Inquietar

Ficcção, poesia e doses homeopáticas de realidade

Um dia estranho

O dia de hoje foi muito estranho. Tão estranho que eu decidi fazer esse relato por escrito, para ver se dessa forma eu entendo melhor o que se passou. Tudo começou quando eu acordei com uma pata peluda sobre o meu rosto e um miado irritado.

Achei que tinha dormido demais, afinal de contas, Tufão só me acorda quando está com fome, e isso é sempre perto da hora do almoço. Ainda zonza de sono, olhei de relance pela janela e vi que ainda estava escuro. Tão escuro que nem era possível diferenciar as árvores do parque dos outros prédios. O horário no celular confirmou a minha suspeita: eram quatro horas da manhã. A menos de seis horas atrás eu tinha posto comida para o gato. Não podia ser fome.

Eu estava deitada e enrolada no cobertor. Me levantei, deixei o cobertor sobre a cama, acendi a luz e fui até o potinho de ração dos gatos. Estava vazio. Completamente vazio. Tanto o potinho de Tufão, quanto o de Belize (que estava se refrescando no parapeito da janela). O estranho é que eu me lembrava de ter posto comida para os gatos antes de dormir. Encarei Tufão nos olhos – afinal de contas, ele é o guloso dos dois. Decidi que o gato não deveria estar mentido, e enchi ambos os potinhos. Os gatos estavam mesmo famintos, pois vieram comer na mesma hora.

Quando voltei para o quarto, outra coisa aconteceu. Eu tinha certeza que tinha deixado o coberto sobre a cama, mas apenas os travesseiros estavam sobre ela. Também não havia nada sobre o piso. Eu confesso que nessa hora eu senti o meu coração acelerar e pude ouvir o ar entrando dentro dos meus pulmões. Como as cobertas poderiam desaparecer em tão pouco tempo? Haveria alguém dentro da casa? Como alguém poderia se esconder num quarto e sala de 40 metros quadrados? Olhei desconfiada para os armários – que eu sabia estarem tão lotados de coisas que jamais permitiriam a uma pessoa se esconder. A não ser que…

Me ocorreu que eu deveria olhar embaixo da cama. Relutei por alguns minutos, mas se havia algo escondido, o lugar mais provável era lá. Peguei o telefone celular na expectativa de utilizar a lanterna (e também porque eles transmitem essa sensação de segurança de poder pedir ajuda a qualquer momento). Me preparei para o que quer que estivesse embaixo da cama. Antes que eu direcionasse a lanterna, Tufão e Belize decidiram brincar de pega-pega na sala o que resultou num barulho tão alto que me fez gritar e pular para trás. Respirei fundo e abaixei de uma vez. A lanterna iluminou uma forma disforme embaixo da cama, que me fez fechar os olhos e gritar novamente. Como nada aconteceu, abri os olhos e mais calma compreendi o que eu estava vendo. Era apenas o cobertor, embolado em si mesmo.

Se por um lado isso acalmava, por outro me preocupava. Ao levantar, eu poderia derrubar a coberta no chão sem perceber, mas jamais a chutaria para debaixo da cama sem me dar conta disso. Alguma coisa tinha puxado a coberta. E o que quer fosse, ainda podia estar lá, segurando a outra ponta do tecido. Eu precisava de uma resposta, então decidi fazer isso da forma mais rápida possível. Estendi o braço para debaixo da cama e puxei o cobertor. Nada. Apenas a coberta. Iluminei toda a parte inferior da cama. A única coisa que havia era um pouco de poeira. Num lapso de coragem, abri todos os armário e gavetas. Apenas roupas e objetos inanimados olhavam para mim. Comecei a me sentir paranoica e vulnerável.

Sentada na cama, comecei a elencar hipóteses. Talvez eu estivesse enlouquecendo. Fazendo coisas e depois esquecendo. Ou lembrando de coisas que nunca aconteceram. Eu tinha lido uma reportagem falando que era comum desenvolver esquizofrenia na casa dos trinta. Talvez fosse isso. Ou então… Censurei meu pensamento. Essas coisas não existem.

Ainda era cedo, mas se eu continuasse remoendo o problema, ele me consumiria. Então, decidi começar o meu dia. Tomei banho, me sequei rápido pois o vidro quebrado do basculante deixava entrar um vento frio, me vesti, e fui preparar o café da manhã. Acendi o fogão, fervi a água, enxaguei a garrafa térmica com água quente, peguei o pão para preparar torradas. E quando eu peguei a torradeira, percebi algo inusitado. A tomada tinha sido arrancada. Não apenas dela, mas de todos os outros eletrodomésticos que ficavam guardados no mesmo armário. A sensação de não ter o controle do que se passava na minha própria casa foi demais. Desliguei o fogo e sai.

Com exceção do fato de eu ter passado quase duas horas ouvindo rádio dentro do carro no estacionamento da empresa, o resto dia transcorreu normal, Respondi a e-mails, ri das piadas do Flávio na hora do café, reclamei da organização do arquivo de projetos, participei de uma reunião chatíssima sobre a reforma da fachada do prédio da praça da liberdade, fui almoçar com as meninas da contabilidade, passei quase um hora discutindo sobre fascismo no facebook, imprimi três ofícios para protocolar um projeto junto a prefeitura, validei uma planta no autocad. Por um momento, até tinha me esquecido dos acontecimentos do início do dia.

Na saída do trabalho, dei carona para dois estagiários que iam para uma palestra na universidade perto da minha casa. Isso me distraiu. Quando eles desceram, o problema caiu como uma bomba sobre a minha cabeça: o que quer que houvesse de errado estava na casa e não comigo. Será que… me censurei de novo, afinal de contas, fantasmas não existem.

Subi os três lances de escadas até o meu apartamento com receio. Ia em zigue-zague pelos degraus, como uma criança enrolando para chegar em casa porque sabe que vai ser castigada. Quando eu me aproximei da minha porta ouvi os gatos miarem, o que me fez entrar em pânico. Algo teria acontecido com eles? No desespero me atrapalhei com a tetra chave, o que fez os gatos apenas miarem mais alto. Abri a porta e eles se enfiaram atrás das minhas pernas em pânico. Peguei os dois no colo, não pareciam machucados. A medida que eles se acalmaram eu pude perceber que os miados estavam abafando um outro som. Um som seco, horrendo, como duas coisas sólidas batendo uma contra a outra. Agarrada a Tufão e com Belize equilibrada sobre meus ombros, eu segui o ruído. Vinha do quarto, não de debaixo da cama, ou dos armários. O som vinha de trás das cortinas. Tufão se agitou quando eu me aproximei da janela e decidi por ele e Belize no chão. Contei até três e puxei a cortina…

Ele gritou e eu gritei também. Não apenas gritei como cai sobre a cama e continuei correndo como se o horror provocado por aquela criatura fosse uma gosma que cobriria o meu corpo quanto mais tempo eu permanecesse ali. Apanhei os gatos, minha bolsa, e sentei do lado de fora do apartamento. Nisso, restam algumas perguntas:

1 – Como um guaxinim conseguiu entrar num apartamento no centro da cidade?

2 – Quanto tempo o resgate de animais vai demorar para chegar?

A encomenda

Leila estava atrasada e quando ela estava atrasada tudo dava errado. Na primeira volta da treta chave na porta se lembrou de conferir se o celular estava na bolsa – não estava. Também não estava na mesa e nem na cama perto do travesseiro. Ou seja, tinha desaparecido. Enquanto buscava o telefone, lembrou que não tinha impresso o ofício para entregar o projeto do prédio comercial na prefeitura. Calculou mentalmente o que seria pior, e decidiu ligar o computador. Não entregar o ofício seria gravíssimo; o atraso implicaria apenas em algum desconto na folha de pagamento. E já que iria utilizar a impressora era melhor simular alguma calma – “elas pressentem o medo”, seu marido sempre dizia. Pegou alguns biscoitos e um pouco de suco de caixinha.

Foram três tentativas até o ofício sair aceitável. Foi em direção a porta e se lembrou que ainda não tinha achado o celular. Decidiu escovar os dentes e percebeu que o celular estava na bancada da pia. Pela terceira vez ela foi até a porta, três voltas na chave, check list mental e… Não tinha passado desodorante. Corrida rapidinha ao banheiro. Finalmente Leila abre a porta.

