Inquietar

Ficcção, poesia e doses homeopáticas de realidade

Charlie Hebdo

E ai, de repente, todo mundo está chocado com a falta de sensibilidade da civilização ocidental, que se impressiona com o assassinato de 12 pessoas mas é incapaz de juntar multidões para pedir que o Boko Haram pare de empilhar corpos na Nigéria.

Em primeiro lugar, ainda que os ocidentais, os habitantes da europa-américa continuam pessoas. E agem como tal. me impressiona essa gente tão disposta a considerar a dimensão afetiva das coisas, tão avessa a regras rígidas de comportamento cujo objetivo é controlar a subjetividade do julgamento esquecendo da afetividade nesse caso. A morte de um ser humano só pode ser equiparada a morte de outro no campo racional, intelectual, filosófico. No campo afetivo faz toda a diferença se quem morreu foi a própria mãe ou uma senhorinha no interior do Ceará.

Protestos e marchas NÃO são atos racionais. Acontecem no calor do momento e da emoção. Supor que 2.000 nigerianos mortos comoveriam tanto quanto 12 jornalistas franceses é como supor que a queda de um avião faria um individuo chorar tanto quanto no dia que seu pai faleceu. Não é assim que seres humanos funcionam. Não é assim que a afetividade funciona. Amamos mais aquilo que nos parece semelhante e ficar horrorizado com isso é um ato de desonestidade consigo mesmo. A afetividade não consegue ser justa, fria,  matemática. Aliais foi por isso que criaram as leis. uma forma de trazer alguma estabilidade ao mundo governado por emoções.

Também me impressiona que essas pessoas que acusam a insensibilidade da civilização ocidental sejam as mesmas que acusam a civilização ocidental de ser imperialista, de sair por ai impondo seus valores a outros países e deixando-os com o terrorismo como única forma de resistência.

Bom, quer coisa mais imperialista do que fazer uma marcha contra algo que aconteceu em outro país – lembrando que esse país é militar e economicamente mais fraco que o país autor da marcha?

E vamos supor que após a marcha os franceses descubram que o Boko Haram não dá a mínima para o que uma bando de ocidentais pensa ou deixa de pensar sobre os atos deles (lembrem-se do “devolva nossas meninas”). E que o grupo continue tacando o terror na Nigéria. E aí? Os franceses fazem o que? Vão para casa frustrados pensando “Oh, droga, não funcionou!”.

Não, não é isso que aconteceria. O dia que a civilização ocidental realmente se importar com o que acontece na Nigéria, o dia que 2.000 mortos ofenderem tanto quanto 12 chargistas, nesse dia o que vai se ter é uma guerra. E vai ser um guerra bem imperialistas, desses em que se impõe valores, se elimina qualquer simbolo que associe a situação atual ao grupo que detinha antes o poder.

Aí, eu fico pensando quanto dinheiro esse pessoal que fica postando certas coisas sobre a Nigéria esta recebendo da extrema direita porque não consigo pensar num motivo melhor para invadir um país do que capturar um bando de terroristas e livrar o povo da opressão. Isso, com apoio popular é reeleição garantida por uns 12 anos. Bush, Thatcher, não pensariam duas vezes. Eu mesma, se fosse líder de uma potência militar acho que não pensaria.

Então me incomoda que essa gente que diz temer uma reedição das cruzadas seja a mesma que acuse o ocidente de só se importar consigo mesmo. Que ignoram o obvio fato de que um país deve respeitar as fronteiras e decisões politicas de outro.

Ou sei lá. Talvez devemos nos importar com a Nigéria mas não muito. Só o suficiente para menosprezar o que aconteceu em Paris:

– Eu ia para a marcha contra o terrorismo, mas não vou mais. Dane-se o Charlie Hebdo, acabei de descobrir que mataram 3000 pessoas na Nigéria.

– Nossa, mas então o que você vai fazer?

– Ah, acabei de comprar o FIFA 15. Acho que vou jogar.

