Crítica – Abrahan Lincon, caçador de vampiros

por inquietar

No geral, mas bem no geral mesmo, o filme é divertido. Nota 6, numa escala de 1 a 10. Na minha opinião tem bons efeitos especiais, boa fotografia e ao que tudo indica um bom uso de 3d – não posso confirmar isso porque assisti numa sessão normal, mas me peguei pensando várias vezes durante o filme “hummm, isso deve ter ficado ótimo em 3d”.

Os defeitos estão na trama e na construção dos personagens. E antes de falar a respeito disso cabem 3 adendos:

1 – eu adorei o trailer, o que me fez criar mais expectativa do que seria recomendado. Imaginei – pelo trailer – que o filme se levava a sério, o que incluiria construir um cenário consistente no qual vampiros pudessem ter habitado o sul americano. Aliais, o que me instigou a ir no cinema foi justamente a curiosidade em saber como esse cenário seria construído.

2- eu não sei absolutamente nada da vida de Abrahan Lincon (exceto a morte dele no teatro, tema exaustivamente explorado pela industria de entretenimento norte-americana). Então não sei se algum personagem real limitou ou inviabilizou a ação de algum personagem fictício do filme.

3- eu gosto de efeitos especiais, mas considero roteiro fundamental. Não precisa ser um roteiro genial, de quebrar a cabeça, mas as historias precisam se encaixar. Indo além disso, eu prefiro filmes onde além de historias existam metáforas que se encaixam. Seja lá qual metáfora for: bem x mal; amor x mal; busca pelo amor; busca pela origem; a construção dos estados unidos…

4 – Então… Talvez no dia em que eu fui assistir ao filme eu estivesse com o botão “minoria fellings” ligado, o que pode ter prejudicado a apreciação do filme…  

Spoiler e discussão sobre a trama a partir daqui. Continue por sua conta e risco 🙂

Meu primeiro desconforto com o filme foi com o Henry Sturgess personagem do Dominic Cooper. Eu não esperava um tutor pro Lincon, muito menos um tutor vampiro – ah, vai, leva 3 segundos para o espectador supor que o Henry é um vampiro e 10 segundos para ter a confirmação. O que aliais tira todo o impacto posterior da cena de revelação ao próprio Lincon.

De qualquer forma, a solução fácil de colocar um tutor que sabe tudo dos vampiros (e assim poupar a construção de muitas situações para que o Lincon descubra as informações sozinho) não é ruim por si. Poupa tempo do filme e até coube uma frase grandiosa (com ares de histórica). O que irrita profundamente é que o personagem do Henry não tem existência própria, fica apenas perambulando em volta de Lincon.

Quando ele toma para si o Lincon como aprendiz, fiquei esperando que surgisse uma ordem qualquer de caçadores de vampiros ou pelo menos mais um discípulo. Aliais, quem são aqueles muitos discípulos de Henrry que os vampiros tanto falam? Devem ser uns caçadores muito ruins porque não sobrou ninguém para trocar uma idéia com o futuro presidente americano.

Aí o filme vai desenrolando e a gente nunca descobre qual é a do Henry. Ele considera o vampiro Adam responsável por sua ruína, mas não que mata-lo nem contraria-lo. Entretanto ele não tem problema nenhum em exterminar gente da sua raça dando uma lista de nomes (seriam desafetos do rapaz?) para Lincon exterminar. Dá sempre conselhos conservadores contra a guerra pro presidente, mas aparece para ajuda-lo. Por fim, dedica a sua eterna existência a recrutar rapazes – ao que tudo indica um por vez – para combater vampiros e o mal. Sinceramente me lembrou um episodio de “american dad” em que o Stan escreve uma peça sobre Lincon e um amigo e ela acaba sendo interpretada como uma peça gay. Parece que além de homossexual esse amigo do presidente também é um vampiro. E usa a mesma cantada a séculos para beijar rapazes.   