De inicio seu cérebro não processou. Não fazia sentido. Não tinha encomendando nada. Tão pouco seu marido. Não tinham tocado a campainha. Não havia motivo para uma caixa estar na entrada da sua casa.

Entretanto, lá estava a caixa. Papelão marrom, lacrada com fita adesiva, sem identificação. Pesada. Havia algo sólido solto dentro. Ela supôs que o normal nessas situações seria levar a caixa para dentro, e portanto, foi o que ela fez. Estava atrasada, estava terrivelmente atrasada, e deveria apenas ter deixado a caixa sobre a mesa. Mas como resistir ao mistério de uma caixa fechada?

Sem cerimônia ela cortou a fita adesiva com uma faca. Seu estômago entendeu antes que sua cabeça e ela vomitou no tapete. Enquanto encarava a mancha de vômito, tentava processar o que tinha visto. “Não pode ser isso, não é possível. Eu devo ter enxergado errado”. Apoiou as mão na mesa e foi elevando o tronco, temerosa do momento em que seus olhos cruzariam o limite da caixa de papelão. Uma massa negra e flexível sugeriam que o temor dela era real.

Tratava-se de uma cabeça. Uma cabeça decepada de um ser humano. Não qualquer ser humano. César Martins, contabilista, empregado na Limeira SA, a mesma empresa que seu marido trabalhava.

Já tinha visto o suficiente. Sentou-se no chão. Por que alguém se daria ao trabalho de mandar a cabeça do César para ela? Não possuíam intimidade, mal conversavam. Será que… Teria sido um ato de ciúmes? O marido teria desconfiado que ela e o César..? Impossível!

Ela nunca tinha traído o marido. O mais perto que chegou disso foi num cinema, quando foi sozinha assistir “Lady Bird”. O marido não gostava desse tipo de filme, preferia ação. E na fila do cinema havia um rapaz bonito, na casa dos 30, que também estava sozinho. Ele veio conversar com ela, e eles acabaram desrespeitando os lugares marcados no ingresso e sentaram lado a lado. Lá pelo meio do filme, ele deslizou a mão do encosto da cadeira para as coxas de Leila. Ela sentiu o rosto queimar, a voz sumir, o peito explodir e o sexo encharcar. E a mão do rapaz subia, e ela ia ficando cada vez mais quente. Então, num lapso, ela se lembrou que era casada e sem dizer nada se levantou e foi embora. Até hoje a imagens de Lady Bird a fazem umedecer o sexo…

Mas com César isso nunca aconteceu. Nem isso nem nada parecido. Sequer tinham o número um do outro. Ela mal conversava com a esposa dele – uma arrogante que se achava melhor do que todos só porque era médica dermatologista. Uma única vez conversaram apenas os dois em público. Foi numa festa da empresa. Falaram do champagne e de como odiavam fruta misturada com comida salgada. Nada, absolutamente nada a respeito do qual o marido pudesse desconfiar.

Então deveria ser outra coisa. Talvez não fosse para ela achar a cabeça. Talvez fosse para o marido – e seria o caso do assassino ser muito desinformado, posto que o marido estava no Rio de Janeiro e só voltaria amanhã. Mas Leila supunha que uma pessoa podia ser boa com mortes e péssima com datas. A cabeça do César seria um aviso? Talvez o marido e César estivessem metidos num esquema qualquer de corrupção. Ou seria o contrário? Ambos se recusaram a participar de um esquema, e mandaram a cabeça de César como aviso? Ela achava a segunda hipótese mais honrosa ao marido e a memória de César, mas admitia que podia ser a primeira também. Amava o marido, mas não colocaria a mão no fogo nem por ele nem por ninguém. Fosse o caso, o que ela deveria fazer? Chamar a polícia? Mas se o marido fosse criminoso, a polícia complicaria ainda mais a situação. Ligar para o marido? “Oi amor, deixaram a cabeça do César aqui na porta de casa. Devo jogar no lixo ou quer que guarde para você?”. Suspirou. Precisava se lembrar de mandar os pêsames para a esposa dermatologista do César. Ela deveria estar aos pedaços nesse momento.

Foi quando lhe ocorreu uma coisa. Aonde estaria o resto do corpo do César? Por que despedaçar uma pessoa assim? E se fosse um serial killer que gostava de apavorar as pessoas mandando pedaços de corpos? Nesse caso, ela provavelmente estaria sendo observada nesse momento. Talvez ela fosse a próxima vítima, e alguém da Limeira SA receberia a cabeça dela numa caixa do sedex. Talvez fosse um ex-funcionário da empresa. Ou um cliente lesado. Era um ato de vingança.

Ficou de tal forma absorvida na história, que chegou a ver um vulto na janela – era apenas a sombra de um pássaro – e pés na mesa da cozinha; eram apenas sapatos fora do lugar.

Bobagem! Não havia nenhum assassino observado, isso era coisa de cinema – e receber cabeças em caixas também era, mas ela preferia não pensar nisso. Ela usaria a razão e faria o que qualquer pessoa normal faria: ligar para a polícia e em seguida para o marido. Ou seria melhor o contrário? Seria compreensível que uma mulher, diante de um fato tão horrendo, buscasse primeiro o marido? Ou isso atrairia a desconfiança dos policias?

Fosse como fosse, ela não podia continuar sentada no chão com um cabeça na mesa de jantar. Discou 190 no celular e se levantou: os policiais provavelmente lhe fariam perguntas sobre a caixa e ela queria responder da melhor maneira possível. Manteve a caixa na visão periférica quando algo chamou a atenção. Algo que ela não tinha visto nas duas primeiras vezes, por culpa do choque. Branco, retangular, impresso, embalado em plástico. Um bilhete.

O certo seria não tocar no bilhete e chamar a polícia. Anos de CSI diziam isso para ela. Mas como resistir ao mistério de um bilhete? Abriu o plástico e leu:

“Enterre a cabeça”

Só. Mais nada. Uma ordem seca. Devolveu o bilhete para dentro da caixa. Ela ainda poderia chamar a polícia. Seria compreensível: ela se assustou com o conteúdo da caixa, supos que o bilhete tivesse alguma explicação, tocou nele. Não a culpariam por isso. Mas uma ordem seca, direta… E se o marido…?

Não podia ser. O marido era dado a rompantes de raiva, mas nada nesse nível. Ele não era homicida. E além do mais, não faria isso com ela. Não a envolveria de forma tão sórdida num assassinato, assim, sem nem hesitar ou se explicar. Além do mais… Por que não dar à cabeça o mesmo fim que deu ao corpo? Não havia motivo para a cabeça ter tratamento especial.

Ou talvez fosse um teste de lealdade. Ele queria saber se ela o amava. Talvez ele nem estivesse no Rio. Talvez ele estivesse a observado nesse momento. E no fim tudo se resumiria a: ela queria continuar casada com um homem assim? A resposta era não. Restava então uma última pergunta: era possível se separar de um homem assim?

E não havia certeza, apenas o dilema: obedecer a razão e chamar a polícia ou obedecer ao bilhete e abrir um buraco no quintal?

O telefone tocou. Das cinco coisas que ela pensou quando ele tocou, nenhuma se realizou. Era apenas o chefe querendo saber onde ela estava e se tinha conseguido protocolar o projeto na prefeitura. Ela desconversou. Se chamasse a polícia, o chefe descobriria o motivo do atraso. Se não chamasse… talvez ele levasse alguns anos para descobrir.

O telefonema a trouxe para a realidade. Havia uma vida para ser vivida lá fora. Não poderia permanecer a manhã inteira amarrada àquela caixa. Era o César que tinha morrido e não ela. Não havia pá na casa e a dúvida sobre a real natureza do marido parecia demais para ela. Ela chamou a polícia.

Em menos de meia hora a entrada da casa de Leila tinha mais repórteres do que policiais. Todos queriam uma entrevista com ela. A polícia não sabia se tratava Leila como suspeita ou testemunha. O marido apressou o retorno da viagem. Ele parecia completamente chocado e arrasado. Os vizinhos faziam suas conjecturar; um deles viu um motoqueiro deixar a caixa. Outro diz que foi um homem gordo num uno preto. A senhora do inicio do quarteirão jura que foi um casal num HB20 branco. O projeto do prédio comercial só foi protocolado uma semana depois, quando a situação se acalmou um pouco.