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“Cordas” Legendas em Português

Um filme absolutamente precioso!

a.mar

Prémio da Melhor Curta Metragem de Animação, 2014. Que seja o filme mais visto pelos nossos filhos. 10 minutos de pura emoção!

“Cordas”, é uma curta espanhola, que ganhou o Prémio Goya 2014, na categoria de “melhor curta-metragem de animação”.

“Cordas”: Prémio da Melhor Curta Metragem de Animação, 2014. Que seja o filme mais visto pelos nossos filhos. 10 minutos de pura emoção!
Cordas, ganhou o Prémio Goya 2014, na categoria de Melhor Curta Metragem de Animação espanhol.
O filme conta a história de uma menina doce que vive num orfanato, e que criou uma ligação muito especial com um novo colega de classe que sofre de paralisia cerebral. É também uma obra que fala de valores e sonhos, cativando o espectador desde o primeiro ao último minuto.

Ver o post original

Nota sobre o dilúculo

Eu sonhei com você outro dia, cara. Eu tive vontade de te ligar na hora, mas me contive porque eu sabia o que significava e eu não queria encher seus ouvido com o óbvio. Pensando bem, talvez você gostasse de ouvir o óbvio dos meus lábios… Não, espera, eu é que gostaria de dize-lo para você.

Mas enfim… foi um sonho de imagens bem bonitas, cinematográficas, e cara, fazia tempo que eu não tinha um sonho assim. Já tem um tempo que eu não diferencio mais pesadelo de sonho; é sempre sonho porque já faz muito tempo que eu não acordo assustada, até mesmo quando devia.

Você não me via, ou se via, aparentava não ver. Eu estava deitada, num chão azulejado, exercitando minhas habilidades de encher e esvaziar uma boia de acordo com o movimento das mãos. Era divertido e meio esquisito. E você passou, impressionado com a sua habilidade de fazer metais levitarem. Quanto mais você se aproximava de mim, mais alto o metal subia.

Eu sabia o porquê: a sua habilidade de levitar era na verdade a MINHA habilidade de levitar. Eu quis gritar para você, falar a verdade. E aí veio ela. A menina-morta, que dessa vez estava uns dez anos mais velha (mas chamo de menina, porque não quero criar outro ser inventando um novo nome).

Ela falava, eu respondia. Não sei sobre o que era a conversa, mas era irritante. E ela falava muito. Falava tanto que em determinado momento eu tapei os ouvidos e comecei a gritar “nananananana”. Sim, esse é o meu nível de maturidade ao lidar com um fantasma ou demônio. Gritar “nanananananana”.

Você passou pela porta que misteriosamente desapareceu assim que você saiu. Eu podia te ver através da parede e decidi demonstrar minhas habilidades atravessando-a. Eu não cheguei a terminar de atravessa-la. Em algum momento eu me dei conta que a parede era um espelho. Acabei por enxergar o meu próprio reflexo. Meu rosto era uma caveira, dessas recentes com carne morta por sobre os ossos.

É, talvez no meu sonho eu estivesse morta. Digo isso menos pela caveira e mais porque a menina-morta me puxou para fora da parede e eu não sei o que ela fala mas pela minha expressão era algo tipo “eu não te avisei?”.

Deve ter avisado, mas isso não fez diferença na hora. Eu e ela iniciemos uma discussão que termina em contato físico. Eufemismo para briga.  Acordo com o corpo paralisado dando ordens desesperadas ao meu cérebro para deixar eu mover braços e pernas. ” – Cansei de discutir, sério. Cansei. Deixa eu acordar desse sonho, aliais, eu já acordei você é que não percebeu!”.
Uma hora eu acordei de verdade. Lamentei não saber atravessar paredes, levitar objetos ou encher balões com movimentos de mãos. Agradeci pela pele em volta dos meus ossos ainda estar viva. Quis te ligar, mas era cedo ainda. Dormi.