E temos o vampiro Adam que cria uma situação super complicada para convencer Lincon a matar Henry e a troco de que? Quer dizer, se ele realmente esta incomodado com Henry e seus discípulos, porque simplesmente não treina/engana um humano qualquer para mata-lo? Porque tem de ser Lincon? Acho que depois de 5000 anos de existência tudo que nos resta são jogos mentais e doses de sadismo…

E falado em Adam e Henry, só eu fiquei incomodada com o fato dos dois terem se pegado de porrada no trem, mas no flashback da transformação do Henry ele não ter conseguido manejar uma faca em direção ao Adam? Quer dizer que o “poder de deus” só funciona se tiver um arma envolvida? Se for só porrada de mão limpa tudo bem?

O Will Johnson, amigo negro de Lincon e personagem do Anthony Mackie também fica meio sem função na trama. O inicio do filme pressupõem uma forte ligação entre os dois. Aí a mãe do Lincon morre, o tempo passa e o Will some. Quando ele reaparece, que historias novas ele tem para contar? Nenhuma. Ele não sabe novidades sobre os vampiros, não esta particularmente interessado em convencer Lincon a entrar para politica, enfim, vira outro adendo flutuando ao redor do presidente. Parece até que o personagem tava lá só para que não se contasse uma historia sobre abolição que se passa a revelia dos negros.

E aí entra o meu desconforto com o cenário do filme. Quer dizer que escravos sumiam aos montes (num pais que já tinha abolido o trafico, que alimentava seu mercado escravocrata através da reprodução dos escravos existentes) e nenhum negro dava falta ou tentava combater seus senhores? Ficavam ali, como gado pronto pro abate?

Do outro lado, seis pessoas brancas, com empregos e alguma posição na sociedade desaparecem e depois são encontradas decapitadas numa cova e tá tudo bem? Quer dizer, jack o estuprador colocou Londres em panico por muito menos. Nem um rumor de criaturas malignas rondando o país?

Isso sem falar na personificação excessiva dos vampiros na figura dos três vampiros. Eu fiquei com a sensação que se matassem os três resolveria o problema porque em nenhum momento o filme da a dimensão de quantos vampiros existem no sul, como eles se organizam e como raios elegeram Adam como líder. E durante a guerra a gente tem a confirmação que boa parte do povo do sul é só humano mesmo, quando rola o acordo entre um general do sul e o Adam para que os vampiros entrassem na guerra.

A relação do Lincon com a Mary também é um ponto fraco do filme, historia mal contada sem pé nem cabeça. Mas minha maior reclamação com relação a personagem feminina vai para a vampira (cujo nome não lembro e to com preguiça de olhar). Odeio essa corrente de pensamento vigente que estipula uma cota de personagem feminino no grupo de supervilões mas deixa essa personagem tao a margem que se ela nunca tivesse existido não faria a menor diferença. E pior, como ela é mulher só outra mulher pode mata-la, então cria-se uma situação onde isso aconteça e o protagonista nunca a enfrenta de verdade.

Por fim, um comentário breve sobre metáforas. Para mim, os vampiros são seres fortemente identificados com a Europa e que nesse filme representariam o outro europeu, o invasor/opressor que boicota a construçao de uma identidade americana. Mas nem todos vão se comportar de forma explicita e se alojar no sul – alguns vão permanecer no norte, vão se infiltrar no novo país e corroer suas estruturas. É nesse sentido que eu acho bisonha a relação de amizade que surge entre Henry e o Lincon. Se Lincon é a personificação dos mais puros valores americanos, ele ser amigo e reconhecer que um vampiro hipócrita é um ser digno de confiança é no minimo um ato falho do autor. Outro ato falho incomodo é o sacrifício de Speed no trem – quer dizer que os negros são escravizados, torturados e devorados mas quem salva a pátria e se sacrifica mesmo é o amigo hipócrita e racista do Lincon? No mais fiquei torcendo para que o filme insinuasse que algum acontecimento recente era fruto da açao de vampiros na atualidade.

Se o filme fosse meu, Will seria o tutor vampiro de Lincon (poxa o garoto foi vendido pro sul ou ficou na fazenda, atraiu para si o ódio de um vampiro fodão, não é impossível que acontecesse com ele o que rolou com o Henrry). A Henrry caberia a função de tutor politico (fiquei esperando uma participação maior do senador na trama – fiquei esperando uma revelaçao de que ele é vampiro, especialmente por causa dos óculos mas não rolou nada), de Lincon que é um buraco no filme. No resto faria apenas ajustes, nada dramático.

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