Nunca acharam o resto do corpo de César. A motivação do crime nunca foi descoberta, assim como o local e a maneira da morte. Segundo o legista, decapitação tinha sido pós morte. Não havia nada de anormal na cabeça, apenas sujeira na cavidade nasal. A perícia não sabia especificar o tipo de sujeira que era.

A única coisa que Leila sabia é que até o fim da vida ela responderia a respeito desse caso. A cada geração apareciam jovens interessados em saber o que ela sentiu e o que ela pensou nesse fatídico dia.

– O que você acha que teria acontecido se eu tivesse obedecido ao bilhete? – perguntou ao marido, enquanto se preparava para deitar.

– Teriam nascido lindas begônias.

Um arrepio percorreu a coluna de Leila.

– Eu gosto de begônias. – ela respondeu.

No escuro, enquanto a mão do marido pesava sobre a cintura dela, ela planejou. O passaporte ainda estava na validade. O dinheiro da conta conjunta estaria inacessível, mas ela ainda tinha algum na conta pessoal. Daria certo. Antes que ele percebesse, ela já estaria em outro continente. Assim que amanhecesse ela estaria livre. Tentou pensar em algo bom. Lady Bird.

Afronésia

A ideia veio para ele num sonho. Ele estava num lugar completamente tomado por uma neblina alva e densa. Fazia muito frio e as mãos e o pés dele queimavam. Havia um lago muito azul recoberto por uma fina camada de gelo. A medida que ele andava, buracos se abriam na superfície e ele afundava no lago. Era uma travessia difícil. Finalmente, ele chegou numa pedra, onde uma mulher nua e gelada gemia: me dê um filho.

Era sempre nessa parte que ele acordava. Nunca conseguia consumar o ato. A medida que o sonho se tornou mais recorrente, ele também se tornou mais ágil. O frio já não incomodava tanto, ele sabia onde o gelo era firme o suficiente para sustentar seu peso. Porém, não importava quão rápido ele chegava à mulher, ele sempre acordava antes de poder realizar o desejo dela. Isso o consumia. Gastava horas do seu expediente como contador da Itaim Viagens Interestaduais pesquisando sobre sonhos e lugares gelados. Nos dias que o termômetro marcava 30 graus, olhava com desdém a lagoa da Pampulha pela janela do escritório desejando que ela fosse um lago gelado. Tudo em vão.

A ideia tomou forma quando ele conheceu Ana. Tinham se conhecido num aplicativo e combinado de se encontrar num café. A conversa seguia robótica, passando pelo protocolo de sempre: você trabalha com que? Quais músicas você gosta? Costuma frequentar quais lugares? Esta acompanhando alguma série no momento?

Sonolento e burocrático. Entretanto, ela parecia interessada e era atraente. Se ela o beijasse no final do encontro, ele a convidaria para a sua casa. Sexo – mesmo burocrático – ainda era mais interessante do que assistir a reprise de Seinfeld comendo cheetos.

– Sabe, eu sempre quis viajar o mundo. É claro que nunca consegui dinheiro para isso. Quem consegue juntar tanto dinheiro trabalhando como auxiliar de logística? Mas um dia eu juntei o suficiente para passar duas semanas no norte da Europa. Esse é o lugar mais bonito que eu já vi na vida. – e ela disse isso estendendo o celular.

Ele olhou as fotos. O ruído do coração dele era tão alto que ele temeu que as outras pessoas do café estivessem ouvindo. Sua boca salivou como se tivessem colocado um prato saboroso na sua frente. Era o lago dos seus sonhos. O lago gelado. Subitamente ele pareceu muito interessado na conversa e quis saber todos os detalhes. Curiosamente, isso fez com que Ana se assustasse um pouco, então, ele terminou a noite vendo o George se tornar modelo de mãos.

Entretanto, a viagem se tornou uma obsessão para ele. Dali em diante, tudo que ele fazia era para juntar dinheiro para a jornada. Abriu uma conta específica para isso, e depositava cada centavo que sobrava nela. A principio os amigos reclamaram do comportamento antissocial, mas logo deixaram para lá. Ele nunca fora mesmo muito sociável.

Catorze meses depois, ele estava embarcando para a parte norte da Europa. Dois dias depois de aterrissar ele estava no rumo no lago congelado. Três horas de trilha depois, ele estava no lago. Era igual aos sonhos, com algumas exceções: seus pés e mãos não doíam pois ele estava usando roupas adequadas. O vento era muito mais forte do que ele imaginava. E a única diferença que realmente importava, não havia mulher nua sobre a pedra.

Ele ficou algumas horas admirando a pedra vazia e fazendo conjecturas. Era impossível ignorar que os sonhos deveriam significar algo, afinal, ele estava sonhando com um lugar que de fato existia e que ele desconhecia antes de se encontrar com Ana. Era um chamado, mas de quem? E por que? O que esperavam dele?

Antes que anoitecesse e a caminhada de volta se tornasse muito perigosa, ele voltou para a cidade. Procurou um bar onde pudesse beber e comer. Foi na terceira dose de brennivin que ele conheceu Justine, uma filipina que estava no país de forma ilegal. Conversa vai, conversa vem, Justine se ofereceu para ir para hotel com ele em troca de um módico pagamento. A cabeça dele estava cheio de desejos, então ele aceitou.

E no ápice do êxtase ele teve uma visão: Justine dando a luz a um bebê de gelo em cima da pedra do lago. Acreditando ter compreendido o chamado, ele convidou a moça para fazer a trilha com ele no dia seguinte. Justine aceitou, mas solicitou um aumento no seu pagamento que a essa altura já não era tão módico.

Ele se irritou com Justine, que era mais frágil e mais assustada do que ele imaginava. Quando chegaram ao lago ela parecia realmente impressionada mas também apavorada demais para andar sobre o gelo fino até a pedra. De início ele tentou convencê-la: “você está sendo tola, é completamente seguro”. Mas o abismo azul profundo do lago era mais eloquente que as palavras dele e as rápidas corridas que ele dava sobre o gelo. Então ele tentou comprá-la, o que a deixou completamente ofendida. “Eu não vou arriscar a minha vida”, ela disse. Então ele tentou ameaçá-la, o que fez com que a moça virasse as costas e fosse embora, deixando a ele apenas uma opção: bater forte na cabeça dela com uma pedra.

Justine estava caída no chão. Ele se certificou se ela ainda respirava. Estava inconsciente mas viva. Pegou a jovem no colo e foi andando em direção a pedra. Até que o chão sumiu de seus pés e ele caiu na água gelada. Talvez tivesse pisado em falso, talvez o peso de Justine somado ao seu fosse muito para a resistência do gelo. Fato é que ele estava encharcado e congelado, tal qual ela. Depois de gastar muita energia para voltar para o gelo, ele continuo seu caminho até a pedra. Nela, despiu as roupas de Justine e parte da suas. O vento cortante sobre seu corpo, o frio subindo pelas pernas, o fio de sangue escorrendo pela testa da garota… Ele não conseguiu. Seu corpo não respondia.

Suas mãos apalparam os seios de Justine até que a respiração dela parasse. Então, empurrou o corpo para um buraco na superfície congelada do lago. Fez fogo para amenizar o frio e secar suas roupas. Retornou a cidade. Bebeu muitas doses de brennivin. Viajou de volta para casa.

Os sonhos cessaram por um tempo. Deram lugar a um grande vazio onde eventualmente apareciam os olhos de Justine. Em retrospecto, ele achava a pele arroxeada de frio da garota bastante bonita, ainda que houvesse culpa reprimida pelo assassinato dela.

De qualquer forma, o tempo passou e os acontecimentos do lago se transformaram num sonho. Por algum tempo ele achou que poderia seguir com a vida normalmente. Já não sonhava nem com o paraíso gelado nem com os olhos vidrios de Justine. Era um contador normal, num mundo normal.

Até que numa noite choveu muito. Segundo os jornais, chegou a cair granizo. Ele acordou no meio da noite para fechar as janelas. E no meio da rua ele viu Ana, nua, coberta de granizo até os tornozelos e gritando “me dê um filho”. A pedras de gelo batendo na sua testa indicavam que ele ainda estava deitado na cama e que a janela ainda estava aberta. Tinha sido um sonho. Ele fechou a janela, e passou o resto da noite na cama, pesquisando nas redes sociais o paradeiro de Ana.