Gerador Aleatório de Texto – I – Me aventurando em trilhas sonoras.

======================= AVISO =======================

O texto a seguir foi composto por motivo de muito tédio utilizando a adaptação de uma milenar técnica estudantil para passar o tempo. A técnica original consiste em solicitar palavras aleatórias para as pessoas ao seu redor e reorganizar essas palavras num texto que faça sentido de forma a ocupar o espaço de um aula tediosa. Nessa adaptação, selecionei 05 frases (as frases que abrem cada parágrafo) em cinco postagens da minha timeline no facebook. A sexta postagem forneceu a frase que dá título ao texto. Trata-se de uma avançada técnica de procrastinação e não deve ser praticada no trabalho sobre risco de você deixar suas obrigações para a última hora. O texto – bem como esse aviso – não pretendem fazer sentido. Leia por sua própria conta e risco. 

======================= FIM DO AVISO =======================

 

Me aventurando em trilhas sonoras 

Ler dá sonhos. É verdade, foi um livro que me trouxe até essa encruzilhada: “Como ultrapassar as limitações do espaço e tempo se locomovendo através de ondas sonoras”. É um título longo, eu sei, mas consegui comprá-lo por apenas R$ 9,90 numa promoção de supermercado. Agora eu estou parado no ponto H, esperando a frequência correta que me levará a aventuras inimagináveis.

 

Navegando ali e lá reparei que é bem mais difícil circular por ondas sonoras do que o livro fazia parecer. Também é difícil se orientar: pelos meus cálculos em breve completarei um ano de travessia. Não tenho ideia de como voltar para casa. Entendo agora porque o livro estava tão barato; na prateleira ao lado havia um GPS por 1.119,00. Achei demasiado caro. Deveria ter comprado. Será que eles aceitam encomendas via telefone?

 

Na primeira anuidade do “Gpastor – conversor de ondas sonoras em ligações telefônicas” me arrependi enormemente de não ter ativado o roaming-outras-dimensões do meu plano de celular. Impressionante como as companhias de cobrança conseguiam me encontrar mas eu não conseguia achar o caminho de casa ( a parte boa é que também não encontrava uma lotérica para pagar as faturas). Pelo menos consegui comprar o GPS. Ainda não entregaram. Será que ficaram perdidos?

 

O meu abraço adiado finalmente pode ser realizado. Depois de percorrer vários timbres e frequências diversas finalmente consegui voltar para casa. Voltei com dívidas astronômicas, quilos de exaustão e histórias estranhas para contar.

 

Como saber se o que sinto é real ou ilusório? Não me pareço mais com a pessoa que eu era antes de partir. Nada em casa me apetece mais. Hora de partir. Será que há algum livro em promoção? 

 

O Lado B do Monumento¹

Ele era do tipo meio bombado, meio intelectual. A parte intelectual se notava de longe, era só atentar para o consumo voraz de produtos culturais intercalados com doses cavalares de calorias de fast-food. Por outro lado, quando ele falou que frequentava a academia regularmente e que já tinha mais de dois anos que fazia isso, minha única reação foi soltar um sonoro: “jura?” (e, claro, correr o olho de cima abaixo em busca de uma veia saltada, um músculo super desenvolvido, calos nas mãos ou qualquer outro sinal que comprovasse a afirmação que me fora dita).

Ele não possuía um físico atlético – era mais magrelo mesmo -, mas aparentava ser sistemático o suficiente para frequentar uma academia, portanto eu me dei por convencida. Ele era tão sistemático que comia de 3h em 3h e escrevia regras de comportamento para passageiros de ônibus.

Ônibus eram uma constante na vida dele, já que ele equilibrava um mestrado e um emprego separados por 350 km de distância. Convém pensar que isso trazia algumas possibilidades, dentre elas, se entregar a extravagancia das férias sempre que seu coração solicitasse. Afinal de contas, viajar é estar de férias.  

