Em fuga da Metrópole

por inquietar

Texto de apresentação do meu livro “Serpentes e Punhais na metrópole vazia”.  Para fazer download do PDF do livro, clique aqui:

A primeira vez que eu tentei escrever um livro, eu tinha 17 anos. Eu queria participar de um concurso da FUNARTE, na esperança de obter algum dinheiro e virar escritora. Fiquei sabendo do concurso duas semanas antes da data final de entrega, rascunhei o esqueleto de uma história e fui escrever. Acho que foi um dos poucos momentos da minha vida em que eu fui realmente disciplinada com relação a algo – chegava da escola e sentava na frente do computador em busca das cem páginas mínimas exigidas pelo concurso. A história – como não podia ser diferente, dado o improviso e a correria – ficou horrorosa. Para piorar, assim que as cem páginas foram atingidas eu simplesmente parei de escrever e os personagens tiveram finais sem pé nem cabeça. Por fim, meu esforço foi totalmente inútil: terminei o texto no último dia de inscrição, mas ainda faltava imprimir e encadernar as três vias e entregar na FUNARTE até as 17h. Para melhorar minha situação, o cara da gráfica estava sobrecarregado com outros serviços e demorou para caramba para entregar as minhas cópias. Eram 16h30 quando eu segui para a funarte – e teria dado tempo se eu não tivesse errado a rua e o ônibus. Cheguei lá 17h10. Pensei em tomar um refrigerante para alegrar o meu dia de fracassos e constatei que faltavam R$ 0,50 para completar uma passagem do ônibus. Ou seja, além de não conseguir me inscrever no concurso, ainda teria que voltar para casa de favor. O trocador me deixou passar pela catraca pagando menos porque outras três pessoas já tinham pedido para descer pela porta da frente e ele achava que o motorista iria implicar comigo… Ô dia viu!?

Depois disso eu nunca mais tentei escrever um livro. Continuei escrevendo, poemas e contos avulsos, volta e meia tentava um texto mais longo, mas o nível de disciplina daquele ano eu nunca mais consegui. Nem para literatura nem para coisa nenhuma. Também nunca mais mexi no texto do concurso – acho que o título era “quebra-cabeça urbano e humano” – que se perdeu pelas minhas gavetas.

A vida seguiu seu rumo e numa tentativa de manter uma produção literária constante eu montei um blog chamado “Serpentes e Punhais na metrópole vazia”. “Serpentes e punhais” era referencia a uma tatuagem que eu fiz em 2008. Metrópole vazia era uma referência a Brasília, cidade na qual eu morava. Postei textos nesse blog regularmente – tão regular como a menstruação de uma garota com ovários policísticos – por uma ano. Depois, fui abandonando o projeto. Muita coisa que eu escrevi na época ficou fora do blog porque era ruim demais ou estava incompleto. Eram textos que até então eu pretendia reformular, reescrever. Só que o tempo passou e a vontade de mexer nesses textos também. A prosa poética, demasiadamente hermética e abstrata já não me interessava mais. Daí decidi fazer esse livro, com a missão dupla de dar finalidade aos textos antigos e de exorciza-los, abrindo caminho para as novas historias.

Como eu disse, o título faz referência a um blog que eu tive, a uma cidade na qual morei e a uma tatuagem que eu possuo. Eu fiz a tatuagem em 2008 e o “eu fiz” é quase literal: mesmo desenhando mal a beça, eu cismei de fazer o desenho. Daí na minha panturrilha esquerda tem uma serpente enrolada num punhal com símbolos astrológicos cravados no cabo no melhor estilo “miss presidio 2008”. E para ser sincera eu adoro a tatuagem porque ela representa muito para mim.

Usei os elementos do título para nomear os capítulos. A divisão dos textos nos 3 capítulos foi feito de forma intuitiva, então talvez a disposição atual não seja a melhor possível. Os textos também não passaram por uma revisão – nenhuma pessoa além de mim leu os textos – o que provavelmente significa que existem muitos erros de ortografia, gramática e pouca coerência na organização e ligação dos textos.

Com relação ao significado de cada capítulo, de forma simplificada é:

serpentes: tudo aquilo que move o mundo, para o bem ou para mal. Tentação, força incontrolável, impulsos. Os contos dessas sessão parecem – e provavelmente estão – inacabados.

punhais: é o controle, a racionalidade, a razão. É uma arma em posição de defesa. Nessa seção estão contos mais estruturados, onde é possível ver algo que conduz a leitura além do próprio impulso de escrever. Tem também uns diálogos chatíssimos que eu não sabia aonde colocar então coloquei aqui.

metrópole vazia: na verdade é um apelido para Brasília, cidade na qual eu morava na época. Na hora se selecionar os contos dessa seção, pensei em focar naqueles contos mais complexos, no qual é possível ver o esqueleto de algo grande, ainda que destituído de vida. Como uma metrópole num feriado.

No mais, fico satisfeita de ter chegado – ainda que precariamente – ao fim de mais um projeto. A vida, afinal de contas, é movimento e ainda que de forma desengonçada as coisas estão acontecendo.

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