O flerte foi logo e demorado, mas ele conseguiu convencê-la a um novo encontro. E também a ir conhecer seu apartamento. E a conhecer a família dele. E a casar.

Ana era uma companhia agradável o que tornava a sua missão mais fácil. E era destemida, quase louca. Não foi difícil convencê-la do destino que ele queria para a lua de mel. Três anos depois da chuva de granizo, lá estavam eles rumo ao lago.

O fato dela ter escolhido o mesmo bar no qual ele conheceu Justine para comer uns petiscos o deixou incomodado. Era um sinal? Ele não sabia. Por via das dúvidas, estava levando clorofórmio.

A trilha para o lago foi muito agradável e quando ele propôs uma corrida até a pedra, Ana simplesmente disse “1, 2, 3 e já”. Na pedra, ele tentou despir Ana, que recusou. Porém abriu a roupa o suficiente para que fizessem amor ali. Ela não estava nua, nem molhada, nem gelada. Ao contrário, o toque da pele dela era quente e aconchegante como uma banho de banheira. Ela também não estava gemendo nem implorando um filho seu. No seu íntimo ele desejava que aquilo fosse o suficiente, mas sabia que não era.

No hotel, ele sonhou novamente. Dessa vez, a água do lago se abria permitindo ver a criatura sinistra que se escondia no fundo dele. A água gelada rodopiava ao comando dele, que tinha pele viscosa e brilhante. Jatos de água entraram por todos os seus orifícios. Ele acordou, úmido e assustado.

Demorou um pouco para convencer Ana a fazer a trilha de novo. E também para correr até a pedra. “o que você gosta tanto nessa pedra?”. E demorou ainda mais para se desculpar quando – durante o sexo – ele acidentalmente se desequilibrou e ambos foram parar dentro da água. Bem na hora do êxtase dele.

Algumas horas depois, já aquecida e seca, ela riu. “É uma grande história de lua de mel. Mas amanhã vamos no círculo dourado”. Ele dormiu um sono satisfeito e sem sonhos.

Algumas semanas depois, Ana descobriu que estava grávida. Ele era o pai mais apaixonado que já existiu. Quando o ultrassom revelou uma anomalia não identificada, ele disse que não se importava. Amaria a criança fosse o que fosse. Quando, no terceiro mês, o mesmo exame apontou uma deficiência severa, que tornava a criança inviável, ele protestou veemente. No quarto mês, quando os médicos solicitaram a interrupção da gravidez porque a criança estava crescendo demais e colocando em risco a vida de Ana, ele implorou para que a esposa trocasse de médicos. “Eles querem matar nosso filho”. Ana ponderou por três dias, até que uma crise de pressão alta a fez dar entrada no hospital e de lá para a sala de cirurgia. Ele ficou em pânico. Chorava e gritava pelos corredores do hospital. Acabou sedado.

A interrupção da gravidez ocorreu sem maiores complicações e Ana parecia bem. Médicos e enfermeiros formavam uma pequena procissão, curiosos com o feto. Suas anomalias eram desconhecidas, formando uma massa amorfa que lembrava apenas vagamente a forma humana. Alguns sugeriram que o feto fosse descartado para poupar a mãe. Mas diante da reação do pai, acharam melhor entregá-lo para que fossem realizadas as cerimônias fúnebres. Quando ele acordou o conduziram pruma sala onde poderia ver o filho morto. Ele olhava com amor, tristeza e resignação. Acariciava com a ponta dos dedos a pele escamosa do que deveria ser o ventre da criatura. Acariciou as massas ósseas que despontavam do que deveria ser uma cabeça. Contou os dedinhos presos ao que deveria ser uma nuca: sete. Pegou a criatura no colo e a ninou. Cantou uma canção que falava de uma lago, de uma moça filipina chamada Justine e de um sonho. Prometeu enterrar a criança junto ao seu verdadeiro pai, no fundo do lago gelado e azul.

Os médicos diagnosticaram um colapso nervoso e o rapaz foi medicado e colocado em observação. No sono profundo movido a medicamentos ele via Justine esfaqueando a barriga de Ana. Via a água gelada do lago penetrar todos os seus orifícios e a criatura do fundo do lago o menosprezar. O efeito dos medicamentos passou, mas ele continuou em transe. Falava de Justine, do lago, da criatura.

Tanto falou, que Ana decidiu investigar. Contratou um detetive que descobriu que uma mulher chamada Justine desapareceu na Islândia mais ou menos na época em que seu marido viajou para lá pela primeira vez. A busca pelo corpo no lago não foi aprovada, mas Ana não precisava de mais provas. Pediu o divórcio e se afastou até que a lembrança dele se tornou apenas um sonho. Quanto a ele, permanecia em tratamento. Era um bom paciente, os enfermeiros não reclamavam. Tudo que tinham que fazer para aplacar eventuais crises era mergulhar o homem numa banheira de gelo.

A árvore

A chuva da noite anterior tinha finalmente quebrado a dormência da semente e dado forças para que a vida rompesse a casca exterior. Um pequeno caule fino e verde poderia ser visto, se houvesse alguém para observar. Choveu durante toda a semana, então, foi fácil para a planta penetrar o solo com suas brancas e frágeis raízes. O caule cresceu cerca de cinco centímetros nesse tempo e tombava para direita por ser incapaz de sustentar o próprio peso.

A semana seguinte foi mais difícil. O clima nublado deu lugar a um céu azul, limpo e ensolarado. A terra tornou-se seca, e várias folhas que tinham despontado secaram e caíram. O caule começou a encolher, como se a planta quisesse voltar para dentro da semente. Entretanto, as raízes permaneceram firmes, e a planta viveu tempo suficiente para ver uma chuva rápida e torrencial que lhe esmagou o caule mas também a hidratou.

Os dias subsequentes foram mais tranquilos, alternando sol e chuva. O verão tinha se estabelecido afinal. O clima daquela região era agradável, e a planta crescia. O caule verde foi engrossando e se tornando marrom. Outros galhos brotavam do tronco principal, cheios de folhas e brotos. Formigas e lagartas subiam e desciam o relevo daquela planta.

Ao final de um ano a planta já tinha o tamanho de um homem adulto. Ao fim de dois, já tinha chegado aos cinco metros. Ao fim de cinco anos, a copa frondosa formava uma cúpula oferecendo metros de sombra para aqueles que a olhavam do chão.

Porém ninguém olhava a árvore. Não havia uma única testemunha humana da extravagante árvore que aquela semente tinha se tornado. E talvez fosse melhor assim. Talvez aquele espetáculo coubesse apenas as abelhas, borboletas, serpentes e macacos.

Um dia choveu muito. Muito mesmo. Tanto, que o solo alagou e na base do tronco da árvore era possível ver um espelho de água. Um evento completamente anormal naquela região, que trouxe consigo outra coisa anormal: humanos procurando abrigo. Um casal, um homem e uma mulher.

Eles viram a árvore e decidiram se proteger nela. Escalaram o tronco com o objetivo de escapar da água. Recolhidos nos braços um do outro, rezavam a cada raio que caia, temendo que a árvore protetora fosse atingida. Não foi. Tão logo a chuva deu um trégua, eles puderam secar suas roupas nos galhos da árvore.

A mulher – nua – encarava desconfiada o fruto que tinha encontrado. Os galhos da árvore estavam repleto deles: pequenos, verde-arroxeados, macios, com o interior repleto de sementes. Ele cheirou e o odor era doce. Atreveu-se a lamber a casca, e não sentiu nenhum sabor. Espremeu um pouco da polpa sob a ponta da língua. Esperou. Nenhum desconforto apareceu. Julgou que podia comer a fruta.

Se tivesse observado os pássaros e abelhas talvez a mulher não tivesse provado a fruta. Muito animais se abrigavam naquela árvore, mas os frutos caiam do solo e apodreciam no chão, retroalimentando a árvore. Ninguém ousava interromper o ciclo que a arvore havia estabelecido.

De início, ela não sentiu nada, de forma que se companheiro também provou a fruta. Ela estava sentada num galho sentindo o carinho dos raios de sol que conseguiam ultrapassar a copa grossa, quando veio. Forte como uma queda. A acertando de muito lados. A cabeça latejava, o estômago queimava, os braços formigavam, os olhos ardiam, os pés coçavam. Na sua retina se projetavam imagens do passado, do futuro e do presente, sobrepostas a realidade de múltiplas dimensões. Seu companheiro se assustou apenas até ser atingindo pelo mesmo fenômeno. Agarrados a madeira da árvore eles sofriam e temiam a morte.