Do mestrado, eu sei pouca coisa. Aliás, eu não sei nada. Apenas especulo: pilhas de artigos para rever, obras para escrutinar, normas da ABNT para aplicar. Em resumo, uma alma enclausurada numa cela de conceitos, autores e técnicas. Uma função amarga. 

Do trabalho, eu sei mais coisas. Sei que como professor de literatura ele é um excelente sociólogo. E professor de artes também. E curador de videoteca. Capaz de ensinar observação participante a partir de “Alice no país das maravilhas”. Capaz de transformar uma cidade num verbo e num adjetivo. 

Admito que, a princípio, ele era um enigma político. Saí do nosso primeiro encontro sem saber se tinha conhecido o maior dos reaças ou um esquerdista irônico. Ainda me pergunto se o meu feminismo pode conviver com suas inquietações de homem moderno. De qualquer forma, liberal nos costumes e comunista na economia é, provavelmente, uma definição mais precisa. Ou, abandonando os rótulos de lado, alguém que se permite pensar sobre a nação, ainda que a localização geográfica não colabore.

Nosso primeiro desencontro foi num cinema localizado na rua Gonçalves Dias . Tanto eu quanto ele sabemos quem foi Gonçalves Dias – devemos até saber alguns versos de memória – o que, certamente, nos faz menores. Mas isso nada tem a ver com o nosso desencontro, que foi provocado pela meu amor ao vôlei e a minha inabilidade em considerar o celular um telefone móvel. Nesse dia, enquanto ele via um filme, eu seguia para casa. Desde então nunca mais nos vimos – apenas conversamos pela internet, que no século em que vivemos é praticamente a mesma coisa que se ver.

Encerro esse texto dizendo meia-duzia de coisas inúteis que eu ainda não disse sobre ele estão: sua rejeição pelo Skype, seu desprezo por adaptações fidedignas, sua preferência por milk-shake de frutas vermelhas, seu desconhecimento sobre os caminhos de Belo Horizonte e sua habilidade em adiar eternamente um jantar num restaurante Tailandês.

1. Trata-se de uma referência muito ruim a esse texto. Cogitei fazer uma referencia ainda mais infame a esse texto, mas me contive. A grande verdade é que eu nunca soube dar títulos aos textos.

Um post do sempre excelente Carlos Orsi… Só para tirar a ferrugem do Blog e manter esse texto ao alcance da mão (eu sei que algum dia eu vou querer voltar a ele):

Tá tudo bem não entender o que se passa

 

 

Azul a cor mais quente

Sem que alguém que me convidasse, dificilmente eu veria esse filme. Todo o burburinho que surgiu em torno dele tem mais a capacidade de me afastar do cinema do que de me atrair. As críticas que surgiram e os comentários das amigas que assistiram não ajudavam a tornar o filme mais atraente. De qualquer forma, surgiu o convite e eu acabei assistindo. O texto abaixo contém inúmeros spoilers.

Admito que a primeira metade do filme fluiu de forma bem mais divertida do que eu esperava. Eu senti empatia pela Adélia logo de cara. Os cabelos desgrenhados, o olhar perdido, indicavam que Adélia ainda não tinha encontrado seu lugar no mundo. Os sonhos molhados, a decisão de transar com o colega de classe, de beijar a amiga no banheiro e de ir a um bar gay apontavam que Adélia estava explorando sua sexualidade. E faz todo o sentido do mundo que uma garota que ainda nem atingiu a maioridade explore a própria sexualidade.

Adélia não gosta de fazer resenhas sobre os livros que lê (mas adora ler), não gosta que leiam seus poemas (mas adora escrever), não se importa de sair com garotas desde que não seja contestada por seus pais ou colegas de escolas. Adélia não nasceu para o espaço público, ela só opera no âmbito privado.

