais enxuto – cortou tudo isso e ficou melhor. Em outro momento eu escrevo sobre os três livros.

De qualquer forma, o filme é um bom entretenimento. Nota 8. Os atores estão muito bem, as cenas de ação são boas e a trilha sonora é bacaninha. O pecado do filme é trabalhar mal o cenário no qual está inserido, deixar muitas perguntas sem resposta (e se for seguir os proxímos dois livros, elas vão ficar MESMO sem resposta). A partir de agora, chuva de Spoilers.  

A primeira coisa que me incomodou foi o comportamento do distrito 12. Segundo os organizadores dos “Jogos Vorazes”, o jogo serve para trazer esperança as pessoas do distrito, mas não muita. Ao meu ver isso significa que os jogos devem implantar no distrito o desejo de ser o vencedor. De certa forma, enquanto eles estiverem tentando individualmente vencer na vida – isto é  alcançar o dinheiro e o luxo que é destinado ao vencedor – eles não incomodarão a capital com uma revolução. Só que no distrito 12 nunca houve um voluntário para o jogo. As pessoas de lá parecem realmente desinteressadas nele, ao menos no quesito participação. Nenhum jovem do distrito sonha em ser o vencedor. Como não acontece uma revolução lá? Se as pessoas se mostram apáticas ao jogo, parecem interessadas em viver na cidade (segundo a protagonista, a irma dela não saberia viver na floresta), em possuir luxos (trocam na medida do possível caça por comida boa). Se elas não almejam ser milionárias, o que mantem o distrito 12 coeso? Se os Jogos Vorazes realmente funcionam, as pessoas de lá deveriam estar loucas para serem selecionadas e deveriam existir muitos voluntários sempre. Se não há voluntários, a organização do evento deveria se perguntar “porque o distrito 12 não sonha mais em vencer os jogos vorazes?”. E de tempos em tempos eles deveriam “produzir” um herói vindo de lá, a fim de alimentar os sonhos e esperanças do lugar. E o mesmo deveria se repetir por todos os distritos, mantendo sempre a proporção “quanto mais rico o distrito mais vencedores ele possui”. Isso agradaria os distritos ricos e manteria os distritos pobres sobre controle. Quanto ao risco de produzir uma celebridade – e portanto dar poder – a uma pessoa vinda de um distrito pobre, bom isso não seria um problema. O sistema se encarrega de achar um lugar para cada um. O mentor dos dois venceu os jogos vorazes uma vez e esta bem confortável na posição de mentor beberrão.  O sistema acha o ponto fraco das pessoas e as corrompe. Eventualmente pode não ser assim, mas a média estatística torna esse ato bem seguro.

Então o comportamento dos organizadores dos jogos vorazes me intriga. Parecem interessados em que um jovem carreirista vença, mas parecem eticamente impedidos de interferir para que isso aconteça. Aparentemente eles não editam o programa para manipular a opinião dos patrocinadores/distritos. Porque simplesmente não cortaram ou suavizaram a cena da Rue morrendo se não queriam produzir um mártir? Havia bastante ação acontecendo nos outros dois grupos. Há algum pacto que aceite que eles iniciem um incêndio na floresta e criem felinos do nada, mas que os impede de editar as imagens e selecionar o que cada distrito vai assistir? Há a possibilidade ética de mudar as regras do jogo ao bel prazer, mas não existe a possibilidade de selecionar o que será visto?

A protagonista é ótima, mas ela me pareceu demasiado exitante para matar os outros jovens. Sério, ela sabia que o único jeito de escapar dali era eliminando os concorrentes e nenhuma das estrategias que ela elaborou ao longo do filme incluía mata-los. A única pessoa que ela matou foi num ato de total impulso. Tivessem dado a ela um minuto para pensar e ela fugiria. Gosto de um protagonista com sentimentos, que se sente incomodado em empilhar cadáveres mas alguém apático também não! Quando ela vai explodir a comida do grupo parece até que esta indo fazer uma travessura ao invés de eliminar seus oponentes. Ela atira bem e é uma grande caçadora, teria a vantagem de ter seus oponentes assustados e confusos. Porque não aproveitou a ocasião para eliminar um ou dois deles? Ao menos o que ficou sozinho de vigia deveria ter sido eliminado por ela. Enfim, creio que se ela fosse um homem Hollywood não se sentiria tao incomodado de faze-la menos apática e mais disposta a sobreviver.

O momento em que ela vai buscar o remédio e é interceptada pela garota de outro grupo, e essa garota tem uma longuíssima conversa com ela antes de dar a facada derradeira e quando vai faze-la é interceptada pelo outro garoto do distrito 11 é simplesmente patético. Ok, protagonistas precisam de sorte, e não vou contestar a escolha da garota de tagarelar sadicamente e perder preciosos minutos.  Mas como raios o outro garoto do distrito 11 ficou sabendo que a protagonista ajudou Rue. Ele assistiu ao programa? Rue conversava com ele e contava o quanto gostava dela e o quanto seria triste mata-la futuramente? Ele simplesmente ouviu o longuíssimo papo das duas e decidiu tomar partido? A ação dele é visivelmente motivada pela emoção, a mesma que parecia causar distúrbios no distrito 11. Mas aparentemente não existem elementos para isso, a não ser que ele estivesse presente no momento de morte de Rue.

O fato dela se dividir entre os dois garotos é muito fofo e não faz dela uma piranha. Certeza que ela prefere o amigo dela ao invés do Peeta. É obvio que ela só se interessou por ele depois que soube que ambos poderiam vencer. Antes disso, ela estava relativamente confortável com a distancia e com o fato dele ter “traído” ela ao se aliar com os distritos mais fortes (ela parece meio deprimida ao constatar a aliança mas também parece compreender que Peeta só teria chance com ela, e que como vilão ele acaba ajudando ela tanto dentro quanto fora).

No mais, não consegui conceber em que a vitoria dupla prejudicaria os Jogos Vorazes (a não ser que a mudança na regra tenha sido por debaixo dos panos) – muito pelo contrário alimentaria a possibilidade de romance desviando completamente o foco das outras mortes. O suicídio dos dois certamente prejudicaria os Jogos (destruiria o sonho e o desejo), e cabe perguntar como em 74 anos ninguém fez isso antes? Como os organizadores se previnem de tipos desinteressados em lutar ou tão acostumados a ideia da própria morte que simplesmente se suicidam? Como transformam o suicídio num show? Não faz sentido isso nunca ter rolado antes.

            

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