A lua cheia resplandecia no céu quando, finalmente, o sono profundo os atingiu. Dormiram sem sonhos, apenas o cansaço de ter vivido muitas eras de uma única vez. Acordaram fracos, famintos e assustados. Colocaram as roupas e retomaram a caminhada. Preso ao cabelo da mulher, uma semente também iniciava a jornada com eles. Qualquer semente que almeje germinar precisa se afastar o suficiente da planta mãe, de forma que a sombra desta não a sufoque. A mulher era a chance da semente, que alcançou o solo quando – com calor – a mulher prendeu os cabelos e jogou fora, sem sequer olhar, o grânulo. Se a chuva fosse favorável, uma nova árvore cresceria.

A sombra

Todos os jornais tinham anunciado que a neblina chegaria e pelo que Helena via da janela, ela de fato chegou. Um cinza fraco e poeirento cobria todo o horizonte. As recomendações tinham sido para ficar em casa, beber bastante água, buscar manter o ambiente o mais limpo possível.

– É fuligem das queimadas. Já faz uma semana que a mata está queimando. – disse o especialista na TV.

O gosto salgado de fumaça no fundo da boca incomodava. Era salgado, sujo e sufocante. Um pano molhado sobre a face ajudava mas não resolvia. Nem nos seus sonhos mais loucos Helena imaginaria que viveria num mundo onde fosse impossível respirar.

Foi na noite da chegada da neblina que ela teve o primeiro sonho. Ela estava num prédio velho, abandonado e sujo. As paredes estavam mofadas e descascadas. Mas o prédio era habitado; toda vez que tentava abrir uma porta dava de cara com uma criatura estranha, deformada, despida de humanidade. O prédio é um grande labirinto e ela não consegue achar a saída. Ela chega a uma sala na qual não existem portas. Atrás dela, uma enorme sombra surge. Helena se encolhe no canto da sala. A sombra se torna cada vez mais visível, mas a criatura que a produz nunca chega.

O segundo sonho foi no dia seguinte. Dessa vez, ela estava num campo aberto. Um sítio amplo e verde, no qual surgiam seres pequeninos e peludos. Pareciam inofensivos, mas eram muitos. Logo, Helena se sentiu encurralada e começou a correr. Então a sombra negra reapareceu, com proporções colossais, encobrindo o próprio sol, e mesmo assim Helena não era capaz de enxergar o que a produzia.

O terceiro sonho foi no terceiro dia. Ela sonhava que dormia. Logo, o escuro do quarto se tornou tão denso que esmagou o peito dela. Ela tentava acordar e acender a luz, mas era impossível. A sombra estava sobre ela. Sentiu o peito rachar, os pulmões pularem para fora e a cabeça explodir. Assumiu que a umidade que sentia era sangue, mas quando finalmente despertou notou que estava mergulhada em suor. Ligou a TV, e o jornal da madrugada falava sobre a neblina.

– Mas isso nunca vai passar? – disse em voz alta para ninguém.

Começou a pensar sobre a sequencia de sonhos. Era o inconsciente processando a neblina, disso não tinha dúvida. Era uma metáfora muito clara. Mesmo assim, ainda se sentia incomodada de não enxergar a origem da sombra.

Todo mundo sabia o motivo da serra queimar. O governo era negligente com os fazendeiros e garimpeiros que queriam explorar a região. Estava fazendo vista grossa pro incêndio e apenas fingindo apagar o fogo. A mata queimaria até que a fome dos fazendeiros e garimpeiros estivesse saciada.

Mas quando dormia, Helena não via garimpeiros ou fazendeiros ou mesmo o presidente da república. Ela via apenas uma sombra negra. Uma sombra negra sem origem, sem natureza, sem substância. Um vazio sem nome.

– Estão abrindo caminho.

Quem disse isso foi uma mulher negra coberta de fios dourados. Sua imagem era distorcida, como um quadro modernista. Não era bonita, e não era feia. Era esquisita. E Helena achava que a tinha visto no primeiro sonho. Esse era o quarto sonho. Não se lembrava de nada, apenas da frase e da mulher. “Estão abrindo caminho”. Nos anos 1970, a ditadura dizia estar abrindo caminho para o futuro quando derrubava parte da floresta amazônica. O governo atual certamente diria o mesmo. E o fogo abre caminho para que fazendeiros e garimpeiros possam plantar e extrair. O inconsciente, de novo, sendo bastante óbvio.

No íntimo, Helena sente que não é só isso. Não é só uma associação de palavras. Ela sente, no fundo do coração, que algo está errado. Estão abrindo caminho para alguma coisa. Alguma coisa tão grande que é capaz de produzir uma sombra que oculta o sol.

No quinto dia ela não sonhou. Nem no sexto. No sétimo dia, a neblina passou. Da janela de casa, Helena podia ver um outdoor em agradecimento ao presidente. O caminho estava aberto.

Sete almas

O corpo de Kauane Isidoro jazia inerte no chão da pedreira. Os homens que a mataram davam prosseguimento a um ritual fúnebre inusitado. Um deles decepou com um facão as mãos e a cabeça da jovem. O outro despejou gasolina sobre o que sobrou e riscou um fósforo. Enquanto a fumaça preta ganhava espaço, um terceiro homem arrancava os dentes da boca da jovem. Arrancou também dois enfeites de madeira que ela possuía no lábio inferior e na orelha direita. A cabeça decepada e desdentada e as mãos foram jogadas numa represa a cento e vinte quilômetros dali. Os dentes e os enfeites permaneceram num pote de maionese; souvenir macabro. Logo as cinzas se dispersaram e nem mesmo o mais sagaz cão de caça poderia encontrar o que um dia foi Kauane.

Ela era jovem, tinha a pele avermelhada e os cabelos compridos e negros. Era professora, herdeira do legado da xamã da sua aldeia e uma das poucas pessoas que ainda falava com fluência a língua de sua tribo. Dominava também as artes do mundo de concreto. Foi a primeira indígena de seu estado a se formar em direito numa universidade federal. Era referência numa ação que buscava reintegrar a posse de um conjunto de 10.000 hectares aos moradores da sua aldeia. Infelizmente, esses hectares estavam sobre um veio muito importante para uma mineradora. Só que o processo encabeçado por Kauane era muito bom. E diante da impossibilidade de chegar ao resultado desejado pela via legal, a mineradora optou por um caminho alternativo. Kaune jazia inerte no chão, e sua tribo perderia as terras as quais tinham direito.

Para a grande maioria das pessoas que habitam o mundo de concreto existe apenas um corpo e uma alma e essa união se dá antes mesmo do nascimento. Na concepção, já existe alma. Na tribo de Kauane era diferente. A alma só viria a morar no corpo após o primeiro ritual de iniciação onde era colocado um enfeite no lábio inferior e um na orelha direita. Junto com ela, viriam outras seis almas. Durante o sono a alma principal sairia para passear, e as outras seis almas cuidavam do corpo. Quando a alma principal se perdia, a doença se instalava no corpo (e era fundamental contar com a ajuda das seis almas para reconduzir a alma principal para o corpo). Quando o corpo morria, a alma principal morria, mas as seis almas continuavam lá até que os espíritos da natureza viessem buscá-las. E como qualquer ser que vive, elas precisavam comer. Por isso, na aldeia de Kauane os ritos fúnebres envolviam danças e comida; dança para saudar o espírito que se foi e comida para alimentar aqueles que ficaram. As obrigações com os mortos duravam vários anos. Nos seis espíritos que ficam reside a memória de quem se foi.

Entretanto, o ritual fúnebre perpetrado pelos assassinos de Kauane em nada se parecia com o rito da aldeia. Não deixaram nada para alimentar as seis almas. Elas esperaram pacientemente na pedreira por seis dias. No sétimo, elas saíram para comer.