Meu primeiro desconforto real com o filme foi na cena do bar gay (eu já estava desconfortável com os incessantes closes de boca e bunda, mas estava disposta a relevar isso se o restante do filme compensasse). Para quem é gay (ou para quem pensou em algum momento da vida que era gay), ir a uma boate gay é como debutar. Tudo é novo; a naturalidade com que as pessoas ao redor expressam sua sexualidade é chocante, mas de um jeito acolhedor. Adorei a fala do homem mais velho tatuado, e esse é um momento onde os closes de bocas realmente fazem sentido. È a primeira coisa que você repara quando entra num bar gay: a quantidade de gays se beijando.

Mas aí vem a cena da conquista. Admito que o burburinho que a Adélia causa ao entrar no bar me causou estranheza e na hora eu não consegui decodifica-lo. Mas então nós seguimos Adélia pelo bar até que ela finalmente encontra seu objeto de desejo, Emma. A aproximação das duas é meio cafona: Emma é superconfiante, meio machona, encarna a figura protetora que irá proteger Adélia das outras lésbicas malvadas. Ela é mais velha e mais sábia, enquanto Adélia é uma criança perdida num mundo de adultos. Admito que vendo essa cena somada aos closes de bunda, pensei imediatamente em “Queer as folk”, na cena em que Justin e Brian se conhecem. Não é difícil encontrar exemplos literários e práticos de casais formados por uma pessoa mais velha e experiente (que funciona como tutor), e um efebo. Dos gregos ao Luiz Mott, é um imaginário consolidado. Exceto por alguns filmes pornôs, não me lembro de relacionamentos lesbianos que seguissem a lógica tutor/mestre. A própria ilha de Lesbos, onde Safo ensinava suas ninfetas a arte da poesia, nunca teve o aspecto geracional tão marcado (quando comparado ao exemplo grego). E eu estou falando isso tudo para dizer que eu compreenderia muito melhor essa cena se tratasse de dois homens ou de um homem e de uma mulher. Mas sendo as duas mulheres, fica um pouco mais complicado para mim chegar ate – onde eu acho – que o autor que me levar.

 

Há um outro aspecto – estético e bem bobo – que me impede de compreender Emma como um macho-alfa: ela é mais baixa que Adélia. Essa detalhe bobo, me fez dissipar a ideia de que ela seria o macho-alfa. Ela é mais sábia e sabe se portar no mundo adulto, mas não, ela não é macho-protetor-tradiconal que já figurou em tantas peças (ou você conseguiria imaginar, no cinema, um casal hetero cujo personagem masculino pretenda ser protetor e provedor e que seja, ao mesmo tempo, mais baixo que a mulher?).

Daí nos seguimos para o inicio do relacionamento das duas e para as famigeradas cenas de sexo. Na minha cabeça, as cenas de sexo teriam que ser quentíssimas pois representavam o fim da busca de Adélia, a concretização da sua sexualidade. Teria que ter pelo menos o dobro de tesão da primeira cena (com o colega de escola). E bem, realmente achei que as atrizes não estavam confortáveis com os papeis que estavam assumindo. As cenas me soaram burocráticas, sonolentas. Não consegui identificar os símbolos que eu associo a uma transa realmente boa. Aliais, o suor (ok, eu estou supondo que é suor, não sei se é mesmo) na face superior das duas pareciam mais lagrimas do que de fato suor. A própria boca – tão incessantemente focada durante todo o filme – aparece nessas cenas secas.

As tais cenas de sexo são intercaladas com cenas das duas se conhecendo melhor. Emma apresenta Adélia a família e aí a gente entende melhor de onde ela veio e o que é importante para ela (ter um carreira). Entendemos também que para Adélia isso é irrelevante – a vida prática é um valor muito mais concreto. Adélia apresenta Emma a família, mas não tem coragem de assumi-la como namorada. Adélia não tem coragem de assumir seus próprias desejos. Emma parece frustrada, mas não o suficiente para que isso a afastasse de Adélia.