Quando uma família indígena não cumpre com suas obrigações fúnebres normalmente as almas voltam em forma de onça e reivindicam na aldeia a comida que não receberam. A pedreira ficava a 50km de uma cidadezinha com 5.000 habitantes que assistiu horrorizada seis onças correndo pela rua principal. Foi notícia em todos os jornais. Vídeos circularam pela internet. A agressividade das onças chamava a atenção dos especialistas. E também sua fome. Onças não costumam atacar seres humanos, mas aquelas fizeram 3 vítimas.

Os espíritos entretanto continuavam famintos. Os espíritos da floresta podem levar anos para vir buscar os que ficam. Voltam quando a memória está consolidada na aldeia; quando o legado tem um novo dono.

E famintas, as onças continuavam sua caçada. Seguiram pela floresta até uma cidade maior, onde ficava uma das subsidiárias da mineradora. E quando atacaram, acabaram sendo sendo baleadas por moradores locais. Houve festa e comemoração. Todo mundo queria tirar foto com os corpos da onças assassinas. E quando o sobrinho do prefeito foi posar para a foto, os corpos das onças começaram a se dissolver. Não eram corpos de fato, eram só espíritos em desespero.

Começou então o falatório de que as onças era sobrenaturais. Magia negra. O prefeito tinha certeza que seu adversário tinha invocado as onças já que seu adversário era da umbanda. “Ele tem pacto” disse o prefeito enquanto discursava numa igreja evangélica. Não era um homem religioso, mas sabia emular o trejeitos e vestimentas dos homens religiosos. Ao menos das religiões que rendiam votos.

Quando uma alma morre de fome ela não morre de fato. Ela não vai para o mundo dos espíritos da floresta; ela vai para o mundo subterrâneo, do qual volta para fazer o mal sempre que a noite cai. E foi o que aconteceu.

Na primeira noite sentiram tremores por toda a cidade como se gigantes estivessem batendo no chão. Na segunda noite todos os cães domésticos da cidade apareceram com ferimentos como se tivessem sido espancados. Na terceira noite, cadáveres apareceram por toda a cidade. Não apenas nos cemitérios, que tiveram seus túmulos violados, mas também em lotes vagos, matas, quintais, e qualquer outro lugar que já tivesse servido de descanso para os mortos.

Os habitantes da cidade, em pânico, exigiam ações do poder público, que estava completamente perdido com a situação. A situação repercutiu pelo mundo e especialistas das mais diversas áreas e religiões vieram para a cidade. E em paralelo a isso, muitas respostas apareceram. Porque foi necessário identificar os corpos que apareceram antes de dar fim a eles. Gente desaparecida a muito tempo foi encontrada. Muitos tiveram que se explicar, inclusive a subsidiaria da mineradora.

Na quarta noite, todas as mulheres apareceram com um corte que ia do umbigo até os seios. O corte era superficial, mas foi o suficiente para um movimento de evacuação em massa da cidade. Mesmo os que vieram para estudar os fenômenos da cidade não se atreviam em ficar nela durante a noite. E na ausência de seres para machucar, os espíritos começaram a destroçar as construções, fazendo ruir casas e prédios. Em menos de um mês, havia apenas terra devastada.

Com tantos afazeres e problemas de imagem – sim, pois logo apareceu alguém ligando a mineração aos acontecimentos bizarros da cidade – a mineradora decidiu repensar a exploração da região. Desistiu de ocupar várias terras da região, inclusive as que eram do povo de Kauane. Mudou de nome e começou a se afastar do estado.

Quando a ação do povo de Kauane tramitou em julgado, choveu uma chuva de dias. O espírito das águas veio libertar as seis almas atormentadas e tirá-las do submundo. O legado estava entregue.

O abismo

Um abismo infinito que liga o meu mundo ao seu. “Mas como um abismo pode ser uma ponte de ligação entre dois mundos” , você me pergunta. Eu digo que eu não sei. Que tudo que eu sei é que o abismo existe. E que eventualmente algumas pessoas caem ou saltam nele. E que essas pessoas emergem no seu mundo. E que o contrário também acontece. E ainda que o fluxo seja pequeno, ele existe. Um abismo. Uma ponte. Um túnel. Uma ligação.

Eu poderia saltar no abismo. Eu já conjecturei isso várias vezes. Andar até borda, soltar o corpo no infinito negro, descobrir a verdade que se enconde no outro lado. O fim. Me falta coragem, admito.

Você também poderia fazer o mesmo, mas eu seria uma pessoa muito má se lhe obrigasse a isso. O salto no abismo deve ser uma escolha pessoal, feita no ápice da consciência e compreensão de riscos.

Sim, porque os riscos existem. Nem mesmo aqueles que atravessaram podem dizer ao certo o que aconteceu ou se a passagem é segura. E mesmo estes nunca quiseram voltar ao seu mundo de origem, seja para visitar um parente ou só para matar a saudade. Isso dá a sensação que o salto no abismo é uma decisão definitiva, irreversível,

Ou talvez o salto seja realmente uma experiência muito ruim. Tão ruim que aqueles que passam por ela apenas bloqueiam a existência da experiência. E não querem passar de novo por ela, ainda que isso signifique perecer num mundo ao qual sentem que não pertencem.

Quanto mais o tempo passa, mais eu sinto que eu não pertenço a esse mundo e mais o abismo se torna atraente para mim. Já não me reconheço nos alicerces do meu mundo e tudo que me ocupa é o sonho com o seu mundo. Um mundo novo.

Meu temor não é a morte. A morte é inevitável e de alguma forma eu já aprendi a lidar com isso. Admito que a provável dor me assusta, mas também não é ela o que me aflige. Tenho medo de chegar ao seu mundo e descobrir que ele é igual ao meu. E não tendo mais sonho com o qual sonhar, nem mundo para idealizar eu descubra que simplesmente não pertenço a lugar nenhum. É essa solidão que me horroriza, me paralisa, me sufoca. Mas se você me prometer que seu mundo é diferente do meu, que há esperança e há futuro, então eu salto.

– Você promete?

E o silêncio ecoou por séculos.

Jaci e Guaraci

A pele dela era alva como uma folha em branco. Se você olhasse com atenção, poderia ver as veias e artérias, subindo e descendo sob o tecido epitelial. Os cabelos eram de um loiro acinzentado, quase brancos. Não pintava, tinha nascido assim. Os olhos eram puxados e de um púrpura acinzentado.

Ele era negro. Não negro como a noite; sua pele era de um marrom avermelhado, como uma terra rica em argila e matéria orgânica. Era corpulento e tinha os músculos bem definidos. Os dentes alvos brilhavam quando ele sorria. Os cabelos crespos eram de um castanho abrasado, combinando com os olhos.

Os dois se conheceram numa festa de caridade. “Salve o Rio Amazonas” era o que dizia o enfeite na área nobre do salão. Ele era herdeiro de uma fornecedora de energia. Controlavam 70% do fornecimento de eletricidade no hemisfério sul. Ela era herdeira de uma companhia de navegação. Controlavam todo o tráfego na Ásia e Indonésia. Estava no evento para tentar tornar a marca da sua companhia mais familiar nesse lado do globo. Queriam expandir os negócios.

Ela derrubou um martíni no chão quando seus olhos cruzaram com o dele. Trêmula e constrangida, tentou se esconder entre as pessoas. Mas a imagem da pele dele sob a sua não saia da sua cabeça. O coração dele disparou e um arrepio subiu pela espinha quando ele viu ela. Seguiu para a mesa de aperitivos para se recompor.

Se cruzaram mais três vezes durante a festa. A cada olhar cruzado ao acaso sentiam que já conheciam um ao outro. Que um laço invisível e antigo os uniam. Até que uma apresentadora de TV os chamou:

– Vocês já se conhecem? Não? Selena, esse é o Hélio. A empresa da Selena fez um mapeamento incrível dos mares. Uma metodologia realmente única. Talvez você se interesse, para as usinas de ondas. As duas empresas poderiam trabalhar juntas no projeto piloto em Pernambuco…

E quanto mais ela falava mais a garganta dele secava e mais as pernas dela tremiam. Como se a presença do outro acendesse uma chama a muito tempo adormecida.

Ele aguentou o quanto pode. Tentou pensar em tudo de terrível, constrangedor e trágico que já lhe acontecera. O dia em que fez coco nas calças, ainda no maternal. Quando bateu o carro poucos meses depois de tirar carteira. Quando foi surpreendido por uma pergunta inesperada na sua defesa de monografia. Mulheres feias. Mulheres feias e asquerosas. Era inevitável. A ereção ia se tornar aparente. Sorriu e disse que precisava ir ao banheiro.