As cenas de sexo acontecem basicamente em função da bunda, o que coloca as duas gozando de costas uma pra outra. Passei boa parte do filme tentando entender o que isso significativa: seria um símbolo da distancia que existe entre as duas? A resposta que me parece mais plausível é também a mais frustrante.

Mas o filme segue, as duas crescem, passam a morar juntas. Adélia é uma esposa exemplar e uma ótima professora. Lida maravilhosamente bem com crianças. Aparentemente, Adélia não tem outra perspectiva fora a escola e Emma.

Aí tem a festa. E da mesma forma que Adélia não conseguia ficar a vontade na parada gay (é delicioso comparar a cena dela na manifestação estudantil e dela na parada gay), ela não conseguia ficar a vontade entre os amigos de Emma. Ela tenta compensar seu desconforto de concentrando na materialidade, se concentrando em alimentar e embriagar os convidados e isso só causa mais desgaste. A única pessoa com quem ela consegue conversar é com um ator Hollywoodiano – alguém provavelmente tão deslocado quanto ela.

E aí temos Lize. Alguém com traquejo suficiente para lidar com um bando de pós graduados, mas aparentemente Emma não está fascinada com isso. O que entra em close logo após a troca de olhares das duas é a enorme barriga de Lize. Nesse momento, você sabe que Adélia perdeu. Que é questão de tempo até que Emma faça a troca.

O filme segue e Lize e Emma ficam cada vez mais próximas. Adélia se sente sozinha e acaba se envolvendo com um dos professores da escola. Chegamos a cena da briga.

A reação de Emma me pareceu absolutamente desproporcional ao que ela de fato viu. Tivesse ela aberto a porta do quarto e pegado Adélia no flagra, teria sido ok. Mas da mesma forma que seria absurdo Adélia esperar no escuro Emma voltar de um dos seus “encontros de trabalho” com Lizze, é absurdo ela colocar a parceira de anos para fora de casa porque ela pegou uma carona (e antes de Adélia confessar, o espectador já percebe que Emma quer seguir com a briga). A insistência de Emma na palavra “puta” também me incomodou. Como alguém termina um relacionamento sem realizar nenhuma autocrítica e/ou se vitimizar? Aparentemente, Emma não guarda nenhum remorso, nenhuma saudade. É nítido que ela apenas queria uma desculpa para encerrar uma relação que já não era mais satisfatória.

Só que essa cena é mais do que isso. A repetição da palavra “puta” não é involuntária. Se você é burro como eu e não entendeu até agora o que o diretor quis dizer, bom, é nessa cena que ele desenha filme. Você se lembra dos closes de bunda e boca, das cenas de sexo por trás, do efeito avassalador que Adélia tem sobre as mulheres, despertando seus instintos mais selvagens? Pois bem, tudo isso era só para dizer que Adélia é uma puta. Os closes, o voyeurismo, na verdade o diretor não quer que você crie empatia com Adélia; ele quer que você a deseje. Que você a enxergue, durante todo o filme, com os olhos que Emma enxergou nessa cena. Adélia é um furacão de sexualidade, uma versão catarrenta e desarrumada de uma Lolita, com quem é possível transar mas jamais casar e ter filhos.

Emma deixa Adélia para se casar com Lize. Aparentemente, o cotidiano das duas é muito semelhante ao cotidiano que Emma tinha do Adélia. Emma apenas trabalha e Lize faz surpresa ornamentando a mesa de café da manhã com flores. A grande diferença entre as duas é que Lize sabe se portar entre os amigos de Emma. Lize é, afinal de contas, uma esposa que Emma pode ostentar.

Mas não é isso que Emma apresenta como sendo a principal qualidade de Lize. A principal qualidade dela é ter gerado uma menina. A “fase vermelha” de Emma é constituir uma família. Na cena do café, Emma deixa bem claro que jamais constituiria uma família com Adélia. Como se apenas Lize fosse capaz de lhe dar uma família.

Mas afinal de contas, o que é uma família? Oras, nada nesse mundo é mais material e repetitivo do que constituir uma família. Adélia guardava todos os requisitos para isso: lidava maravilhosamente bem com crianças e tinha todos os atributos necessários para cuidar de uma casa. Porque Emma não poderia criar um filho com ela?

Oras, porque só dá para constituir a ideia de Adélia é uma puta, opondo essa imagem a figura quase santa de Lizze grávida. Se você é esperto e viu esse filme com olhos heteronormativos desde o inicio, você não ficou surpreso com a “revelação” de que Adélia é uma puta. mas se você for burro, se você não compartilha dos mesmo símbolos e ícones que o diretor, bem, é fazendo uso da oposição santa-puta que ele deixa bem claro o tema central do filme.

Se Emma simplesmente abandonasse Adélia porque ela não quer estudar e portanto nunca irá satisfazer os anseios sociais de Emma, teríamos apenas um romance que não deu resto. Os closes de boca e bunda perderiam sua significação. Até as cenas de sexo perderiam sentido. Mas ao opor a figura de Adélia a figura de Lizze, retomando o binômio puta-santa, aí toda a objetificação de Adélia faz sentido. Até a escolha da bunda e da boca faz sentido.

Se as cenas de sexo fossem heterossexuais, ou seja, se Emma fosse um homem, eu teria entendido a objetificação de Adélia imediatamente. O ponto de vista que define uma mulher como vadia é sempre um ponto de vista masculino; um homem tem o poder de transformar em vadia uma mulher que quer sexo com ele e uma mulher que não quer. Não há critério objetivo, vadia é aquela mulher que fez algo que um cara não gostou. Até quando o xingamento vem de uma boca feminina, ele sempre está relacionado com algo que a mulher fez ou deixou de fazer em relação a um homem.

Dito isso, se Adélia aparecesse em cenas calientes de sexo anal com um homem, a caracterização dela como vadia estaria claríssima. Uma mulher admitir que tem prazer ao fazer sexo anal é provavelmente o caminho mais curto para ser caracterizada como vadia. Em escala menor (porque os costumes vão mudando no decorrer do tempo), pode-se dizer o mesmo da boca. Pudico é apenas o sexo vaginal, e talvez por isso quase não se veja bocetas durante o filme.

Mas sendo as duas garotas, isso passou despercebido para mim. Sabe, lésbicas não escrevem para programas de TV pedindo dicas de como comer o cu da namorada ou de como convencer o namorado a parar de pedir isso. Não que lésbicas não façam sexo anal – elas fazem – só não é uma grande questão. Então, quando eu vi as duas meninas do filme transando eu pensei em tudo, menos numa relação de poder onde Emma detivesse o poder de definir Adélia como vadia.

No fim, eu não gostei do filme porque não fui capaz de decodificar os símbolos do diretor. Não consegui acompanhar o seu olhar. Isso não faz do filme um filme ruim (a depender de como seja o quadrinho que o originou, pode ser uma má adaptação). Mas não sou obrigada a gostar de um filme só porque ele tem uma boa fotografia e um roteiro verossímil.

Com relação as polêmicas de bastidores, as cenas de sexo certamente atraíram muito público para o cinema, mas ainda acho que elas contribuem pouco para trama, especialmente ao se levar em conta o depoimento das atrizes e as expressões de constrangimentos que elas deixam escapar durante a filmagem. “Shortbus”, “A concepção”, “Baixio das Bestas”, “Nove canções” fizeram um uso melhor desse tipo de recursos. 

Até o igualmente polêmico (e comparado aos filmes atuais, bem pouco pornográfico) “O ultimo tango em paris” consegue construir melhor uma conexão entre a trama e a sexualidade crescente dos seus personagens. Se serve de consolo (e provavelmente não serve) o abuso que Maria Schneider sofreu diante das câmeras ao menos contribuía para a narrativa que estava sendo criada. No caso de “Azul é a cor mais quente”, o efeito é exatamente o oposto.