Longe dela e com o rosto encharcado de água fria foi mais fácil controlar a situação. Então um homem velho, de pele vermelha e cabelos compridos surgiu atrás dele.

– Vá pegar ela meu filho. Vá pegar ela.

Hélio era do tipo que dava ordens, não do tipo que obedecia. Mas as palavras do velho sintetizavam exatamente o que ele queria fazer. Pegar, caçar, atravessar. Instinto apenas, sem lógica.

Ela ainda estava no grupo, junto com a apresentadora e outros dois investidores norte-americanos. Ele olhou fundo nos olhos dela. Ela não desviou. Ele andou em direção a ela. Ela entendeu e se deslocou do grupo. Seguiram juntos, lado a lado, até o armário de de produtos de limpeza. Dentro dele, arrancaram as roupas e se amaram como se a vida na terra dependesse disso. Nenhum dos dois sabe explicar o que aconteceu. O fato é que ambos alucinaram durante a transa, vendo imagens de um mundo árido e em chamas, de um rio explodindo em torrente e de um mar lutando contra o rio. Exausto, ele se sentou no chão, enquanto ela permanecia recostada sobre um pequeno armário de produtos.

– Você está sangrando. Você era… virgem?

Ela gargalhou.

– Acontece as vezes. Foi intenso né?

O fio de sangue, que era tímido, sujando apenas os lábios da vagina começou a aumentar. Escorreu pela coxa, derramou sobre o armário e fez uma poça no chão. O alívio e o riso tinham dado lugar ao desespero. Ele se vestiu para chamar ajuda médica.

– Não, por favor, fique aqui.

A hemorragia continuou e o sangue escorreu pela porta. Ainda que quisessem, não poderiam guardar segredo. Logo alguém perceberia o rio vermelho.

Ela foi se tornando cada vez mais livida. Sua pele alva deu lugar a um tom arroxeado. Morta.

Ele foi preso, mas não permaneceu na cadeia. Sequer foi a julgamento. A autopsia confirmou que ela não tinha ferimentos. Ela simplesmente sangrou, sem motivo algum. Ele chorava todas as noites, com motivo. Como algo assim poderia ter acontecido?

Ele se interessou pelos mares. Quis saber tudo que ela sabia, viver tudo que ela tinha vivido. Entender o que tinha acontecido.

– A usina de ondas foi um sucesso. Logo poderá substituir algumas hidrelétricas. Isso é bom, vai liberar alguns bilhões de metros cúbicos de água doce para abastecimento.

Ele não se importava. O que ele queria era encontrar ela no meio daquelas ondas, ou pelo menos uma explicação.

Estava sentado embaixo de um pé de Quaresmeira, quando o velho de pele vermelha e cabelos compridos sentou do lado dele.

– Eu me lembro de você!

– Eu imagino que sim. – ele tirou um pouco de fumo e um pedaço de palha e enrolou um cigarro em silêncio. Hélio apenas observou. Não sabia nem o que perguntar ao homem.

– Você chorou muito rapaz. Você chorou um rio inteiro. Logo a imagem de Jaci vai apagar da sua cabeça e você voltará ao normal.

– Jaci?

Ainda era dia, mas já era possível ver o contorno da lua no céu incrivelmente azul. O velho apontou para a Lua.

– Não entendi.

– Claro que não. A lua e o sol – o Jaci e Guaraci – eram apaixonados um pelo outro. Mas Tupã nunca permitiu que eles consumassem o amor, pois isso resultaria no fim do mundo. Jaci chorou muito diante da decisão de Tupã, e negociou uma alternativa. Eles encarnariam no corpo de humanos e então poderiam consumar o amor. Tupã concordou, desde que durasse apenas uma vez. O primeiro encontro entre Jaci e Guaraci foi tão intenso que eles não quiseram se separar. Tupã, bravo com a desobediência dos dois, fez com que um dos corpos morressem, e disse que seria assim a partir dali. Um sempre morreria. Mesmo assim, Jaci e Guaraci continuavam descendo para a Terra. Guaraci deixou seu corpo no dia que Jaci morreu. Mas os pensamento de um ser assim podem repercutir na mente de um humano por muito tempo. Você é forte. A maioria enlouquece.

_ Por que eu deveria acreditar nisso?

– Não precisa acreditar. – mas o velho sabia que ele acreditava. Podia ter vergonha de admitir, mas no fundo acreditava.

– E porque você está me contando isso?

O velho deu de ombros. Estava fazendo por Hélio apenas o que gostariam que tivessem feito por ele a muito tempo atrás.

Ele fumou mais um cigarro embaixo da quaresmeira. Então se levantou e os dois homens nunca mais se viram. Dois anos depois Hélio se casou com uma modelo de cabelos ruivos.

O colírio

Denise abriu o pacotinho pardo da farmácia e encarou o frasco contra a luz. O rótulo cobria o frasco inteiro, tornando impossível perceber quanto liquido existia. Com um estilete ela arrancou, com cuidado, um pedaço do rótulo. Pronto. Agora ela podia monitorar quanto liquido ainda existia.

Era sempre assim: ela comprava um colírio e do nada ele aparecia vazio. Em várias ocasiões ela pus a culpa no rótulo. Sem poder acompanhar o esvaziamento do colírio, ela só prestaria atenção nele em dois momento, quando ele começava a usar e quando ele acabava. Mas isso não era explicação suficiente, posto que ela poderia perceber a quantidade do liquido também pelo peso do frasco. A sensação que ela tinha é que do nada o frasco ficava vazio.

Conjecturou que ela estava deixando a embalagem destampada. O liquido devia estar evaporando. Outra pessoa usando não era, pois Denise morava sozinha. O mistério estava posto.

Religiosamente, ela checava o nível de liquido do colírio antes e após usar. Repetiu esse processo até o frasco chegar na metade. Um dia, logo após ela pingar o colírio o telefone tocou. Ela atendeu e era um ex-colega de faculdade querendo indicações de hotéis no interior do estado (Denise era do interior). Ele se alongou falando que estava organizando um Congresso, que iria receber mais de 30 especialistas em contabilidade para exportação, que se ela quisesse ir, ele conseguiria desconto no hotel e não cobraria a inscrição (aqui Denise sentiu que ele estava flertando). Ele falou também sobre o casamento que não deu certo, reclamou da ex-esposa que era muito retrógrada e que sentia saudades da mulheres loucas da faculdade (aqui Denise teve certeza que ele estava flertando). Ela se sentiu ligeiramente lisonjeada com o telefonema, passou os nomes dos hotéis que lembrava serem mais famosos e então desligou. Claro que toda essa conversa fez ela esquecer do colírio.

No dia seguinte, após algumas horas preenchendo planilhas em frente ao computador, ela sentiu os olhos arranharem. Pegou o colírio e… Não era possível. Estava no final. Examinou a tampa, a embalagem, tudo parecia normal e correto. Apenas o liquido não estava mais lá. Um colírio não é coisa cara. Pouco dinheiro compra. O que irritava Denise não era o dinheiro que se perdia, era o mistério. Afinal de contas, para onde ia o líquido? Como ele escapava do frasco?

Ela se dispôs a repetir a experiência mais uma vez. Cerca de duas semanas depois de comprar o colírio novo, houve um acidente de carro bem na hora em que Denise pingava o colírio nos olhos. O barulho fez com que ela corresse para a janela, e foram uns quinze minutos testemunhando a desgraça alheia. O troco veio no dia seguinte, quando ela pegou o frasco e viu que ele tinha esvaziado.

Ela repetiu isso cinco vezes. Sempre acontecia alguma, ela sempre se distraia, esquecia de observar o frasco e o líquido evaporava. Então desistiu. Fosse o que fosse não queria ser descoberto. Talvez o líquido do colírio tivesse propriedade quânticas que demandavam observações constantes para se fixar dentro da embalagem. Talvez houvesse na sua casa um duende com conjuntivite, um espírito com olho seco ou uma entidade maconheira. Talvez as companhias de colírio tenham desenvolvido uma tampa que se degrade com o tempo e deixe o líquido evaporar (e o fato de ela deixar de observar o frasco seria mera coincidência). Ela poderia gastar mais tempo da sua vida elaborando testes complicados e precisos para cada uma dessas hipóteses, mas honestamente, Denise tinha mais o que fazer. Existem respostas que não querem ser encontradas. E mistérios que devem continuar sem resolução.

Nas veias, a primavera

Uma rodovia no coração da floresta. O asfalto era novo; afinal de contas fazia menos de seis meses da última eleição. A mata e a umidade ainda não o tinham corroído. No KM 56, via-se uma bar. O reboco desgastado, mostrando o tijolo vermelho indicava que ele estava ali a muito tempo. As árvores em volta do bar formavam um ninho verde. Um viajante distraído não perceberia que ali existia uma parada.

Atrás do bar existia uma casa simples: 2 quartos, sala cozinha. Nela, morava Martinho e sua esposa Antônia. Os filhos partiram para a capital. Eles continuavam ali, cuidando do bar. Serviam almoço caseiro pros caminhoneiros que passavam durante o dia. Serviam bolinhos de pirarucu com cerveja ou aluá gelados. As vezes uma cachacinha. E a vida seguia sem maiores movimentações. Até que ele chegou.

Ele era pequeno, mas não chegava a ser um anão, devia ter lá 1,50. Tinha um corpo de criança, como se tivesse parado de crescer assim que chegou a adolescência. Não era bonito nem feio, e mesmo assim era impossível não olhar para ele. Seu rosto aparentava ter uns 30 anos. A pele era morena e os cabelos pretos, mas sobre a luz eles emitiam um brilho vermelho. Ele se sentou no balcão e não disse nada, ficou apenas brincando de três marias com sementes de jerivá.

– O senhor vai querer o que? – perguntou Martinho.

O assobio cessou. O homem levantou os olhos e falou com uma voz grave, como se fumasse muito ou estivesse a muito tempo sem beber água

– Não tenho dinheiro. Quero sentar apenas.

Martinho se afastou. O homem voltou para a sua brincadeira.

– Sujeito esquisito… – cochichou com a esposa.

– Deixa de ser besta! Ele deve tá com problema. Por aqui é sempre assim. – E Antônia se aproximou do desconhecido com uma jarra de água gelada e um copo.

– Para beber água não carece de dinheiro não moço. E nesse calorão de fim de inverno, uma aguinha gelada cai bem…

O homem suspirou. Virou a água num gole só.

– Rapaz, se fosse da branquinha você tinha desmaiado.

– Se fosse da branquinha, eu tinha bebido o dobro na metade do tempo – e sorriu. Antônia viu um brilho verde nos dentes do desconhecido que a intrigou. Mas ficou feliz do desconhecido ter baixado a guarda. Puxou a cachaça que guardava debaixo do balcão:

– Duvido. – e encheu o copo até a borda. O homem deu um sorriso largo e virou copo. Ao final deu um suspiro de satisfação e uma breve gargalhada.

– Agora que você já tomou o remédio, me conta da doença. O que te incomoda, moço?

O sorriso sumiu. O homem suspirou de novo, dessa vez de forma pesada e cansada.

– O futuro.

Foi a vez de Antônia virar os olhos e suspirar. Não gostava de gente misteriosa. Seu bar sempre esteve aberto a todo tipo de gente. Ela era gentil e acolhedora. O mínimo que ela desejava é que as pessoas fossem pelo menos abertas.

– O futuro a Deus pertence moço. Não é motivo de preocupação. É dor de amor ou dor de falta de dinheiro?

O homem deu outra gargalhada. Martinho pensou que devia ser dinheiro, afinal, o homem não podia pagar a própria cachaça. Devia ter vindo de outro estado, para trabalhar em alguma lavoura e agora não tinha nem emprego nem como voltar. Martinho já vira isso acontecer muito.

– Dinheiro não me interessa. E amor nunca foi problema. Minha questão é de outra ordem. Maior e mais confusa. Mas você parece realmente interessada. Te conto, se quiser. Por mais uma dose dessa cachaça e por um pouco daquele fumo.

Antônia assentiu com a cabeça enquanto Martinho sinalizava para não dar. Há um limite para caridade e um copo grande de cachaça parecia mais que o suficiente.

O homem virou a cachaça de uma vez, suspirou e riu de prazer. Começou a falar enquanto picava o fumo:

– Já sentiu que você não serve mais pro mundo? Que o que você sabe fazer é inútil? Pois teve um tempo em que eu era o rei dessas matas. Caçador nenhum matava bicho sem que eu soubesse e autorizasse. Para derrubar árvore tinha que falar comigo primeiro. Eu sabia de tudo, eu controlava tudo. Via de longe quando alguém mal intencionado entrava na floresta. Eu ajudava também. Já ajudei muita gente a voltar com o jantar para casa.

O homem fez menção que queria fogo para acender o cigarro. Antônia estendeu o isqueiro. Martinho, que ouvia tudo de longe se aproximou. Aquela conversa, a chama do isqueiro evidenciando ainda mais o brilho vermelho dos cabelos do homem… Martinho não se conteve. Se debruçou discretamente sobre o balcão. Precisava ver os pés do desconhecido.

– Pode olhar moço. Eu abandonei esse truque. Não funciona a muito tempo. É esse o problema. Antes os caçadores entravam nas matas, sozinhos ou em grupos. Agora, eles simplesmente queimam as matas. O fogo, você sabe, vai para onde o vento quer. Ele não liga para pegadas. – e deu uma tragada profunda. O coração de Antônia batia tão forte que podia ouvi-lo. Será que era mesmo ele? Ali, no seu bar, não na mata mas na beira de uma rodovia? Ou era um louco? Um alcoólatra que gostava de contar histórias?

– Nenhum dos truques que eu sei faz diferença. Se eu imito a voz de um lenhador, para afastá-lo do grupo, ele encontra o grupo usando um telefone celular. Se eu imito bicho raro, para tirar eles da trilha, eles a reencontram com GPS. Você já viu as maquinas que eles usam? O ruído abafa até o meu assobio mais agudo.

O homem segurou o copo vazio, rodando ele nas mãos, enquanto pitava o cigarro. Antônia achou que ele queria mais cachaça e dada a revelação que foi feita, parecia o certo a fazer. Encheu. Martinho não se opôs, permanecia medindo o desconhecido de cima a baixo.

– Muito obrigado moça. Eu não vou me esquecer disso. Eu e a mata… Nós somos meio que uma coisa só, entende? Quanto mais fraca ela fica, mais fraco eu fico. Como uma onça que só se alimenta de tapiti, entende?

Antônia fez que sim com a cabeça. Sabia que o marido ainda desconfiava, mas ela sentia que o desconhecido falava a verdade. O brilho dos cabelos, dos dentes, o assobio. Tudo parecia sobrenatural, fora do lugar. O Curupira estava no bar dela. Queria ter aquelas câmeras que revelam a foto na hora, para poder pregar uma foto desse momento na parede. “Vão dizer que eu enlouqueci, mas é verdade. É a mais pura verdade” – ela pensou. E mesmo buscando no fundo do coração, ela não sabia o que dizer para consolá-lo. Como é que se alivia o coração de uma entidade da floresta?

– A primavera está vindo aí. Logo vai chover como se não houvesse amanhã. A mata vai invadir as estradas e os espinhos vão fechar os caminhos. Quando a primavera chegar vai ficar tudo bem moço – quem disse foi Martinho. Antônia achou que era apropriado. O Curupira deu um meio sorriso. A primavera era um bom presságio mesmo. A chuva aplacaria o fogo e revitalizaria as plantas. A primavera o fortaleceria, isso era fato. Mas ele não teria muitas primaveras se continuasse como estava. Precisava de uma saída.

– Que assim seja -, respondeu a criatura. Apagou o resto do cigarro e fez menção de sair:

– Obrigada pela prosa, pela cachaça e pelo cigarro. Nós nos vemos na floresta.

– Volta sempre que precisar – gritou Antônia. Um convite inadequado para se fazer, com toda a certeza. Mas tinha sido de coração.

– Antes de você ir, será que pode fazer aquele truque só uma vez? Sempre quis saber como seria. – perguntou Martinho tal qual uma criança perguntaria se podia abrir o presente antes do parabéns. O Curupira gargalhou, e dessa vez o sorriso ocupava todo o rosto.

– Considere feito.

E Martinho e Antônia acompanharam incrédulos as pegadas que se formavam no chão.